As Peculiaridades de uma Arte Espírita, por Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 6 minutos

Marcelo Henrique

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A arte espírita é aquela que transmite idéias, preceitos, fundamentos, informações da filosofia espírita, através das suas mais diversas formas de expressão (artística), para expectadores, leitores, ou, até, consumidores.

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A expressão “arte espírita“, ao longo do tempo, já suscitou variados e constantes debates. De nossa parte, preferimos não polemizar e consideramo-la como sendo a comunicação das ideias espíritas através dos recursos artísticos, encampando, assim, toda e qualquer manifestação criativa do Espírito humano. Assim sendo, a par da conceituação dos compêndios especializados sobre “o que é ou não é” arte, preferimos ampliar ao máximo nossa compreensão sobre o vocábulo, para, assim, englobar, inclusive, as construções literárias de nosso tempo. Hoje em dia, com os recursos técnicos da informática, entramos ainda numa nova fase da arte, qual seja a da “arte cibernética”, sem nos importarmos se o produto (resultado) será ou não “consumível”, “econômica ou financeiramente avaliado“, ou, em última questão, “impresso e exposto”.

A partir desta premissa, procuremos situar o tipo de arte que recebe a adjetivação espírita. Lembramos, inicialmente, que as manifestações, seja do Codificador, seja dos Espíritos Superiores, na Codificação ou na “Revue Spirite” — principalmente no que concerne à definição da “música celeste” e da “arte espírita”, que, em suma, destacam que assim como a arte pagã foi sucedida pela cristã, esta última o será, um dia, pela arte espírita. Então, segundo o espírito Alfred de Musset (no fascículo de dezembro de 1860, da “Revue” — A arte pagã, a arte cristã, a arte espírita), “[…] o Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso, e ainda inexplorado, e quando o artista trabalhar com convicção, como trabalharam os artistas cristãos, haurirá nessa fonte as mais sublimes inspirações“.

A comparação com a arte cristã é, pois, necessária e inevitável. Ocupando-nos, tão-somente, da observação das obras renascentistas, vamos ter excelentes exemplos para nossa digressão em relação à arte espírita. Onde se encontram, via de regra, as principais obras que transmitem religiosidade e fé, sob a efígie cristã? Nas igrejas, mosteiros e museus, de todo o mundo. Aqui mesmo, no Brasil, se precisarmos analisar a temática cristã na arte, teremos que, necessariamente, adentrar às principais igrejas das metrópoles, maravilhando-nos com a perfeição das formas, a riqueza dos detalhes e a consistência das cores.

Este é, primordialmente, o ponto de partida para nossa análise acerca da profissionalização da arte. Mas, antes que dela nos ocupemos, façamos a seguinte admoestação: a que tipo de arte espírita estamos nos referindo? Isto, é claro, dentro da definição pontual de que arte espírita é aquela que transmite idéias, preceitos, fundamentos, informações da filosofia espírita, através das suas mais diversas formas de expressão (artística), para expectadores, leitores, ou, até, consumidores.

Digo isto, porque há uma diferenciação específica no tocante ao “uso” da arte. Explicando: há arte espírita feita dentro das instituições espíritas (e para elas), como mormente se costuma considerar o trabalho (notável e oportuno) das secções de educação espírita (das variadas faixas etárias), que utilizam-se dos recursos artísticos para aprender/ensinar os postulados espíritas. É (ou não) arte espírita? Sem dúvida, porque os pressupostos básicos acham-se atendidos (utilização de recursos artísticos e transmissão de idéias espíritas). E há a arte espírita destinada aos grandes públicos, não necessariamente adeptos ou frequentadores de instituições espíritas, como veremos a seguir.

Há, no Brasil, diversas companhias ou grupos de teatro espíritas. Vez por outra, eles visitam a sua cidade, geralmente apresentando esquetes ou peças — as mais das vezes, adaptações de livros consagrados, como os romances mediúnicos ditados por Emmanuel, por exemplo. Apresentam-se, assim, nos melhores teatros das cidades, cobram ingresso e atraem multidões (entre espíritas, simpatizantes e curiosos). Fazem arte espírita? Sem dúvida, porque novamente aqui, atendem aos requisitos estabelecidos como fundamentais (vide parágrafo anterior).

Vejamos outro exemplo: a instituição espírita gostaria de comemorar seu aniversário de fundação ou o do mentor espiritual ou de um antigo trabalhador. Configura e institui um concurso literário ou um de música-tema, tendo como enfoque uma ou outra homenagem. Define-se, pois, os critérios, organiza-se o trabalho do concurso, convidam-se os críticos e julgadores, recebem-se os trabalhos, efetua-se o julgamento e realiza-se, enfim, a cerimônia de premiação dos vencedores e apresentação (ao público) dos trabalhos. É arte espírita? Evidente. Novamente são notórias as premissas daquela.

Haveria, sem dúvida, muitos outros exemplos, tão ricos quanto estes. Mas, fiquemos por aqui, para podermos analisar os “tipos” colocados acima.

No primeiro caso, geralmente, a tônica é a do amadorismo. São estudiosos, interessados, alguns até expoentes da arte, em uma ou outra “modalidade”, filiados a este ou aquele grupo, ou, até mesmo, profissionais que militam no campo artístico, mas que emprestam voluntariamente suas horas livres a serviço da difusão da doutrina espírita, participando, numa instituição, nas áreas que são-lhe mais atrativas e propícias, como o caso da educação.

