Cortinas de fumaça, por Stanislaw Santiago

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Stanislaw Santiago

A utilização da expressão “cortinas de fumaça”, para além do seu sentido original, faz alusão a técnicas utilizadas por estrategistas militares voltadas a ocultar suas forças ou seus veículos por trás de uma nuvem de fumaça (natural ou artificialmente produzida), enganando ou confundindo os inimigos. No sentido figurado, aplicável ao caso em estudo, trata-se de recurso argumentativo utilizado para desorientar o público, desviando sua atenção, em razão de truques interpretativos, para alcançar determinados objetivos.

Uma sucessão de sofismas e “ginásticas” interpretativas, da parte da federativa nacional visa dar aparência de verdade ao conjunto de alterações póstumas, que desnaturaram “A Gênese”, pela introdução de teorias alienígenas e inconciliáveis com os fundamentos e princípios espírita.

A divulgação da notícia da ADULTERAÇÃO da derradeira obra kardeciana provocou reações – já esperadas – em parte do movimento, sobretudo aquele que adota o nome de “unificado”, a partir da histórica reunião dos entes federativos estaduais (o chamado “Pacto Áureo”, de 1949).

Como também era de se esperar, a própria federativa nacional lançou uma nota [1], contrária ao grupo que está capitaneando o resgate da redação original do livro “A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, publicada em 1872, dizendo que “até prova cabal em contrário, que por hora não existe, a Federação Espírita Brasileira continuará divulgando e considerando como definitiva a 5ª edição, revista, corrigida e ampliada”, da citada obra “e utilizada pelos tradutores dos livros que editamos”. Note-se, aí, dois pontos: 1) a federativa insiste na regularidade da edição de 1872 e afasta que as alterações em relação às quatro edições anteriores (sendo todas publicadas por Kardec) seriam de sua lavra; 2) a entidade não se posiciona sobre as alterações póstumas, contrariando o direito autoral e registral vigentes não só na época (século XIX) na França e não somente lá nem naquele tempo, mas em todo o mundo, até os dias atuais, de que ninguém pode proceder a mudanças em obra literária de autor após a sua morte, salvo a existência de documentação expressa e registrada em cartório sobre o desejo do finado.

Não esperaríamos, infelizmente, nenhuma atitude da Casa-Máter. Assumir como “oficial” a quinta edição – alterada ou, ADULTERADA, como dissemos nós – atribuindo-a como “vontade do Codificador”, é continuar com a senda da introdução do RUSTENISMO como principiologia da Doutrina dos Espíritos.

O documento federativo é pontual ao descrever os fatos do Espiritismo francês como berço do Espiritismo e, em relação à obra em comento, pontuando nos segundo e terceiro parágrafos, sobre as quatro primeiras edições, todas idênticas, e a quinta, que não possui, de modo estranho e em desconformidade com o “padrão editorial” kardequiano, a data de publicação, registrando, ainda, que no “site eletrônico da Biblioteca Nacional da França, fica-se a par da data exata do seu lançamento: 23 de dezembro de 1872, em sua versão revista, corrigida e ampliada” (nosso destaque). Solicitamos ao leitor que se atente a esta data (negritada).

Também a nota faz justiça ao primeiro momento em que o biógrafo, amigo de Rivail-Kardec e estudioso do Espiritismo, Henri Sausse, já em 1884, apontou e discordou das (muitas) alterações existentes na quinta, em comparação com as edições anteriores, não sendo, portanto, no parecer da entidade, nova tal polêmica.

A partir daí é que vem a sucessão de sofismas e “ginásticas” interpretativas, da parte da federativa nacional. Vamos a elas.

