Marco Milani
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A afirmação “Kardec não disse tudo”, embora verdadeira em si mesma, tem sido utilizada de forma distorcida, especialmente pelo viés da falácia do apelo à ignorância (“argumentum ad ignorantiam”), para validar ideias que não possuem sustentação doutrinária.
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O Espiritismo, como doutrina filosófica, possui princípios que fundamentam seu corpo teórico. Não se trata de um sistema fechado, permitindo a análise de novos fatos com base na razão, na lógica e no conhecimento já legitimado pela universalidade do ensino dos Espíritos, critérios que serviram para estabelecer suas diretrizes doutrinárias.
No entanto, ao longo do tempo, surgiram inúmeras tentativas de incorporar ao Espiritismo práticas, conceitos e teorias contraditórias aos seus princípios, acompanhados da frase “Kardec não disse tudo”. Essa afirmação, embora verdadeira em si mesma, tem sido utilizada de forma distorcida, especialmente pelo viés da falácia do apelo à ignorância (“argumentum ad ignorantiam”), para validar ideias que não possuem sustentação doutrinária.
O apelo à ignorância consiste em afirmar que algo deve ser verdadeiro simplesmente porque não há uma prova definitiva de que seja falso, ou vice-versa. No caso do Espiritismo, essa falácia ocorre quando se argumenta que, como Kardec não abordou ou esgotou determinado assunto em suas obras, esse mesmo assunto pode ser aceito como parte do Espiritismo. Trata-se de um erro lógico, pois a ausência de menção ou aprofundamento em um tema não implica, necessariamente, sua validade doutrinária.
O método epistêmico adotado por Kardec possui critérios sólidos para a aceitação de novos conceitos, quando corroborados por fatos e validados pela razão, além do controle universal do ensino dos Espíritos. Qualquer inovação ou ampliação do conhecimento espírita deve ser submetida a esse crivo, e não simplesmente aceita porque Kardec “não disse tudo”.
O conhecimento espírita é progressivo, mas esse progresso não ocorre de maneira arbitrária ou por meio da inserção de ideias antagônicas aos seus fundamentos. Sob a alegação de “avanço”, antigos e novos conceitos e práticas esotéricas, místicas e supersticiosas são ingenuamente abraçadas por adeptos mais afoitos e menos familiarizados com os fundamentos espíritas. Apometria, cromoterapia, astrologia, supostas comunicações com animais desencarnados, escolas iniciáticas secretas, preces ritualísticas, elaboração e distribuição de pomadas e outros produtos “milagrosos”, dentre outras, são exemplos de práticas estranhas ao Espiritismo.
Outras deturpações conceituais, decorrentes de preferências e convicções pessoais, manifestam-se sob diferentes aspectos, todas escoradas na mesma justificativa de atualização. Uma das mais perniciosas diz respeito à militância política disfarçada de progresso científico na área das ciências sociais, caracterizando-se pela seleção de pensadores específicos de determinada linha ideológica como representantes da modernidade que o Espiritismo “deveria” defender. Tais militantes ignoram posicionamentos teóricos contrários e pretendem determinar como o adepto deveria pensar politicamente, desrespeitando a liberdade de consciência individual.
O progresso, portanto, não significa abandono dos fundamentos nem a aceitação acrítica de qualquer novidade apresentada como “espírita”.
Como exemplos positivos de aplicações diretas do progresso científico no conhecimento espírita pode-se mencionar os estudos realizados com experiências de quase-morte (EQM) e investigações de lembranças de vidas passadas. Tais estudos não alteram os princípios doutrinários, porém, permitem ao pesquisador espírita aprofundar a compreensão dos fenômenos citados baseados em evidências e não em simples abstração teórica.
O dinamismo espírita exige responsabilidade e coerência metodológica. A ciência espírita não pode ser guiada por suposições arbitrárias ou por argumentos falaciosos que se apoiam na ausência de menção direta a certos temas para justificá-los. O compromisso com a lógica e com o método kardequiano deve prevalecer, evitando que a doutrina seja corrompida por práticas e conceitos que não fazem parte de sua essência. O fato de Kardec não ter dito tudo não significa que qualquer coisa possa ser dita hoje em nome do Espiritismo.
Nota do ECK: Artigo originalmente publicado na Revista Candeia Espírita, n. 42, de março de 2025.
Imagem de Ingo Jakubke por Pixabay




