Hipóteses para o desaparecimento do corpo de Jesus, por Marco Milani

Tempo de leitura: 3 minutos

Marco Milani

Algumas deturpações doutrinárias, assim como outras de caráter místico e supersticioso, já foram motivos de cisão em alguns grupos no movimento espírita francês após a desencarnação de Kardec e, como as ideias são disseminadas, também repercutiram no nascente movimento espírita brasileiro no final do século 19. Até hoje, pode-se perceber os reflexos de ideias doutrinariamente incoerentes originadas no passado.

Considerado um mistério ou milagre pelas religiões tradicionais, o desaparecimento do corpo de Jesus após a sua morte suscita diversas indagações, não somente pela maioria dos cristãos, mas também pelos historiadores em geral.

Os registros bíblicos não apontam explicações para o fato, permitindo variadas especulações, dentre elas, a simples retirada discreta do corpo do sepulcro por uma ou mais pessoas em momento indeterminado ou, ainda, pela suposição de que seu corpo não seria carnal, mas fluídico e assim teria sumido.

Muitas correntes de pensamento que se formaram nos primeiros séculos depois de Cristo, como o docetismo e o nestorianismo, estruturaram linhas explicativas para a concepção de que Jesus seria o próprio Deus ou estivesse a ele unido, sendo necessária a diferenciação de sua natureza divina da simples criatura humana. Os docetas, nesse sentido, abraçavam essa suposição de que o corpo de Jesus Cristo seria uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente. Ainda que nos primeiros concílios católicos se tenha anatemizada a proposta de corpo aparente, lastreando-se no Evangelho de João, em que no primeiro capítulo se afirma que “o Verbo se fez carne”, a concepção de que Jesus seria Deus foi reforçada.

Allan Kardec analisa essa situação no capítulo XV, da obra “A Gênese”, em que discorre sobre as possíveis explicações sob a perspectiva espírita.

No item 66 do referido capítulo, ao destacar que o corpo de Jesus era carnal, assim como qualquer homem, rejeita-se a suposição de um corpo fluídico e de que sua estada na Terra teria sido um simulacro, iludindo a todos quanto à sua verdadeira condição. Ainda nesse item, Kardec afirma que Jesus também teve um corpo fluídico enquanto estava encarnado, como todos também possuem, pois se trata do perispírito, que é o envoltório fluídico que o Espírito sempre terá, esteja encarnado ou desencarnado (ver “O livro dos Médiuns”, item 55).

No item 67 da edição original de “A Gênese” (na 5ª edição este item foi eliminado e o item 68 foi renumerado como 67), Kardec destaca que o esclarecimento do caso ainda permanece em aberto, porém apresenta hipóteses plausíveis para explicar o desaparecimento do corpo de Jesus. Como explicação provável, caso não tenha sido decorrente de um rapto clandestino, cogita-se a ocorrência do duplo fenômeno de transporte e da invisibilidade (ver “O livro dos Médiuns”, itens 72 a 99).

Destaca-se que a construção das hipóteses plausíveis naturalmente desenvolve a discussão do assunto e oferece elementos lógicos para a análise doutrinária do fenômeno, além de reiterar a refutação de que Jesus teria um corpo fluídico, uma vez que a hipótese de simulacro de Jesus nem foi considerada.

Kardec contribuía, dessa maneira, para a reflexão de alguns supostos adeptos que na ocasião tentavam reavivar as propostas docetistas apresentadas como novas revelações por Jean-Baptiste Roustaing, na obra “Os Quatro Evangelhos”. Tal obra, por sinal, contém diversas contradições com os ensinamentos espíritas, como retrogradação espiritual e metempsicose, além de forte conotação teísta-igrejeira que distorcem o caráter libertador do Espiritismo às antigas concepções dogmáticas de Deus.

Considerando os desvios roustanguistas sobre o corpo de Jesus, ao citar o livro “Os Quatro Evangelhos”, no Catálogo racional para se fundar uma biblioteca espírita, em 1869, Kardec faz uma ressalva e orienta o leitor a consultar os itens 64 a 68, na edição original de “A Gênese”.

Esse tipo de deturpação doutrinária, assim como outras de caráter místico e supersticioso, já foram motivos de cisão em alguns grupos no movimento espírita francês após a desencarnação de Kardec e, como as ideias são disseminadas, também repercutiram no nascente movimento espírita brasileiro no final do século 19. Até hoje, pode-se perceber os reflexos de ideias doutrinariamente incoerentes originadas no passado.

Se, por um lado, é possível opinar que a supressão das hipóteses para o desaparecimento do corpo carnal de Jesus não comprometeria a discussão do tema, por outro, certamente, o conhecimento das hipóteses propostas por Kardec enriquecem e contribuem para o desenvolvimento do conteúdo [1].

Recomenda-se, assim, a todos os estudiosos e interessados em geral a leitura integral dos itens 64 a 68 do capítulo XV, presentes na edição original de A Gênese, destacando-se que as quatro primeiras edições dessa obra são idênticas.

Nota do Autor:
[1] Ver Revista “Dirigente Espírita”, da União das Sociedades Espíritas de São Paulo (USE), em sua edição n. 180, de nov./dez. 2020

Nota do ECK:
Texto originalmente publicado na Revista “Dirigente Espírita”, da União das Sociedades Espíritas de São Paulo (USE), em sua edição n. 184, de jul/ago 2021.

Imagem de Joshua Woroniecki por Pixabay

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