A primeira busca “naturalizar” as mudanças – que insistimos, pelo teor dos conteúdos introduzidos, modificados ou suprimidos em relação à edição genuína – para dizer “que nenhuma obra de Allan Kardec teve como definitiva a sua primeira edição, posto que todas sofreram alterações, ao longo de uma ou de várias edições, com vistas ao seu aperfeiçoamento”. Que as edições não se mantiveram inalteradas, sobretudo em relação a “O livro dos Espíritos, “O livro dos Médiuns” e “O evangelho segundo o Espiritismo”, realmente é verdade. No caso do primeiro, houve um aumento de mais de 50% (cinquenta por cento) entre a primeira e a definitiva edição; no segundo, quatro edições; e, no último, além da alteração no título, que antes era “Imitação do evangelho segundo o Espiritismo”, ocorreu a reconfiguração dos capítulos, que antes eram 35, para 28, na versão definitiva, existindo inúmeros pontos acrescentados, apesar da redução da divisão capitular.

Evidentemente, a modificação de conteúdo era algo natural para quem estava investigando os fenômenos psíquicos e recebendo contribuições de psicografia da Europa e de outras partes do mundo, sendo a “Revue Spirite”, o cadinho de decantação das novas informações, seguindo, estritamente a baliza inventada e aplicada por Kardec, a da “concordância universal entre os ensinos dos Espíritos”. Assim, natural é que, com a existência de novos elementos, inclusive pela maiêutica kardeciana em relação às sessões mediúnicas, tanto na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE), como em outras instituições visitadas por Rivail, estes fossem, ao serem confirmados por outras afirmações espirituais, sendo consignados nas chamadas “obras fundamentais”.

Todavia, querer justificar pelo “princípio de alteração de obras já publicadas” para produzir alterações pontuais como comprovadamente feitas por Allan Kardec, enquanto vivo, para validar as duas edições postumamente publicadas – tanto de “A Gênese”, tratada nesta nota federativa, quanto de “O Céu e o Inferno” – a distância é infinita, já que tanto pelo conteúdo (díspar, disforme e contraditório) quanto pelo desrespeito da obra autoral, contrariando a legislação francesa da época – e de toda Era Contemporânea, vigente no planeta – não podem as edições que foram referendadas pelo meio espírita serem tomadas como verossímeis e de autoria kardeciana.

Depois, a entidade entra no campo da especulação sobre as “dificuldades” que Kardec poderia ter tido para publicar a quinta edição. Veja-se a argumentação: “A França da época achava-se imersa em dificuldades de toda ordem, nos campos político, econômico e social, culminando com as atrocidades cometidas durante a guerra franco-prussiana”. E continua: “. Época de anarquia, verdadeira convulsão social; de desemprego, de fome, de frio, de miséria, enfim”. Conclui com uma suposição questionadora: “Não teria sido um dos motivos pelos quais a 5ª edição, revisada por Allan Kardec antes da sua desencarnação, teve postergada a publicação?”. Tal indagação não é demonstrada por nenhum documento, notícia de imprensa ou estudo político da época (ou posterior) afirmando qualquer dificuldade em publicar obras literárias.

Kardec era um homem de ideias, não de suposições. Não ocorreu qualquer interrupção em relação às publicações de sua lavra, como demonstram os livros publicados por ele até 31 de março de 1869 (data de seu falecimento), inclusive os fascículos mensais da “Revue”, por todo o ano de 1868 e o primeiro quadrimestre de 1869. Ora, é leviano fazer inferências no sentido de que dificuldades políticas, econômicas e sociais teriam impedido Kardec de publicar as duas edições das obras já mencionadas, em suas edições “derradeiras” e póstumas.

Em trinta de março de 1872 – portando quase nove meses em relação à data que a própria federativa salienta como da publicação da quinta edição de “A Gênese” –, em anúncio publicado na “Revista Geral de Impressão e de Livraria” (“Journal Général de l’Imprimerie et de la Librairie”), é informada promoção de venda de exemplares da quarta edição desta obra. A federativa, então, questiona: “Por que, então, publicar nova edição, em meio a tantas dificuldades econômicas e sociais, e antes de esgotada a anterior?”. Ao invés desta pergunta, deveríamos fazer outras: “Será que os continuadores de Kardec, diante de uma edição “nova”, com alteração (adulteração, para nós) de conteúdo, não ficariam ruborizados em “promover” uma edição vencida e com conteúdo “superado”? Isto estaria de acordo com a lógica racional e o bom senso do (finado) Codificador? Não valem mais os exemplos do que as palavras? E, em complemento: por ter, em março, realizado a promoção dos livros em estoque, não seria um artifício para “lançar” uma nova edição, com conteúdo discrepante?

