Ângela Bezerra de Castro
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“Os lírios não nascem da lei.”
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A violência contra a mulher não é apenas doméstica. Ela é cultural. A Lei Maria da Penha olha para as relações familiares ou domésticas, mas a violência é muito mais ampla. Está em todas as relações sociais, sem distinção: é a violência motivada pelo olhar de desvalorização sobre a mulher. Nem a religião se salva. Basta ver o papel de segunda categoria que lhe está reservado, sem falar no mito que a desqualifica como ser humano e a reduz à tentação e ao pecado.
Nas famílias, o nascimento do homem tem mais valor. A vitória do homem tem mais valor. Causa muito mais orgulho. Por ser vista como ser inferior, a mulher é torturada, agredida e morta. Ela é menos que propriedade, pois a propriedade é cuidada, preservada em função do seu valor.
Esse preconceito é milenar. Está entranhado nas percepções como coisa natural. Há muito me dedico ao tema e a uma vida de resistência. Minha maior decepção foi sentir essa discriminação e essa violência no meio cultural.
Eu era coordenadora da Escola da Magistratura quando a Lei Maria da Penha entrou em vigor. Organizei o primeiro seminário sobre o assunto. Era chocante escutar o deboche de muitos aplicadores do Direito, os mais qualificados.
“Os lírios não nascem da lei.” Até que as mulheres sejam consideradas como seres humanos completos, e não como complemento do homem, teremos que lutar muito, por muitos séculos, começando pela educação doméstica, quase sempre machista.
Entendo que o silêncio sobre a violência é criminoso. Em todos os níveis, ela deve ser denunciada. Por isso, preparo um texto sobre minha experiência no meio intelectual, no qual tenho um lugar até hoje. Sinto-me obrigada a relatar quantas vezes “morri”.
Nos noticiários, são as mulheres que aparecem agredidas, torturadas e mortas todos os dias. E essas atitudes recebem pouca atenção de suas próprias famílias. Quase nenhuma reação. O feminicídio é uma pandemia. E a vacina vai demorar séculos. Nem a independência econômica tem eficácia contra essa aberração.
Nota do ECK: Artigo originalmente publicado no Blog “Carlos Romero – Ambiente de Leitura”.
Imagem de Judith Horvath por Pixabay




