Por ser mulher, por Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 5 minutos

Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique

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Os tempos atuais ainda revisitam cenas dantescas do passado. A misoginia e a tentativa de anulação da mulher são revisitadas por aqueles que se “acham” defensores da família, dos bons costumes, da ética. Que ética?

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Estamos às voltas com novas tentativas de recrudescimento dos direitos humanos e, em especial, dos direitos e liberdades da mulher. E, como sempre, o passado pode nos ensinar. Vamos sucintamente relembrar: – como a misoginia se estende pelos tempos? Ora, um dos livros mais vendidos do planeta afirma que Deus criou o homem e, depois, de sua costela fez a mulher? Quem teria escrito? Aqui, não importa tanto a autoria, por não ser a prioridade, mas sim a ideia: é como se o homem (masculino) fosse descendente direto do Criador e a mulher, do criado.

Por quê? Quem senão o homem “escritor” das Escrituras teria apregoado a superioridade masculina? Se, para a existência biológica, carnal, orgânica, material, em termos de Humanidade, só existe uma possibilidade real, a união dos gametas femininos e masculinos no zigoto, porque haveria de ser destinado como o primeiro habitante humano, deste ou de qualquer outro planeta – pela máxima principiológica espírita da pluralidade dos mundos – teria de ser o macho?

Não entendemos! Ou entendemos, sim. Trata-se da costumeira e tradicional visão que desbalança os seres, atribuindo-lhes importâncias e papeis diversos. E isto permeia não só a própria Bíblia, como qualquer outro livro religioso escrito por homens, neste orbe. E, notadamente, isto também está na “liturgia espírita”, aquela que deriva da aceitação cega das obras psicografadas no Brasil, ditadas por seres igualmente vinculados à religião dominante, ou portadores de imperfeições morais, já que a mera desencarnação não erige posição superior ao que se foi, em vida, para qualquer Espírito. Basta folhear os diversos livros que se encontram no mercado, desde a década de 1940, para perceber, aberta ou veladamente, a ideologia machista presente.

É momento, pois, de retificar esse pensamento e todas as consequentes ações dolorosas que dele decorrem.

Num recorte da história humana, encontramos: – “Chora como mulher, por aquilo que não soubeste defender como homem”. São as palavras de mãe ao seu filho sultão, de nome Boabdil, quando esse entregou Granada aos reis católicos. Quanto equívoco e quanta misoginia contida nessa pequena frase! Contudo, ela sintetiza o pensamento de muitos, na contemporaneamente e que é preciso que mulheres e homens lutem para mudar.

A trajetória do ser humano, quando contada sob a ótica masculina – e tal é a tônica, sempre –, nos leva a crer que a mulher sempre ocupou papel secundário no desenvolvimento da Humanidade. Isto configura a ideia de que o feminino não possui, não tem funções e não constrói o plano vivencial, como se as mulheres tivessem sido silenciadas, amordaçadas e condenadas à subserviência, sem inclusive possuírem a memória dos tempos idos, precursores, assim como os imediatamente anteriores, que se repetem, indefinidamente. Tudo dentro de uma estrutura fundada para que o homem se sobressaia em todos os contextos e quadrantes, mesmo que à custa da subjugação do suposto (e decantado) “sexo frágil”.

Sexo frágil? Por quê? Pela condição física? Ou pela imposição de condições psicológicas adversas – inclusive pela tal força física dos homens?

Nesta linha histórica podemos definir a participação da mulher em uma singela pergunta: teriam sido as mulheres silenciadas?

Para buscar uma resposta, citamos Simone de Beauvoir, filósofa francesa: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. É por isso que, diante dos “cancelamentos” de todos os tempos, subjugadores da mulher em todos os contextos, desde o lar, passando pelo mercado de trabalho, pela religião, pelas artes, letras e ciências, o grave erro de muitos foi tentar se igualar aos homens, num contexto totalmente desfavorável, que ainda vige, infelizmente, inclusive nos noticiários das últimas semanas. Não se igualam homens e mulheres! Se isonomiza estas àqueles. Porque a isonomia confere os mesmos direitos e deveres, sem precisar anular a condição de umas em favor das prescrições afetas a outros.