Como se vê, os fatos podem ter “explicações” ou “interpretações” bastante distintas. Para o juízo de valor, comum ao Espírito humano, é possível justificar para lados antagônicos a ocorrência de fatos ou atos dos humanos. Neste caso, os questionamentos feitos pelo órgão nacional espírita brasileiro são direcionados a validar a edição alienígena. Os nossos são para corroborar, a partir tanto da análise de conteúdo, como da análise histórico-documental-jurídica a impossibilidade de demonstração das teses esposadas tanto pela federativa quanto por todos aqueles que buscam “validar” o inválido.

Adiante, a entidade nacional advoga o “argumento de autoridade”, dizendo que os “continuadores do trabalho de Allan Kardec” seriam os únicos autorizados a fazer alterações na obra literária. Primeiro: não, nem eles nem quaisquer herdeiros legais (no caso, a viúva Amélie-Gabrielle Boudet), por um elemento de direito autoral e literário, convencionado por todas as nações democráticas, e já salientado aqui, antes. Somente o autor, por expressão de sua vontade, em vida, ou com um documento registrado em cartório, informando a existência de uma edição, nova para um livro existente, ou de uma nova obra, detalhando-a e copiando o seu conteúdo, no registro, pode viabilizar uma edição póstuma. Segundo: já havia “inimigos” e detratores do Espiritismo instalados no próprio seio da SPEE, conforme demonstra, por exemplo, a crônica do Professor francês, consignada na “Revue”, exemplar de dezembro de 1868, “Dos Cismas” (parte integrante da “Constituição do Espiritismo”, item III.

Ainda assim, como ficou consubstanciado na obra de Berthe Fropo, “Muita Luz” (“Beaucoup de Lumière”, no original francês), assim como na obra de Simoni Privato Goidanich, “O legado de Allan Kardec” (“El legado de Allan Kardec”, no original em espanhol), a viúva Amélie foi alijada da condução dos destinos das obras e da SPEE, com muitos cerceamentos infligidos a ela, bem como a queima de arquivos e documentos da viúva de Kardec, justamente por aqueles que se apossaram do Espiritismo, visando a sua desnaturação. Some-se a isso as variadas referências literárias e documentais que culminaram na fundação da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, como uma variante capaz de se distanciar das adulterações e da introdução de práticas estranhas como a Teosofia de Madame Blavatski e do Coronel Olcott. É considerado o ano de 1872 como “o ano terrível”, justamente em face da publicação da 5ª edição de “A gênese”, designada como “revisada, corrigida e aumentada”, à revelia dos legítimos continuadores do legado kardeciano.

A viúva de Kardec, assim, não pode ser “referenciada” como personalidade de reconhecimento da quinta edição (adulterada) de “A Gênese”, pelos motivos expostos.

Pinçamos, deste, algumas afirmações de Kardec: “Uma questão que se apresenta logo de saída ao pensamento é a dos cismas que poderão nascer no seio da doutrina. O Espiritismo deles será preservado?”. Inteligente questionamento inicial. Primeiro, antevê ou registra, por ocorrências dos últimos anos de sua tarefa, como coordenador-geral do movimento espírita francês (mesmo que este epíteto seja figurativo e por nós considerado).

Ao responder, Kardec salienta: “Certamente não, porque ele terá, sobretudo no começo, que lutar contra as ideias pessoais, sempre absolutas, tenazes, demoradas para se ligarem às ideias de outrem, e contra a ambição daqueles que, a despeito de tudo, querem ligar seu nome a uma inovação qualquer; que criam novidades unicamente para poder dizer que não pensam e não fazem como os outros; ou porque o seu amor-próprio sofre por só ocuparem um lugar secundário; ou, enfim, que veem com despeito um outro fazer o que não fizeram e, além disso, triunfar”. E, registre-se o principal elemento dos cismas, qual seja as ideias pessoais dos que desejam “participar” dos movimentos para consolidar o seu próprio pensamento. E o orgulho e a vaidade pesa e fala mais alto, para que sejam autores de realizações que desnaturam o pensamento original para albergar suas mais íntimas convicções e aspirações.

