À procura da dúvida: onde está a verdade?, por Henri Netto

Tempo de leitura: 5 minutos

Henri Netto

Quantos dos espíritas não estão praticando uma fé cega? Quantos desses são, em essência, roustanguistas, porque, mesmo afastando o livro de J.-B. Roustaing, contemporâneo de Kardec e “validador” da tese do corpo fluídico de Jesus, e conscientemente não sabem disso?

Depois de dois mil anos, olhando as novas descobertas da ciência, podemos concluir que existe uma distância enorme entre o Cristo do Cristianismo e Yeshua, o Jesus histórico que viveu no século I, de nosso calendário. Muito se tem dito que existem coisas que foram colocadas na “boca” de Jesus e que ele NUNCA teria dito. O interesse pessoal de imperadores romanos e dos religiosos dos primeiros séculos da nossa Era, quando Igreja e Estado deram-se as mãos, resultou na fundação de uma religião estruturada sobre a dominação, pela fé cega, resultando na criação e manutenção, até o presente século, de uma massa de manobra. Se não há, desde Lutero, uma única versão e interpretação dos fatos e atos atribuídos ao mito Jesus-Cristo, em razão das numerosas igrejas cristãs hoje existentes, inclusive as neopentecostais, torna-se muito difícil saber o que realmente há de verdade sobre a biografia de Jesus e o que ocorreu naqueles dias, porque afinal estamos a mais de 2.000 anos daqueles acontecimentos reais. Destaque-se que estudos historiográficos e arqueológicos têm contribuído para desmistificar o homem que esteve na Palestina, naqueles dias.

Diante disso, e da suposição de muitas interpolações e invenções de fatos e “milagres”, a deturpação de seus ensinos para moldarem-se a dogmas e sacramentos religiosos, alguns espiritas do chamado “meio espírita” se perguntam: – Onde estava a “Espiritualidade” e por que ela permitiu que isso ocorresse? Não poderiam, as Inteligências Invisíveis, em todos os tempos, interceder e impedir essa deturpação da história e da mensagem daquele sublime homem?

Há quem diga que estas Inteligências vieram resgatar o contexto de Yeshua, a partir das mensagens ditadas por eles e da interpretação e dos acréscimos feitos belo “bom senso encarnado”, denominação dada pelo filósofo León Denis a Allan Kardec, no conjunto das trinta e duas obras que ele publicou.

Assim é, para os que se dizem e estudam a fundo a Doutrina dos Espíritos.

E, então, é de se perguntar: – Somos que tipo de espíritas? Os que têm a “fé raciocinada” ou aqueles que se apegam ao poder e ao misticismo de uma fé cega?

Senão, vejamos… Muitos fatos vieram à tona, ultimamente, sobre “A Gênese” e “O Céu e o Inferno” as duas derradeiras obras de Kardec, consideradas, inclusive, as mais maduras entre as chamadas “obras fundamentais”. O estudo comparado entre as duas versões, dos dois livros, nos fizeram constatar a existência de um número significativo de alterações e, colocando lado a lado os textos, no original e clássico francês do século XIX, muitas das alterações, no mínimo, levantam sérias dúvidas acerca da autoria dessas mudanças.

Os textos “novos”, ainda que pareçam ser verdadeiros (porque as mãos inteligentes que mexeram nas edições, postumamente, pinçaram textos contidos nos fascículos da “Revue Spirite” (publicada de janeiro de 1858 a abril de 1869, pelo próprio Kardec), buscaram, quando em conjunto às demais, sem lastro em qualquer publicação de Kardec, a “aparência de verdade”. Há trechos absurdos que contrariam não só outras teses apresentadas e reforçadas por Kardec ao longo de sua produção literária, coerente e sequencial, mas, também, o próprio corpo doutrinário (princípios e fundamentos). A maior delas, sem sombra de dúvida, foi criar uma dúvida, que não existia na versão original (primeira a quarta edições de “A Gênese”), sobre a natureza física, material do corpo de Jesus. Neste sentido, a eliminação do item 67, do Capitulo XV, da obra citada, e a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

As mais de 12.000 páginas da “Revue” nos apresentam textos com conclusões robustas e com muito bom senso. Estranho é isso se dar justamente em relação ao desaparecimento do corpo do Mestre, para apontar para a tese da “ressurreição” (Jesus ascendendo aos Céus), um dogma religioso cristão. Quando, portanto, neste aspecto, se comparam as duas versões de “A Gênese”, nota-se que o Capítulo XVIII foi um dos mais prejudicados, por apresentar um texto místico e com uma certa escatologia, diferente da versão de janeiro de 1868 , onde temos um texto muito mais “positivo”, como se dizia na época.

