EDITORIAL: Eu adoro, tu adoras, eles adoram…

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Marcelo Henrique e Manoel Fernandes Neto

A conjugação verbal, no correto vernáculo, contempla a primeira e a segunda pessoa do discurso (Eu, Tu) e arremata com o conjunto formado por todos os que não estiverem presentes ao diálogo (Eles). Será, mesmo, que todos adoram? E, em sendo afirmativa a resposta a este questionamento, há diferenças entre o como se adora?

Pense você, leitor, um pouco… Olhe ao seu derredor. Como nem todas as pessoas são espíritas, e muitas, aliás, a imensa maioria, não possui a lente espírita para o entendimento de “todas” as coisas, é flagrante que neste pequeno fragmento do raciocínio e da ação humana, o verbo adorar irá comportar um sem número de situações e exemplificações.

O islamita que se ajoelha e se curva em direção a Meca, adora. O umbandista que entoa cânticos e repete passos de dança, adora. O cristão que se prostra diante da imagem do Crucificado, adora. O evangélico que cerra os olhos e repete o que o pastor entoa, adora. O budista que medita, adora. O espírita… Ei! E o espírita, como adora?

A pergunta, obviamente, é capciosa, provocativa e polêmica. O Professor francês não concebeu nenhuma religião e sabe-se que estas são dependentes de rituais, mandamentos, sacramentos, liturgias e exterioridades, em sua maioria. Mesmo as que sejam despidas de um ou mais destes elementos, ou se aproximem da real simplicidade e da ausência de aparatos exteriores, ainda apresentam características da necessária verbalização ou posição corporal.

Não sendo, pois, uma igreja, seita ou ideologia religiosa, o Espiritismo não se vale de nenhum comportamento de fé exteriorizada – ou, pelo menos, não deveria se valer – aproximando-se da desejada espiritualização para o contato do Espírito com outros Espíritos, com o Universo, com a Matriz Criadora ou com qualquer outro nome que se queira dar à Essência de tudo.

Adorar é, assim, um ato interior, de comunicação efetiva e transcendente do efeito inteligente com a causa inteligente, para nos valermos do próprio enunciado de Kardec. A simbiose que se materializa, em cada “ato de adoração” decorre da Lei Natural que a tudo preside. E, então, fica mais evidente a noção de que, quanto mais avançamos, mais nos tornamos aptos a entender (o que é) Deus e a relação que travamos com Ele.

Esta é uma edição riquíssima neste aspecto. De desconstrução, obviamente, das premissas estabelecidas por muitos que se dizem espíritas e que se encontram alinhados a grupos ou instituições, ditos espíritas, no Brasil e em outros países. E de reconstrução, considerando o caráter ao mesmo tempo progressivo e progressista da Doutrina dos Espíritos, resgatando a concepção original (de Kardec), que possui permanência e amplitude para a Eternidade, porque se baseia, justamente, na interpretação das ditas Leis Naturais (ou Espirituais).

Ela marca o ano de 2022 como o dedicado, pelo Espiritismo COM Kardec e pela Revista Eletrônica Harmonia, ao exame de cada uma das dez leis que vigem na Terra e em todos os Mundos Habitados.

Já no primeiro texto, num resgate de um preclaro pensador espírita espanhol, Miguel Vives y Vives, na tradução de José Herculano Pires, “O espírita perante Deus”, já é possível descortinar a necessidade de reelaboração da relação permanente Criador-Criatura e, sob a interpretação espiritista, estar ciente daquilo que está ao nosso alcance no sentido de adorar a Deus pelas ações do dia-a-dia, em “Espírito e Verdade”.

Adiante, Marcio Cardoso é ousado para apresentar defeitos do adepto espírita quanto à dependência de deus-es, isto é, tanto do Deus antropomórfico que as religiões concebem, com os sentimentos, as intenções e as ações que são “naturais” na espécie humana, considerando o desenvolvimento espiritual que nos possibilitou estarmos na posição de “ser inteligente da criação”, assim como de outras divindades a quem emprestamos importância e similaridade, como os intérpretes do pensamento espírita, desde Kardec e as Inteligências Invisíveis, da segunda metade do século XIX, passando pelos vultos espíritas do passado e chegando aos atuais médiuns, dirigentes, escritores e “guias espirituais” da atualidade. Eis o mote do artigo “Precisamos nos afastar de deus-es”.