O antídoto não é outro senão os que já temos aplicados nos nossos grupos de estudo e debates para a apresentação das diferenças entre as edições e a elucidação dos pontos controversos, afastando o que seja pernicioso, contrário e agressivo à principiologia da Doutrina dos Espíritos – o que é pior – exposto em obras cuja autoria é atribuída a Kardec. E o Professor francês reforça essa ideia de maturação das ideias pelo estudo sério e sistêmico: “uma condição indispensável é que todas as partes do conjunto da doutrina estejam determinadas com precisão e clareza, sem nada deixar no vazio; para isto procedemos de maneira que os nossos escritos não deixassem espaço para a nenhuma interpretação contraditória, e nos esforçaremos para que seja sempre assim”.

Depois, Kardec fala de “pontos embaraçosos”, as quimeras que são repelidas pelos “homens positivos”, de ciência, filosofia e raciocínio aplicado. Ele também salienta os desejos utópicos dos indivíduos como combustível para as transformações (individuais e, melhor, sociais): “Se é certo que a utopia de ontem muitas vezes é a verdade de amanhã, deixemos ao amanhã o trabalho de realizar a utopia de ontem”.

Há um terceiro elemento salientado por Kardec para esse percurso, relacionado ao “caráter essencialmente progressivo da doutrina”, no que “O Espiritismo não deve fechar a porta a nenhum progresso, sob pena de suicidar-se; assimilando todas as ideias reconhecidas como justas, sejam de que ordem forem, físicas ou metafísicas, ele jamais será ultrapassado, e aí está uma das principais garantias de sua perpetuidade”.

De modo premonitório – como em outros textos de sua lavra – Kardec salienta que seitas estariam lado a lado com as atividades espíritas, ou dentro delas, aduzindo ao “princípio de verdade” para separar umas das outras: “ou essa seita estará com a verdade, ou não estará; se não estiver, cairá por si mesma, sob o ascendente da razão e do senso comum, como tantas outras já caíram ao longo dos séculos; se as ideias forem justas, ainda que só sobre um ponto, a doutrina, que procura o bem e a verdade em toda parte em que se encontrem, as assimilará, de sorte que em vez de ser absorvida, será ela que absorverá”.

E, ao final, para Kardec (e para nós), “mais cedo ou mais tarde, o bem triunfará sobre o mal e o verdadeiro sobre o falso”, sendo essa a única luta travada pelo verdadeiro Espiritismo, salientando que, mesmo em disputas de ideias, “a tolerância, consequência da caridade, que é a base da moral espírita, lhe determina respeitar todas as crenças”.

Temos sido bastante tolerantes e caridosos para com os que pensam diferente. Temos nos abstido do confronto direto e da oposição verbal com os adeptos da teoria “validatória” das edições póstumas. Não participamos de lives com seus expoentes, já que tivemos, em algumas oportunidades, eventos de estudo e exame comparativo das edições, por diversos representantes do “Espiritismo COM Kardec” e entidades parceiras, situações demonstrativas da distância entre as interpretações, inconciliável até o momento.

E Kardec, ainda na dissertação em comento, conclui com dois apontamentos que nos servem de baliza: “O programa da doutrina, portanto, não será invariável senão nos princípios que passaram ao estado de verdades constatadas; quanto aos outros, ela não os admitirá, como sempre fez, senão a título de hipóteses, até a confirmação. Se lhe for demonstrado que está errada num ponto, ela se modificará nesse ponto. […] Compreende-se que uma doutrina assente em tais bases deve ser realmente forte; ela desafia toda concorrência e neutraliza as pretensões de seus competidores. É para este ponto que os nossos esforços tendem a conduzir a doutrina espírita.