É essencial, assim, que a mulher seja, torne-se e permaneça como mulher, inclusive dentro de uma sociedade de homens. E isto se faz todos os dias em cada palavra, gesto, sentimento e afirmação, a fim de ratificar a efetiva e real contribuição do ser mulher para o desenvolvimento da estrutura social em que todos vivemos. Abrir espaços e conservá-los, em especial, para que os seres imortais (Espíritos), ora com as vestimentas de corpos femininos, encontrem em si os estímulos e os incentivos para demonstrar aos pares – e, também, aos que não o são – o que é necessário construir dentro de uma sociedade fortemente excludente e arrogante.

Se muitas mulheres, na História, demonstraram ser isso capaz, com suas lutas pessoais, porque outras não o podem (ou não conseguem)? O que dizer de Marie Curie, Nobel de Física e de Química, e sua vida em um laboratório, não teria desempenhado o suficiente? E Joana D’Arc, entoando sua voz libertadora da nação francesa, não teria preparado o caminho para as mudanças necessárias à chegada da luz transformadora do planeta? Como encarar Patrícia Galvão, poeta e ativista política, a primeira mulher presa política no Brasil, aos quinze anos, não teria lutado o suficiente para inaugurar a participação da mulher no cenário político-social, demonstrando, também, a força da poesia modernista? E Leila Diniz e sua linda barriga grávida, exposta, a desfilar pelas praias cariocas a mostrar a vida que corre e que passa pelo feminino, não teria encorajado milhões de mulheres a amamentarem em público e a cultuarem seus corpos sem a vergonha imposta pela misoginia? Como entender o papel de Olga Benário, exilada por defender suas convicções e por premeditar a mudança, ela não teria vivido intensamente a força feminina no cenário mundial?

E o que dizer, então, de todas as mulheres, que deixaram e continuam deixando, em cada ser, a verdadeira impressão do trabalho que o Criador lhes confiou, sendo geratrizes da vida cocriada e gestada por mulheres e homens em concurso divino? Mas a sociedade hostil, que privilegia o macho, impõe ao feminino a posição subalterna de “segundo sexo”, que deve ficar camuflado em subfunções e implorando migalhas de espaço e participação. Quem foi que estabeleceu, senão uma sociedade masculina, com representantes exclusiva ou majoritariamente homens, o que deveria ser o feminino e como deve ele se portar e em quais áreas poderia ser reconhecido?

É preciso lembrar de Michelle Perrot, filósofa francesa, em seu aforismo: “no teatro da vida as mulheres são uma leve sombra”. E por quê assim o é? Senão pela força física e pela coação moral, aproveitando-se da estrutura corporal mais favorável do homem…

Mas, o entusiasmo da mulher que impele suas crias ao Bem e à realização da concretude e do progresso na estrutura social em que estamos, segue como a principal garantia de que as mulheres podem ser mais. Lembremos que a vocação natural da mulher é impelir o desenvolvimento psíquico e moral e, em seguida, auxiliar o despertar daqueles que lhe compartem o espaço, pela força e qualidade de sua intelectualidade e do seu sentimento.

Nosso brado, como mulher e homem, juntos, em parceria, é pelo fomento de comportamentos femininos que possam abrir espaços, lutar, levantar a voz feminina que faz falta ao conjunto do tecido social, apontar aquilo que nos angustia e nos sufoca nesta sociedade androcêntrica, machista, misógina. Para varrer de uma vez por todas a triste realidade estampada nos muros e calçadas, assim como em ambientes familiares, onde ecoam vozes sofridas em gemidos atrozes e o sangue jorrado de inúmeras mulheres anônimas que não se deixaram calar, inscreve suas marcas em uma sociedade que, mesmo estando no terceiro milênio, ainda conserva a barbárie primitiva. Porque delas, de seus corpos e almas sofridos, foi construído o mundo.

Os tempos atuais ainda revisitam cenas dantescas do passado. A misoginia e a tentativa de anulação da mulher são revisitadas por aqueles que se “acham” defensores da família, dos bons costumes, da ética. Que ética?

Não há a ética dos homens, os machos. A Ética humana precisa ser de e para todos!

E que o “mundo novo” seja mais brando e justo, amparador e solidário com as mulheres, como nunca dantes… À mulher, por ser mulher!

Imagem de agnes por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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