Depois, José Fleuri Queiroz alinhava, em “Adoração, a Lei”, os principais elementos da obra kardeciana que caracterizam a Lei de Adoração, permitindo que nos seja possível revisitar o pensamento do Mestre lionês, tão esquecido pelos e tão desconhecido dos (como qualificou Herculano Pires) próprios espíritas.

A. C. Amorim esboça um interessante paralelo, “Sobre a Lei Natural e a Lei de Adoração”, entre o conhecimento da Lei Natural (ou das Leis Naturais, posto que são plurais) e a Lei de Adoração, já que a ampliação do entendimento acerca das balizas que regem a vida espiritual (dos encarnados e dos desencarnados) nos faz desenvolver o amor pelo Criador (adoração). E, em contrapartida, o sentimento que nutrimos em relação a Deus nos leva a buscar compreende-lo mais e melhor, numa retroalimentação que remonta aos vértices do progresso humano-espiritual (razão e sentimento), como afiançaram os Luminares Espirituais.

“Religião e Adoração” é a proposta de Ary Lex que avalia o desenvolvimento do sentimento que o homem expressa em relação a Deus, pelos séculos afora, partindo de ideias pueris e primitivas, nos selvagens, para compor e aperfeiçoar as noções de moral, compondo um código ético que lhes direciona a serem bons e solidários, uns com os outros.

Carmem Imbassahy, no seu “Deus, uma necessidade” surpreende ao tratar de modo lógico-funcional o sentimento de aproximação Criador-Criatura, a partir da contestação do dogma cristão de que o homem seria a imagem e a semelhança de Deus, porquanto o mal, existente naquele, seria caractere igualmente da Divindade.

Milton Felipeli brinda-nos com um ligeiro e agradável texto, bem ao formato radiofônico, para tratar de “Crendices e Superstições”, comportamentos atávicos do ser humano – inclusive no “seio” do Espiritismo, pela falta de acuidade de entendimento de muitos pontos doutrinário-filosóficos, adotando fórmulas mágicas e empregando objetos para alcançar determinados fins hipotéticos. Quantas vezes não vemos espíritas repetindo tais superstições ou crendices, nas quais depositam sua fé e seu “sucesso”.

Por derradeiro, Célia Aldegalega, em “A cabeça das mulheres”, contesta expressões da adoração religiosa, sobretudo o adágio acerca da criação divina de homens e mulheres, traçando um paralelo entre a idolatria em relação a Deus e à destinada a Jesus – tido, religiosamente, como o próprio ser divino encarnado. E a crítica é direcionada justamente àquele em que todo o pensamento cristão – e, temerariamente, parte dos que professam o Espiritismo – Paulo de Tarso, o genuíno desfigurador da mensagem do homem de Nazaré, com sua retrógrada visão patriarcal, que afasta a regra de isonomia presente em toda a Criação Divina.

Convidamos, assim, o leitor amigo para o exame de cada um dos textos selecionados, que contribuem para uma alargada visão da Adoração, enquanto Lei Espiritual Natural, degustando-os, com prazer e sem pressa!

ACESSE OS TEXTOS DA EDIÇÃO:

EDITORIAL: Eu adoro, tu adoras, eles adoram…

O espírita perante Deus, por Miguel Vives y Vives (in memoriam)

Precisamos nos afastar de deus-es, por Marcio Cardoso

Adoração, a Lei, por José Fleuri Queiroz

Sobre a Lei Natural e a Lei de Adoração, por A. C. Amorim

Religião e Adoração, por Ary Lex (in memoriam)

Deus, uma necessidade, por Carmem Imbassahy

Crendices e Superstições, por Milton Felipeli

A cabeça das mulheres, por Célia Aldegalega

 

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