Ele prossegue: “a experiência já justificou esta previsão. Tendo a doutrina trilhado este caminho desde a sua origem, ela avançou constantemente, mas sem precipitação, observando sempre se o terreno onde põe os pés é sólido, e medindo os passos pelo estado da opinião. Ela fez como o navegador que não avança senão com a sonda na mão e consultando os ventos”.

Retomando o documento febeano, a entidade salienta que na década de 1960, o Sr. Zêus Wantuil, historiador e pesquisador vinculado ao órgão federativo e autor de livros pelo selo FEB, teria realizado um estudo comparado “palavra por palavra, frase por frase, linha por linha, a 3ª e a 5ª edições francesas” da obra em comento, e a análise foi encadernada e arquivada na “Biblioteca de Obras Raras” da Federação.

A entidade ressalta: “Chegou-se à conclusão de que as modificações havidas só poderiam ter sido realizadas pelo próprio Allan Kardec, no intuito de melhorar e tornar mais claras diversas passagens da obra, aí compreendidas a supressão e a inclusão de textos inexistentes nas edições publicadas em 1868. Tais anotações demonstram, de maneira cristalina, o cuidado, o empenho, o compromisso de Allan Kardec em aperfeiçoar toda sua obra. Erros tipográficos e de francês foram corrigidos, palavras inadequadas foram substituídas, frases importantes foram destacadas em itálico, numerações repetidas de parágrafos foram sanados, alguns parágrafos foram deslocados de posição para melhor se adequarem ao encadeamento das ideias que estavam a ser expostas, passagens repetidas ou já desenvolvidas em outras obras foram suprimidas, inclusive algumas de certa extensão, subtítulos e novos itens foram acrescentados, mas tudo sem ferir a harmonia do conjunto e sem atentar contra o conteúdo doutrinário dos ensinamentos revelados pelos Imortais”.

Neste particular, vamos nos debruçar atenta e diligentemente.

Primeiro, os textos das obras de Allan Kardec não são “ensinamentos revelados pelos Imortais” – entendendo-se que a nota febeana esteja conferindo protagonismo aos desencarnados que assinam comunicações inseridas (e identificadas, sempre que isto ocorreu) nas trinta e duas obras de Professor francês. Este ponto é um divisor de águas entre o “mainstream” espírita e os que não se vinculam às “orientações federativas”. Evidentemente que a palavra “imortais” se aplica ao homem Rivail como a todos nós que estamos, presentemente, encarnados neste orbe, assim como à comunidade dos desencarnados. Mas não foi este o “espírito” da afirmação da aludida nota. A intenção é diminuir o hercúleo (e quase solitário) trabalho de Rivail, como se ele fosse “mero secretário” das Inteligências Invisíveis, um títere a ser comandado pelas ordens daqueles. A personalidade vibrante e ética e intelectualmente desenvolvida daquele Professor não se curvaria a isso, porque a obra sempre foi a conjunção entre encarnados e desencarnados, com sua posição de primazia na organização e seleção das ideias e mensagens, no aprumo metodológico, no exercício do controle universal, na sugestão de perguntas, na construção de comentários, notas, introduções, conclusões, além de extensos e inúmeros textos de sua lavra, que resumiam leis espirituais ou princípios espíritas.

Segundo, somente se poderia afirmar que as alterações (adulterações, para nosso juízo) só poderiam ter sido realizadas pelo próprio Allan Kardec, caso houvesse demonstração inequívoca da autoria, como, por exemplo, documentos (manuscritos, como tudo na produção kardeciana e nas cartas que ele enviou ou recebeu), ou registros cartoriais. Inexistem, até o presente momento, quaisquer elementos documentais, jurídica e grafoscopicamente sem refutação que possam demonstrar essa (apressada e contestável) tese.