Estamos há um pouco mais de 160 anos do fato ocorrido e temos diversos documentos escritos atestando o contrário (inclusive uma carta testemunho de Rivail-Kardec, afirmando o seu abandono pelo projeto de revisão de “A Gênese”, em razão de seu delicado e degenerativo estado de saúde). Curioso é que os “detratores” da tese de adulteração não mencionem em suas falas e textos, assim como entrevistas e “lives”, uma “vírgula” sobre isso. É como se a declaração do Professor francês jamais tivesse existido. Ficam presos a uma outra carta, anterior, em que ele dizia estar trabalhando na revisão de suas obras, para justificar sua esdrúxula tese de “não adulteração”. Veja-se que um único exemplar alienígena, com selos e informações editoriais diferentes daquelas tradicionalmente apostas pelo Mestre lionês em seus livros, com data de 1869 – e, ainda assim, posterior ao desencarne de Rivail-Kardec – inclusive foi “achado”, na desesperada tentativa de atribuir ao conteúdo apócrifo a teoria de sua autoria como sendo kardeciana.

Além do mais, o espírita consciente e sensato possui uma bússola para a nossa orientação, que é a “Revue”, um conjunto de fascículos mensais sequenciais em onze anos, solenemente esquecido e não lido pelo chamado meio espírita. Então pergunto; Quem gostaria de mudar esses textos? Qual o interesse por trás disso? Será que Kardec, que demorou quase dez anos para mudar de opinião sobre a temática da possessão, mudaria drasticamente a sua visão da moral espírita, como podemos constatar no texto alterado constante do Capítulo VII, de “O Céu e o Inferno”, especificamente nos itens 1 a 25, da versão de 1865? Por que abdicar da autonomia em direção à heteronomia, pela sujeição e dependência das escolhas da Divindade, para nós, ao invés das nossas, decorrentes do livre-arbítrio espiritual?

Muitos espíritas, seguindo as diretrizes federativas, costumam afirmar que “Jesus e a Espiritualidade estão no leme”. Quantos destes será que leram, estudaram e entenderam o conjunto de suas obras? Falam em “estudo sistematizado”, defendem “apostilas” e livretos que mesclam a teoria originária (Kardec) com afirmações individuais de Espíritos, da chamada “mediunidade brasileira”, sem perceber as nítidas diferenças e CONTRADIÇÕES principiológicas entre um e outros. Quantos desses, então, não estão praticando uma fé cega? Quantos desses são, em essência, roustanguistas, porque, mesmo afastando o livro de J.-B. Roustaing, contemporâneo de Kardec e “validador” da tese do corpo fluídico de Jesus, e conscientemente não sabem disso? Porque ao considerar vários textos de “A Gênese” ou “O Céu e o Inferno”, nas edições adulteradas, demonstram sua adesão àquela teoria e a outras, que deturpam os fundamentos doutrinários espírita. Ou, ainda pior, quantos desses somente repetem o que ouviram de outros, como mantras, sem qualquer análise profunda, sem qualquer estudo metódico comparado? No final das contas estamos materializando no seio espírita aquilo que Jesus teria dito: “Cegos guiando cegos”.

Se existe uma grande dúvida que envolve a autoria das alterações – que chamamos de adulterações, por seu histórico, conteúdo e documentos atestando a veracidade das edições originais – devemos permanecer com Erasto: “O que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” – “O livro dos Médiuns”, item 230.

Ao invés de seguirmos essa diretriz, prosseguimos, já há mais de 2.000 anos, transformando mentiras em verdades, consagrando mitos ao invés de fenômenos e indivíduos naturais, e transformando notícias e fatos em “fakenews”.

Imagem-de-Автошкола-ТЕХНИКА, Pixabay

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