40 gramas

Tempo de leitura: 3 minutos

Editores ECK

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Decisão da Suprema Corte brasileira define o quantitativo liberado para porte e uso de cannabis. O que se espera em relação a esta importante decisão? Como reagem a ela os brasileiros e, dentre estes, o segmento espírita?

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Desde o dia 25 de junho e enquanto o Congresso Nacional que detém a competência para legislar, compreendida a decisão supletiva para dispor sobre a matéria, não se pronuncie, há um quantitativo mínimo para diferenciar o usuário de maconha (cannabis sativa) do traficante: 40 gramas.

Trata-se de um expressivo avanço que NADA tem a ver com legalização de drogas ou porta de entrada para outros entorpecentes “mais pesados”, como dizem os opinadores de redes sociais – em especial os “tios” e “tias” do WhatsApp. O contexto é o da descriminalização do porte e o excludente de culpabilidade em relação ao usuário, permanecendo as sanções legais criminais em relação aos traficantes.

Diante da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), um expressivo número de partidários da “extrema direita espiritista” iniciou a ação de espalhar fake news como a de que os ministros do STF devem ter “fumado unzinho”, para agir no sentido da diferenciação entre traficante e usuário. 

E não só eles, como os demais, não espíritas, mas “terrivelmente cristãos”, não entendem – ou fingem não entender – o óbvio: nos bairros nobres e nas residências mais valorizadas, impera a “lei do doutor”, aplicável ao usuário sempre inocente, branco, bom nível cultural e de classe média. Nas periferias, sob a mesma abordagem paralegal, a “borracha” come solta, onde se brada facilmente: cadeia para o “traficante”!, mesmo que seja aquele “pego” com um simplório baseadinho.  

Há no Brasil um notório fingimento de que “tudo está bem” e é preciso garantir a “paz social”. Mas, esta paz só é a que se coaduna com interesses e visões particulares – sobretudo as que derivam de visões estreitas que derivam das religiões cristãs e suas prescrições morais particulares. É que no Brasil igrejeiro, qualquer pauta que se relacione à humanização das relações é depreciada, menosprezada e combatida. Respeito às diversidades, liberalização do aborto com leis precisas de proteção à mulher, valorização feminina, políticas de combate ao racismo, à misoginia, à homofobia, à xenofobia, à aporofobia, entre outros, tudo isso atinge o coração dos conservadores, incluindo espíritas de pedigree, de destacadas posições em instituições e de nariz empinado. 

40 gramas, assim, sacodem a nação e o movimento espírita enquanto, ao lado, toneladas de intolerâncias e de barbaridades dominam o ambiente político, social e doutrinário. Sim, porque você nunca vai observar alguns desses temas sendo abordados de forma consciente e equilibrada, bem dentro da lógica racional praticada e recomendada por Kardec nos “púlpitos” das casas espíritas ou diante de grandes plateias em auditórios luxuosos, em performances teatrais dos afamados showmen. Ah, claro, o Espiritismo que o Brasil conhece figura muito distante daquela filosofia com bases científicas e consequências morais que o Professor francês, no quartel final do Século XIX, estabeleceu, a partir de premissas racionais, adotando uma metodologia, uma hermenêutica e uma epistemologia características. Aqui temos os que deformaram e deformam Kardec, se valendo de outros insumos (crendices, dogmatismos, superstições, enxertias) que mais confundem do que esclarecem.

40 gramas é, então, o patamar permitido agora para que o indivíduo não seja detido como traficante, sofrendo os rigores da lei. 40 gramas simboliza o todo mundo igual perante a lei e  a abordagem é democrática. Tudo isso é, sabemos, ainda muito tímido, mas configura um avanço. Obviamente, a religião cristã continua ditando as regras morais, mas que deveriam, ao contrário, ser éticas (porque moral é algo pessoal ou conjuntural, como as prescrições decorrentes da fé, enquanto a ética seria o predefinido socialmente, sem amarras religiosas e sem preconceitos derivados de visões pessoais sobre temáticas assim como de parciais visões da vida). Isto, em um país que sonha (poder) ser laico, sob a égide principiológica da Constituição Cidadã de 1988, mas que segue flertando fortemente com o  fundamentalismo cristão. 

Os espíritas seguem, portanto, vibrando com “jesus no leme” do Brasil. Enquanto isso, o barco segue em águas turvas, sob tempestades, com velas puídas, timão enferrujado e instrumentos de navegação sem resposta.. À espera das (presumíveis) catástrofes, mas, para eles, estas são as purgações necessárias, os resgates, para que depois todos possam gozar da vida sem 40 gramas nas colônias espirituais da Eternidade, enquanto os maconheiros estarão condenados, desde já, aos umbrais da Terra, em presídios, e aos umbrais do porvir, retratados nos romances de ficção mediúnica…

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

3 thoughts on “40 gramas

  1. Parabéns pela coragem do texto, 👏👏👏👏

    Abaixo o espiritismo hipócrita que só sabe defender os privilegiados.

  2. Muito bom este comentário,..trabalhei varios anos no Sistema Bancario na área de informática e não foi poucas as vezes que sabíamos que o pessoal da cúpula diretora e alguns gerentes participavam das tais festinhas regado aos fármacos ilícitos e tudo bem… assim é nossa sociedade, fecha os olhos para as desrrapadas de alguns e perversos com as de outras criaturas sendo que as vezes não tão contundentes.

  3. Muito bem abordado. A hipocrisia das classes sociais dominantes, por consequência mais abastadas, são as que sustentam o consumo de drogas, e por decorrência disso, o tráfico de drogas e a criminalidade a esse ligada. Ninguém dessa classe critica o consumo de bebida alcoólica, que não deixa de ser uma droga.

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