Terceiro, é, novamente, mero juízo de valor, apoiado em preferência ou análise personalíssima, dizer que Kardec teria tido o “intuito de melhorar e tornar mais claras diversas passagens da obra, aí compreendidas a supressão e a inclusão de textos inexistentes nas edições publicadas em 1868”. No cotejo de uma e outra edições, se constata exatamente o oposto. Os textos ficaram difusos e confusos. A redação ficou truncada, em muitos trechos. Grande parte, senão todas as “inclusões” que são tidas como “novidades úteis”, são em verdade egressas dos fascículos mensais da “Revue Spirite”, que já tinham sido publicadas ANTES da primeira edição de “A Gênese” e não constam dos números sequenciais entre os anos de 1868 e 1869 da revista, subintitulada como revista de estudos psicológicos. Por que, então, Kardec não teria transcrito na primeira e inicial edição, somente as coletando para a edição póstuma? Quem o fez procurou, ao lado das muitas alterações de conteúdo, desqualificadoras do conjunto da obra e do edifício doutrinário, para dar “aparência de autoria e realidade”, atribuindo, por causa delas, a aludida autoria como do Professor francês.

Devemos ressaltar, outrossim, o caráter de “caixa preta” do documento elaborado por Wantuil, já que o mesmo só se acha disponível no setor da “Biblioteca de Obras Raras” da federativa, não tendo sido reproduzido por nenhum meio (nem em partes, na Revista “Reformador”) nem em livro específico, tampouco utilizando-se dos modernos recursos cibernéticos, disponibilizados gratuitamente no website da Feb, para ampla consulta, análise e estudos por parte de indivíduos ou grupos. O que é uma pena, já que dele devem constar observações e análises que muito poderiam interessar ao meio espírita, sobretudo da parte dos estudiosos da matéria

O texto federativo tenta, também, aplicar uma tese verificada com a incorporação de um texto publicado, antes, na “Revue”, no capítulo VIII, de “A Gênese”, que trata da “Alma da Terra”, como representativo de que todas as alterações seriam da lavra de Rivail-Kardec. Ou seja, o acréscimo, na quinta edição, deste trecho, seria “validador” de todas as demais alterações (ou adulterações, na nossa análise). Generalizar, a partir de um exemplo, não nos parece ser adequado, inclusive diante das muitas balizas kardecianas, constantes da Filosofia Espírita.

Ainda assim, o texto cujo título é destacado pela federativa tem dois graves problemas.

Um, se atribuirmos “alma” a elementos não humanos e não-animais, estaremos adotando o Panteísmo, um sistema filosófico que preceitua haver a extrema identificação e aproximação entre Deus e o Universo, concebidos como realidades conexas ou, até, uma unidade integrada e única. Lembremos que, no conteúdo originário e primevo da Codificação Espírita, Kardec questionou as Inteligências Invisíveis, nos itens 14 a 16 do primeiro Capítulo, sobre o Panteísmo, precisamente sobre a tal “identidade” entre o Universo e Deus, ou de que a divindade seria “a resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo”, no que foi solenemente rechaçada, a teoria, com a afirmação espiritual de que “Se assim fosse, Deus não existiria, porque seria efeito e não a causa: ele não pode ser, ao mesmo tempo, uma coisa e outra” (item 14).

Dois, a ideia de “governo de um mundo”, atribuída a dado Espírito, que teria a incumbência da “execução das leis” divinas naquele orbe não figura na obra kardequiana. Não há qualquer tópico, exceto este, incorporado na edição póstuma de “A Gênese” tratando de governança espiritual de um planeta. O texto, originalmente, está contido em uma comunicação inclusa no fascículo de janeiro de 1864, assinada por Hahnemann, intitulada “Um caso de possessão – Senhorita Júlia”, não possuindo qualquer validação nem anterior nem posterior, podendo ser considerada como “opinião pessoal” do comunicante. Foi inserida, como visto, no citado fascículo da “Revue”, como tantos outros, para maturação das ideias e eventual confirmação por outras comunicações, o que não foi verificado. Em sendo um texto, novamente dizemos, pessoal seis anos antes da primeira edição de “A Gênese”, qual a razão de ele não ter sido inserido na edição original e incluso postumamente? Senão para validar teses alienígenas, destacadas acima.

