A crítica no contexto espírita, por Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 6 minutos

Marcelo Henrique

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O exercício da crítica, construtiva e positiva, deve ser seguido por todo interessado no Espiritismo, no sentido de que, sempre, seja realizado um estudo comparativo das mensagens mediúnicas e das obras publicadas como sendo espíritas. A PEDRA DE TOQUE é e será sempre a Codificação Espírita. Isto, contudo, sem deixar de destacar que o próprio Codificador sempre considerou a Filosofia Espírita como uma Doutrina aberta e progressiva, que não foi ditada completa, cabendo aos homens que lhe seguiram completá-la, no diálogo com os Espíritos. Esta é a nossa tarefa: dialogar com os Espíritos (encarnados e desencarnados) para fazer prosseguir a tarefa do esclarecimento espírita para “aqueles que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir”.
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Há um “quase-mantra” que é entoado e decantado no movimento espírita brasileiro, repetindo uma afirmação atribuída a Jesus de Nazaré: “não julgueis para não serdes julgados” (Mateus; 7:1-5).

O texto acima é, inclusive, replicado em “O evangelho segundo o Espiritismo” (OESE), no capítulo X, itens 11 e seguintes. Vale dizer que o “evangelho espírita” é uma obra peculiar, em que Kardec e os Espíritos Superiores selecionaram APENAS aquilo que consta dos chamados evangelhos canônicos, que pudesse dar ênfase às máximas morais de Jesus em absoluta consonância e concordância com os princípios fundamentais do Espiritismo e, ainda assim, centradas na sua aplicabilidade prática às circunstâncias da vida físico-material. E deixaram de fora as fábulas cristãs, os dogmas da Igreja, os sacramentos e as ideias peculiares à dogmática cristã (e católica).

É por isso que, qualquer leitor que se debruce sobre o “Novo Testamento”, comparando-o com a obra kardeciana acima referida, não encontrará grande parte das passagens ilustradas naqueles quatro livros que o Cristianismo consagrou como “a palavra do Mestre”. Vale dizer que tal diferença se dá em função de que a composição de muitos textos “evangélicos” se dá para atender os dogmas da Igreja Cristã, fundamentando a liturgia religiosa e, portanto, nada tem de verossímil nem possui qualquer validade histórica, científica, espiritual ou prática.

O JULGAMENTO NOS TEXTOS DAS OBRAS DE KARDEC
Voltando ao tema principal, o do julgamento, tem-se que esta situação é muito tratada na produção kardeciana (32 obras), já que ela se baseia, inicialmente, na chamada construção judaico-cristã (Antigo e Novo Testamentos), em que o Deus-Juiz é, ainda, uma referência histórico-religiosa-humana. Se, mesmo considerando a distinção entre os textos de Moisés e os atribuídos a Jesus, ocorreu um abrandamento da severidade do Criador, aproximando-se, com o Nazareno, da figura paterna em relação à Humanidade, ainda encontramos nos relatos dos evangelhos, aquela imagem punitiva em relação à Divindade.

E, se nos debruçarmos sobre um sem-número de comunicações selecionadas por Kardec para compor as teses que compõem cada uma das chamadas Obras Fundamentais da Codificação Espírita, vamos encontrar, ainda, rudimentos e resquícios da visão religiosa presente no raciocínio e na expressão das Inteligências Desencarnadas que assessoraram a construção estrutural da Filosofia Espírita. Isto porque o Cardeal, o Santo, o Reverendo, a Freira e o Vulto Cristão que assinam as mensagens, de teor moral elevado e de profunda espiritualidade, ainda possuem, cada qual, a “embocadura” das vivências religiosas que tiveram em sua última encarnação. A assinatura do Espírito, vinculando-o à posição ocupada e ao papel desempenhado junto à “cristandade” são, assim, decisivos para que, num exame lógico-racional, se perceba o quanto de verniz ideológico e de dogmatismo clerical da religião cristã se acham presentes.

Convido o leitor para observar – pode ser apenas no OESE – quantos textos possuem tal coloração, apresentando um Deus que, aos olhos do comunicante, ainda administra o Universo pelas “próprias mãos” (como se fosse um ser moldado à imagem e semelhança dos humanos), distribuindo a Sua justiça com base em agrados ou reprimendas, bonanças ou maldições, benesses ou tragédias. A noção de Justiça Divina, para o Espiritismo, no entanto, diverge e se distancia sobremaneira desta forma “humana” ou “pessoal” de gestão universal, já que, conforme nos ensinaram os Luminares Desencarnados, na terceira parte de “O livro dos Espíritos”, as dez Leis Divinas (Leis Morais) regem o Universo e são autoaplicáveis, não necessitando de nenhum administrador, aplicador ou juiz.

Deste modo, o axioma “só Deus pode julgar” não corresponde, de fato, à pedagogia espiritual, posto que NEM o próprio Deus julga. Já nos disseram os Espíritos Superiores que as leis espirituais estão grafadas na consciência dos Espíritos (homens) e, também esta, a consciência, é a responsável pelo nosso “julgamento”.