Nos dois outros, podemos ter uma maior ou menor profissionalização, na medida em que, na primeira situação, no exemplo da peça teatral, o grupo ou companhia “vive disso”, arregimenta pessoas capazes que credenciam-se através de cursos, universidades, trabalhos e outros, passando a buscar o sustento pessoal e de sua família, através da profissão artista. No outro, o do concurso (literário ou musical), geralmente são previstos prêmios (alguns em dinheiro, ou a publicação dos trabalhos, disponibilizando-se exemplares para o autor ou os autores, quando da publicação editorial ou da gravação, em estúdio, e a consequente comercialização do(s) trabalho(s) musicais). Este atrativo, inclusive, motiva artistas profissionais (nem todos espíritas ou simpatizantes da doutrina) para criarem seus trabalhos dentro da temática pedida, e, quase sempre, com excelentes resultados.

O leitor já deve ter percebido o real divisor de águas que existe na digressão acima. Em determinadas situações, temos a arte “amadora” e, nas demais, a “profissional”. Pelo visto, vamos aplicar aqui o adágio “daí a César o que é de César” para admitir que a “profissionalização” da arte espírita obedece aos parâmetros de sua configuração, em termos de objetivos e alcance. Assim, cabem alguns questionamentos:

— Qual o resultado que queremos?

— Que público pretendemos cativar?

— Com que “espécies” de propostas artísticas pretendemos “competir” no mundo social?

— Qual o produto que pretendemos colocar no mercado?

Penso, efetivamente, que uma configuração de arte não precisa, necessariamente, anular a outra. Entendo que há espaço, lugar, e até “mercado” para ambas. Havia, inclusive, há alguns anos, um comercial que vende “assinatura de jornal” que oferecia como “brinde” um compêndio ou um CD sobre a música popular brasileira, em que o fundo musical apontava para “aqueles que têm fino gosto e apurada percepção musical” (os que gostam da “boa” música). Mas, como “gosto não se discute”, há os que prefiram outros tipos de “música”, discutível tecnicamente. Assim, há mercado para todos, ou, como costuma-se dizer nas plenárias espíritas, a atração e o interesse por isto ou aquilo é direcionado pelo padrão progressivo-espiritual de cada Espírito.

Devemos, então, continuar presenciando apresentações e construções artísticas ainda majoritariamente amadoras na execução, embora possamos estar diante de virtuoses ou grandes valores expoentes das artes. O diferencial, em nosso parecer, está na “estrutura” da apresentação/veiculação e no público que se almeja alcançar.

Fazendo um paralelo com outra área em que militamos durante décadas — a educação espírita infanto-juvenil — costumamos apresentar o mesmo quadro comparativo: há as instituições que “aceitam” o trabalho, mas nele não investem “um centavo”, nem dão o apoio logístico e moral necessário para a melhoria da atividade; e há as que procuram credenciar para a tarefa os “especialistas”, que podem ser de duas tipologias: os pedagogos e professores das escolas e universidades públicas e privadas que, nas horas vagas, se vinculam às atividades educacionais em instituições espíritas; e, os que não sendo nem professores ou pedagogos, mas se dedicam à tarefa, inclusive participando de cursos de formação/especialização/reciclagem, tanto espíritas quanto da área pedagógica, para um melhor desempenho de seus misteres. Por fim, considerando que nem sempre há especialistas disponíveis, existem voluntários que se esforçam por coordenar tais atividades e, nesse caso, o próprio meio espírita realiza treinamentos ou solicita auxílio de educadores de instituições congêneres.

Por isso, tanto no segmento da Educação como no da Arte, há diferenças ou limites entre os “profissionais” e os “amadores”. E o resultado, caros amigos, será proporcional ao conjunto de caracteres que dispensarmos em seu projeto e execução. Em suma, se queremos uma arte de qualidade, necessariamente teremos que destinar aos executores um “quantum” de recursos e condições que possam desembocar em resultados positivos.

É a hora, assim, efetivamente, de se deixar de lado o proselitismo religioso e o Espiritismo “para dentro das nossas paredes e muros”, para apresentar à sociedade em geral a proposta espírita de visão do mundo, das relações interpessoais e das ilações entre o plano dos vivos e o dos mortos. E a arte espírita, sob os fundamentos e princípios da Doutrina dos Espíritos, contando com a qualidade dos recursos e das técnicas tem muito a contribuir com a difusão das ideias espíritas sem se preocupar com granjear adeptos e aumentar a frequência das instituições.

Há, assim, — mesmo mobilizando recursos financeiros e “premiando” financeiramente os profissionais da arte (ou da educação), no caso de atividades comerciais, nos palcos, auditórios e teatros existentes, com salários compatíveis aos de mercado, para propostas mais amplas —, que considerar que a máxima “dai de graça o que de graça recebestes” não deve ser o fator impeditivo e inviabilizador da remuneração dos que vivem da profissão arte ou da profissão educação (inclusive, nesse caso, há escolas particulares, “espíritas“, regiamente pagas, de norte a sul do país) assim como existem grupos musicais e teatrais formados ou integrados por espíritas. Neste caso, a métrica é outra, também baseada num adágio tido como evangélico: ser aquinhoado de acordo com o “suor de seus rostos“. Honestamente.

Esta é a nova (?) proposta da arte espírita para o nosso tempo!

E, mais uma vez, se não nos “instruirmos” para tal, e nos “amarmos” conforme a dicção espírita, poderemos, uma vez mais, enquanto humanos, estarmos passando à frente, para outros, o archote do conhecimento espiritual, para que outra concepção filosófica ou “revelação” divina, possa conduzir a contento a Humanidade. Porque nós, uma vez mais, nos omitimos, deixando de lado “o trabalho que seria nosso“.

Viva a arte espírita!

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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