Quarto, segue a federação nacional argumentando que as anotações feitas pelo citado Wantuil, “demonstram, de maneira cristalina, o cuidado, o empenho, o compromisso de Allan Kardec em aperfeiçoar toda sua obra”. E segue: “Erros tipográficos e de francês foram corrigidos, palavras inadequadas foram substituídas, frases importantes foram destacadas em itálico, numerações repetidas de parágrafos foram sanados, alguns parágrafos foram deslocados de posição para melhor se adequarem ao encadeamento das ideias que estavam a ser expostas, passagens repetidas ou já desenvolvidas em outras obras foram suprimidas”, na conclusão federativa de que tudo seria feito “sem ferir a harmonia do conjunto e sem atentar contra o conteúdo doutrinário”. Não, caríssimos federados! Kardec cuidou em ser “repetitivo” (como vocês dizem), para fixar pontos, reescrever com outros argumentos, enfatizar e salientar elementos que foram considerados por ele como essenciais à compreensão, tanto de cada obra de per si, como do total composto pelas argumentações de suas trinta e duas obras. Quem poderia dizer que Kardec seria redundante? Estudando em alguns grupos de estudo comparativo, houve quem argumentasse que a “mera transcrição” de textos já consagrados em fascículos da “Revue” deviam constar, mesmo, das obras “A Gênese” e “O Céu e o Inferno”. Outros, no exame dos trechos, os vincularam a trechos similares nas chamadas “obras fundamentais”.

E quanto à afirmação preocupante de que as modificações (novamente, chamamos nós, adulterações) não atentaram contra a “harmonia” (nome desta revista, aliás, veja que interessante!) do conjunto e, pasmem, “sem atentar contra o conteúdo doutrinário”, as situações apresentadas durante todo este ano, nas edições sequenciais da revista, disponíveis neste Portal, mostram, sobejamente o contrário.

Adiante a nota oficial levanta a hipótese do “estilo” de Kardec estar presente nos textos da edição póstuma, em cotejo com a edição publicada por ele, ainda em vida. Estilo? Quem pode aferir o estilo literário de alguém? Estilo literário é a forma particular utilizada pelo escritor para compor suas obras. No caso de uma composição plural, como o conjunto das obras de Kardec, temos vários estilos. O do próprio Kardec, em inúmeras partes de cada um de seus livros e os dos autores desencarnados que assinam variados textos. Nos interessa, mais propriamente, o estilo do Professor francês. Não se trata apenas do uso do vernáculo, das expressões idiomáticas, da construção frasal, da escrita (ora direta, ora indireta), com ênfase na língua culta, o francês clássico. Quem poderia atestar a presença de tais caracteres senão um linguista francês ou um especialista internacional na referida língua. Ao que nos consta, o Sr. Wantuil não era um personagem com tais credenciais. Assim como os membros anteriores e atuais da estrutura federativa também não o são.

Falar de estilo sem familiaridade com o idioma e a literatura franco-europeia do Século XIX, é tentar construir uma casa não sendo engenheiro, arquiteto, mestre de obras ou pedreiro. Ou defender um cliente, sem ser advogado. Ou atender um paciente, sem ser médico. Como diz o adágio popular, “cada um no seu quadrado”.

Poder-se-ia, no máximo, comparar os textos originais em francês, mas não apenas na construção idiomática escrita, mas, principalmente, no teor, na essência, na estrutura dos textos, diante do conjunto que os mesmos federados chamaram, em seu documento, de “conteúdo doutrinário”, ou também, de outra expressão comum entre os espíritas, a de “edifício doutrinário”. Neste ponto, senhores representantes institucionais, falece o argumento de “respeitabilidade ao estilo”. Kardec não poderia, durante onze anos, fundamentado na lógica racional, na principiologia e na metodologia, rasgar seus originais e compor “teses novas”, distantes do referido conjunto/conteúdo/edifício doutrinário. Mas foi o que aconteceu. Caso tivesse alguma justificativa para uma “guinada” de abordagem e entendimento, Kardec, como fez dezenas de vezes, admitiria eventuais equívocos anteriores e demonstraria o porquê da(s) mudança(s) de conceito(s).

Por isso, como eles mesmo dizem, dada a inconfundibilidade do estilo kardequiano, elementos como “a clareza, a concisão, a objetividade, o encadeamento lógico das ideias, a urbanidade e a elegância na forma de escrever” que caracterizaram os textos das suas trinta e duas obras não podem ser observados e demonstrados em vários dos textos alterados (novamente, para nós, adulterados). Porque, repetindo a frase febeana, em relação à autoria kardeciana os “novos” trechos “até podem ser imitados por outros, mas sem o brilho da sua mente privilegiada, sem o alcance nem a profundidade verificados nos demais livros da Codificação Espírita”. Foi, exatamente, o que constatamos. A pretensão de demonstrar que seriam de Kardec faliu, peremptoriamente.

Adiante, a entidade busca “respaldar” sua análise em “depoimentos” (?) de Armand Theodore Desliens, que teria sido médium da SPEE e secretário particular de Kardec até sua desencarnação. Na verdade, Desliens era secretário-gerente da “Revue” e, após o exemplar de abril, assumiu a edição e publicação dos demais fascículos daquele ano. E, conforme ele mesmo atestou, na verdade, senhores federados, a condução das atividades da Revista não era atribuída a Desliens, mas a Pierre-Gaëtan Leymarie.

Por fim, como a “cereja do bolo”, a entidade brasileira destaca a impertinência de “exumar, por estéril e inoportuno, um assunto que o bom senso há muito tempo se encarregou de sepultar”. Senhores! Não foi o bom senso, mas a antítese disso que sepultou um tema que mereceria os estudos que só foram possíveis, a partir de 2017, inicialmente com a publicação do livro já citado, “O legado de Allan Kardec” e, no ano seguinte, com o resgate da edição original de “A Gênese”, em publicação da Feal Editora. O meio espírita nacional e internacional jamais esteve diante de documentos e provas incontestes, assim como o minucioso exame das normas legais afetas ao direito autoral e a (im)possibilidade de alteração (adulteração) do conteúdo literário-editorial de obra de autor falecido.

A federativa diz que as teses – embasadas em “abundantes […] dados documentais apresentados” – não foram comprovadas, não sendo mais do que “probabilidades” sem “uma só prova” de que Kardec não seria o autor das modificações. Invertendo-se o ônus da prova, como dizemos no Direito Internacional, nós perguntaríamos aos ilustres dirigentes: e a prova de que foi Kardec o autor da quinta edição onde estaria? A prova cabal, Senhores, é a abundante e consubstanciada prova documental que consta no livro de Goidanich, não refutada, até hoje, por qualquer outra prova documental similar, que pudesse apontar para sentido diverso do que os documentos atestaram e atestam.

Por todo o exposto, a utilização da expressão “cortinas de fumaça”, no título deste ensaio é para além do seu sentido original, em alusão a técnicas utilizadas por estrategistas militares voltadas a ocultar suas forças ou seus veículos por trás de uma nuvem de fumaça (natural ou artificialmente produzida), enganando ou confundindo os inimigos. No sentido figurado, aplicável ao caso em estudo, trata-se de recurso argumentativo utilizado para desorientar o público, desviando sua atenção, em razão de truques interpretativos, para alcançar determinados objetivos.

Permanecemos no aguardo de que haja a contestação, por elementos documentais, lícitos e de pleno direito, para afastar a demonstração cabal, concluída por estudiosos sensatos, de que a edição original de “A Gênese” é a primeira, repetida em três republicações idênticas, que são a segunda, a terceira e a quarta. Até lá, continuaremos, com a força do Direito, e não com “meras teses”, defendendo o espólio de Allan Kardec, sem adulterações!

Nota do Autor:
[1] O documento em tela pode ser lido no seguinte endereço: Disponível em: <https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2018/01/Edi%C3%A7%C3%A3o-definitiva-de-A-G%C3%AAnese.pdf>. Acesso em 5 fev 2018.

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