JULGAR E CRITICAR. CRITICAR E JULGAR.
Estabelecidas estas premissas, é forçoso traçar uma pontual distinção entre julgar e criticar, ou, entre julgamento e crítica. Voltando a Kardec, sabemos que ele realizou a crítica de tudo o que lhe chegou às mãos, em termos de comunicações mediúnicas e, ainda, teve tempo e oportunidade para avaliar ações tidas como espíritas, em relação aos grupos e instituições do primeiro período do Espiritismo no mundo (1857-1869). Na “Revista Espírita”, Kardec, por exemplo, tece críticas construtivas em relação a obras, periódicos e correspondências a ele dirigidas. Indo um pouco mais longe, para alcançar aquela que, dita pelo professor francês, deveria ser a primeira obra a ser lida (e estudada) pelo neófito, pelo simpatizante, por aquele que começava a dar os primeiros passos em termos de Doutrina Espírita, qual seja “O que é o Espiritismo”. Nela, Kardec entabula três diálogos – com MUITA crítica – com conversações com o crítico, o cético e o padre, debatendo com cada um destes três interlocutores os pontos principais das discordâncias expressas por tais personagens em relação ao conteúdo espírita. A análise que o Codificador faz em relação à manifestação de opinião de cada um deles, é composta de sólida argumentação e aponta erros, falhas e lacunas em relação ao pensamento de cada um dos citados. E isto é, portanto, crítica.

Criticar é, segundo o vernáculo, a ação de apontar ou ressaltar as imperfeições de alguém ou de algo; salientar qualidades ou defeitos de algo ou alguém; corrigir; analisar; apreciar; avaliar; examinar. Se há algum tipo de julgamento, o mesmo se dá para o proveito e a utilidade de quem critica e pode ser compartilhado, no intuito pedagógico ou instrutivo.

A este respeito, vamos lembrar uma outra passagem de OESE, no mesmo capítulo X, já referenciado, agora nos itens 19 e seguintes. Note-se dois pontuais questionamentos feitos por Kardec. O primeiro: “Será repreensível observar as imperfeições dos outros, quando disso não possa representar nenhum benefício para eles, e mesmo que não as divulguemos?”. E o segundo: “Há casos em que seja útil descobrir o mal alheio?”. Ambos são respondidos pelo Espírito São Luís. Este personagem é um dos expoentes mais destacados da Filosofia Espírita, cognominado como o Guia Espiritual da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE), a primeira entidade espírita do mundo, fundada pelo professor francês, foi Rei na França (Luís IX), tendo vivido entre 1214 e 1270. A Igreja o canonizou em 1297, em razão de sua qualidade de soberano piedoso, altruísta e imparcial, venerado por suas virtudes. Ele consta, inclusive, do “Índice Biográfico” elaborado por Kardec, junto à “Revista Espírita” de 1869.

Para a primeira indagação, Luís destaca não ser vedado enxergar o mal, se este existe e que enxergar apenas o bem prejudicaria o curso do progresso. Mas a divulgação não pode ser apenas para atender caprichos pessoais com a ridicularização do objeto da crítica.

No segundo questionamento, tem-se uma resposta que é essencial para a compreensão do tema deste artigo. Luís expressa que a crítica é associada à caridade – este verdadeiro pilar da espiritualização da Humanidade e do próprio Espiritismo (“fora da caridade não há salvação”, lembremos). Leia-se: “Se as imperfeições de uma pessoa SÓ prejudicam a ela mesma, NÃO HÁ jamais utilidade em divulga-las. Mas SE ELAS PODEM PREJUDICAAR A OUTROS, É NECESSÁRIO PREFERIR O INTERESSE DO MAIOR NÚMERO AO DE UM SÓ” (grifos nossos). Porque o ato de desmascarar a mentira ou a hipocrisia é dever do homem de bem, sendo preferível que, ao invés de sucumbir um grupo de pessoas, por serem vítimas de alguém inescrupuloso ou audacioso (“os maus são audaciosos”, recordemos), deve cair um homem, situação que, na prática, deve ser o exercício de sopesar inconvenientes ou vantagens para a crítica (divulgação do mal alheio).

Excluir a crítica das atividades espíritas é abolir ou abdicar de um lugar privilegiado na construção do saber espírita!

Então, em termos espirituais e espíritas, a crítica é uma pontual forma de trabalhar ou uma espécie de trabalho intelectual, que é o trabalho filosófico por excelência, devemos entender a mesma como necessária para o estudo, o aprendizado e a prática do Espiritismo. E, por consequência, excluir a crítica das atividades espíritas é abolir ou abdicar de um lugar privilegiado na construção do saber espírita, pois a avaliação nos permite, a cada passo, verificar os acertos e os equívocos, concorrendo para o progresso (individual e coletivo).

Como disse Erasto em “O livro dos Médiuns”, no item 98 do Capítulo V, “é absurdo repelir sistematicamente todos os fenômenos de além-túmulo, também não é de bom aviso aceitá-los todos, cegamente”. O texto, aliás, é introduzido por uma crítica de Kardec, onde se lê: “A teoria […] se acha resumida, de maneira notável, na seguinte dissertação feita por um Espírito, cujas comunicações todas trazem o cunho incontestável de profundeza e lógica. […] Ele se dá a conhecer pelo nome de Erasto, discípulo de São Paulo, e como protetor do médium que lhe serviu de instrumento”.

Veja-se, aí, o legítimo exercício da crítica, construtiva e positiva, que deve ser seguida por todo interessado no Espiritismo. Aliás, é exatamente esta crítica que se espera de cada espírita sensato, estudioso e seguidor do método de Kardec, no sentido de que, sempre, seja realizado um estudo comparativo das mensagens mediúnicas e das obras publicadas como sendo espíritas. A PEDRA DE TOQUE é e será sempre a Codificação Espírita, mas sem deixar de destacar que o próprio Codificador sempre considerou a Filosofia Espírita como uma Doutrina aberta e progressiva, que não foi ditada completa, cabendo aos homens que lhe seguiram completá-la, no diálogo com os Espíritos.

Então, é de se perguntar: como vai a sua crítica espírita?

Imagem de Marcelo Russo de Oliveira – Coffee Tips Welcome por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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