Leandro Prearo
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A ciência deve ser vista como um processo de teste contínuo de hipóteses, em que o objetivo não é proteger uma ideia, mas expô-la a situações em que ela possa falhar. Uma teoria científica relevante, nesse sentido, não é aquela que sempre funciona, mas aquela que pode ser colocada à prova.
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Volto com frequência a uma ideia que, embora bastante conhecida na filosofia da ciência, ainda é pouco explorada nas práticas de pesquisa do dia a dia. Ela aparece de forma clara na obra de Karl Popper, especialmente em “A Lógica da Pesquisa Científica”.
O ponto de partida é relativamente simples. Nenhuma quantidade de evidências é suficiente para provar definitivamente que uma teoria está correta. Por outro lado, um único resultado consistente pode ser suficiente para mostrar que ela não se sustenta.
Essa mudança de perspectiva altera a forma como entendemos o próprio trabalho científico. Em vez de buscar confirmações sucessivas, a ciência passa a ser vista como um processo de teste contínuo de hipóteses, em que o objetivo não é proteger uma ideia, mas expô-la a situações em que ela possa falhar. Uma teoria científica relevante, nesse sentido, não é aquela que sempre funciona, mas aquela que pode ser colocada à prova.
Tenho visto, ao longo das orientações, como essa distinção faz diferença. É comum encontrar projetos desenhados para confirmar uma hipótese, com escolhas metodológicas que reduzem o risco de contradição. O resultado tende a ser previsível, mas também limitado.
Quando o desenho da pesquisa inclui a possibilidade real de refutação, o trabalho ganha outra qualidade. Mesmo resultados que não confirmam a hipótese passam a ser informativos, porque ajudam a delimitar melhor o problema e a ajustar o quadro teórico.
Essa é uma mudança sutil, mas importante. Não se trata apenas de método, mas de postura intelectual. Ao longo do tempo, fica claro que uma boa pesquisa não é aquela que protege suas conclusões, mas aquela que aceita colocá-las em risco.
Talvez por isso a ideia de falsificação continue tão atual. Ela desloca o foco do acerto para o teste, e isso muda a forma como pensamos a produção de conhecimento.
Fonte:
Popper, K. R. (2013). “A lógica da pesquisa científica”. Trad. Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. 2. Ed. São Paulo: Cultrix.
Nota do ECK: O autor é Reitor na USCS – Universidade Municipal de São Caetano do Sul . Texto originalmente publicado no LinkedIn.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay




