Adulterar ou não adulterar: eis a questão!, por Denis Denisard

Tempo de leitura: 6 minutos

Denis Denisard

Os adulteradores pretenderam (e conseguiram, até 2018!) incluir entre as teses espíritas, dentro de distintas acepções dogmáticas, uma que desnatura o conceito fundamental de livre-arbítrio, contido na Lei de Liberdade, tão bem conceituada e detalhada em um dos capítulos da terceira parte de “O livro dos Espíritos”.

O movimento espírita mundial iniciou 2018 – justamente um ano comemorativo para esse segmento – com um furacão a lhe balançar as estruturas. Uma sequência de pesquisas sérias, realizadas na Argentina, na França e no Brasil podem estar lançando importantes luzes não só para o resgate da autenticidade do pensamento do Codificador Allan Kardec, e do seu  legado às gerações futuras, após o seu desencarne (1869), como para a revisão de toda a estrutura de logicidade dos fundamentos do Kardecismo em cotejo com a ideologia que é majoritária no Brasil e em grande parte do planeta.

Estamos na fase final de revisão do quadro comparativo entre a primeira (que se repete na segunda, terceira e quarta) e a quinta (adulterada) edição de AG, para que cada um, leitor, estudioso do Espiritismo, perceba as “incursões”, os “acréscimos”, as “supressões” e a intencionalidade flagrante – não importa de quem – em modificar o pensamento de Kardec. No ano de 2024, estaremos publicando o material correspondente, conforme compromisso firmado com o Conselho de Gestão do Grupo “Espiritismo COM Kardec”, no portal (www.comkardec.net.br), permitindo a qualquer estudioso ler, estudar, comparar e formar a sua convicção, sem ser influenciado por aqueles que dizem peremptoriamente que “as alterações são de Kardec”.

As mãos que “mexeram” nos originais kardecianos – tanto para modificar os textos como para publicarem e divulgarem uma edição apócrifa, atribuída a Kardec – foram muito inteligentes e persuasivas. Não apresentaram, muitas vezes, de modo translúcido as suas ideias, calcadas em dogmas e preconceitos de matiz religiosa, derivados de várias encarnações a serviço de filosofias ditas cristãs, que insculpiram mandamentos, sacramentos, prescrições morais e subserviência a autoridades humanas “dotadas de poderes divinos”, com o resultado, para o Espírito, de condenações e sujeições à “vontade divina”, na forma de um ser antropomórfico.

Figuram, neste contexto, uma série de inferências e apologias, que serão detalhadas, uma a uma, no futuro documento já mencionado. Antecipando uma delas, podemos dizer que, os adulteradores pretenderam (e conseguiram, até 2018!) incluir entre as teses espíritas, dentro de distintas acepções dogmáticas, uma que desnatura o conceito fundamental de livre-arbítrio, contido na Lei de Liberdade, tão bem conceituada e detalhada em um dos capítulos da terceira parte de “O livro dos Espíritos”.

Para as igrejas cristãs, que reconhecem a liberdade humana (isto é, as Almas ou os Espíritos encarnados na Terra), o fato de Deus ter “dotado” o homem do livre-arbítrio estaria eternamente vinculado à condição de obediência plena aos “desígnios (vontades) divinas”, instituindo, também neste ponto, a heteronomia e não a ideia essencial presente em toda a produção kardeciana (trinta e duas obras), de autonomia (autogestão espiritual, poder de escolha pleno, com a derivação da livre semeadura e da obrigatória colheita, segundo as célebres palavras de Jesus de Nazaré).

Por este raciocínio simplório, ilusório e precário, os indivíduos, a partir de (suas) escolhas erradas, seriam CASTIGADOS, sofrendo quedas e sendo obrigados a passar pela ignorância, abandono, medo, e toda a sorte de sofrimentos e dores, somente deixando esse estado pelo arrependimento, que os gratificaria com benesses espirituais. Pela eternidade… Uma recompensa concedida ao arbítrio divino, como dádiva, portanto. Heteronomia substituindo a autonomia espiritual.

Ora, não é a liberdade de escolha e de ação – conhecida e conceituada no Espiritismo como livre-arbítrio – que caracteriza a trajetória progressiva de cada individualidade espiritual, decorrente das conquistas do Espírito, arduamente conquistadas a cada passo na trajetória das múltiplas existências.

Este ensinamento, todavia, não está (mais) consignado no conteúdo da edição “conhecida” (a quinta) de “A Gênese”, embora conste, em diversos tópicos ao longo da produção literária de Rivail-Kardec. E como constava das demais, o amadurecimento desta tese, somente possível na última obra do Professor francês, após a trajetória percorrida em quase doze anos, estava na edição original do livro em comento.

E por que o conteúdo, na edição adulterada de 1872 foi suprimido? Justamente para atender ao raciocínio religioso e dogmático de quem entende a Divindade como patrocinadora dos castigos divinos, na figura de um deus (com “d” minúsculo, porquanto humano) cruel e vingativo, retrocedendo, historicamente tanto à visão original judaica (do Antigo Testamento) quanto expressa nas “montagens” feitas com fatos e ditos atribuídos a Jesus, mas consentâneos aos dogmas cristãos.

Figurativamente, a diminuição da importância do livre-arbítrio também fica evidenciada nas adulterações – com a supressão de um texto expressivo e necessário, da lavra de Kardec – no capítulo III, item 9, de “A Gênese”. Na edição então reconhecida como verdadeira até 2018, constava: “Se estudarmos todas as paixões, e assim também todos os vícios, veremos que ambos têm seu princípio no instinto de conservação. Tal instinto existe com toda sua força, nos animais e nos seres primitivos que se aproximam mais à animalidade; aí ele domina sozinho, pois em tais seres, ainda não tem o contrapeso do senso moral; o ser ainda não nasceu na vida intelectual. Ao contrário, o instinto se enfraquece à medida que a inteligência se desenvolve, pois que a inteligência domina a matéria” (Tradução de José Herculano Pires, na 21ª edição em português, pela Editora Lake).

Até aí, não se vê nenhuma incoerência. Mas o conceito de a inteligência dominar a matéria e superando a influência dos instintos, na edição verdadeira de Kardec, tem um complemento essencial, um ensinamento profundo e de incentivo ao uso da inteligência e ao exercício do livre-arbítrio. Vejamos o texto na edição autêntica: “Se estudarmos todas as paixões, e até mesmo todos os vícios, vemos que eles têm seu princípio no instinto de conservação. Esse instinto, em toda sua força nos animais e nos seres primitivos que estão mais próximos da vida animal, ele domina sozinho, porque, entre eles, ainda não há de contrapeso o senso moral. O ser ainda não nasceu para a vida intelectual. O instinto se enfraquece ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque domina a matéria. Com a inteligência racional, nasce o livre-arbítrio que o homem usa à sua vontade: então somente, para ele, começa a responsabilidade de seus atos” (Tradução de Carlos de Brito Imbassahy, na 1ª edição em português, da Editora Feal, marcações nossas).

Há assim, a transição progressiva de princípio espiritual a Espírito, de forma natural, ligando a condição animal primitiva à do Espírito humano, pois na Natureza nada dá saltos [1]. Em consequência, como bem elencou Kardec no trecho que só figura na edição originária do livro, nesta transição o Espírito alcança efetivamente a liberdade de escolha e, ao escolher, cada vez mais se torna responsável (consciência) por seus atos.

Desaparecem, assim, quaisquer apologias ou estruturas de sustentação dos frágeis conceitos (religiosos) do pecado, do carma, da queda, do pecado original, do castigo divino, entre outros, todos eles dogmas da antiguidade. Porque qualquer ato humano, porquanto seja um erro, não gera um “castigo” de uma lei implacável, mas estabelece uma relação de causalidade, no sentido da necessidade (espiritual) da reparação de tal erro. E, quanto mais inteligente e consciente (dos próprios atos), maior se torna a sua responsabilidade em relação às suas ações.

Indiscutível a visão espírita da liberdade com responsabilidade, porque o livre-arbítrio permite aos seres as suas escolhas, mas atribui, de modo proporcional aos efeitos, a responsabilidade pelas causa (humanas) em relação aos primeiros. Nas palavras do Mestre de Nazaré, “a cada um segundo suas obras”.

A quinta edição, adulterada, de “A Gênese” extirpou conceitos doutrinários fundamentais do ensino dos Espíritos Superiores, os quais ficaram desconhecidos por 150 anos! Daí a imperiosa necessidade que os espíritas sensatos leiam,  estudem, entendam e divulguem nos grupos espíritas brasileiros, as diferenças entre as duas versões, neste ponto e em todos os outros que constarem de artigos, documentos e quadros comparativos apresentados por aqueles que não compactuam com mentiras.

Eu poderia mencionar o “bom combate”, uma das marcas de Saulo (Paulo) de Tarso, em sua trajetória de divulgação da Boa Nova. Ou, poderia ir mais além e buscar Jesus de Nazaré, o Magrão, que teria dito ser necessário ser quente ou frio, ao contrário de morno e que admoestou seus discípulos quanto à contrariedade de colocar remendo novo em panos velhos…
Mas, prefiro direcionar o raciocínio de todos nós para a dicção precisa de Allan Kardec em dois momentos pontuais. A primeira, inscrita na “Revue Spirite”, na edição de novembro (1858), insuflando-nos a jamais recuar ante polêmicas que interessarem ao Espiritismo, as quais seriam afetas à discussão séria dos próprios princípios doutrinários. E a segunda, não menos importante, contida em “O evangelho segundo o Espiritismo (1864) quando Kardec nos diz ser a verdade idêntica ao sol, dissipando os mais densos nevoeiros (cap. XXI, item 7).

Certo é que o nevoeiro insiste em permanecer na visão dos profitentes espiritistas – que reeditam a trave não percebida nos próprios olhos, mas enxergam o argueiro nos dos outros – para quem, por vezes, é preferível não criar contendas que possam simbolizar a “divisão” (os cismas) entre os próprios seguidores da Filosofia Espírita. Isto para justificar que tudo “está bem” e que eventuais “denúncias” são fruto da visão apressada ou das “ações das trevas” sobre a Humanidade encarnada.

E as polêmicas, longe de simbolizarem divisionismo – a não ser na mente daqueles que se adonaram do Espiritismo a partir da edificação de um sistema nada democrático que “coordena” o movimento da “terceira revelação” por todo o planeta – representam a materialização dos conceitos estabelecidos pelo próprio Rivail, quando menciona a fé raciocinada que encara a razão em todas as épocas da Humanidade, ou quando acata o conselho paternal de Erasto, para rejeitar dez verdades ao invés de patrocinar uma mentira.

Nossa alegria é estar nos disponibilizando para o bom combate, para o esclarecimento que dissipa o nevoeiro e para a participação numa gigantesca polêmica que há de resgatar, para TODOS os espíritas, os princípios doutrinários, tão relegados aos últimos lugares, diante de tantas enxertias colocadas como se fossem Espiritismo, mas não o são.

A alegria permanecerá em nossos passos. E esperamos que você, também, alegre permaneça conosco nessa “cruzada”.

Nota do Autor:
[1] “Natura non facit saltum”, no latim. Frase latina atribuída a Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), filósofo e matemático alemão. Depois, por Carl von Lineu (1707-1778), naturalista e médico sueco. Por fim, Charles Darwin (1809-1882), naturalista inglês, em seu livro “A Origem das Espécies” (1859), repetiu o axioma.

Imagem de Peter H por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

One thought on “Adulterar ou não adulterar: eis a questão!, por Denis Denisard

  1. É uma hipótese perfeitamente viável, faz todo o sentido. Se fizeram de pedaços da cruz um amuleto ( mencionado num romance de Eça de Queiroz, A Relíquia), imagine-se terem acesso ao corpo de Yeshua! Excelente a análise.

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