Augusto Pinho
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A maioria dos espíritas, reais e nominais, não concebe a magnitude de Deus, prosseguindo agarrados ao Deus da religião: sobretudo homem e fácil de lidar — porém limitante.
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“A religião não é uma interrogação sobre Deus, nem sobre a origem e o sentido do mundo, mas sobre o Homem. Todas as perspetivas religiosas da vida são antropocêntricas. […] A religião é essa atividade do impulso humano para a sua autopreservação, por meio da qual o Homem procura levar a cabo os seus propósitos vitais básicos contra a adversa pressão do mundo, elevando-se livremente em direção aos poderes que governam quando chega aos limites da sua própria força”, W. Bender. [1]
Se aceitarmos esta leitura — e facilmente se aceita —, ao cogitar-se que o Espiritismo seja religião é pretender que não dê o “salto quântico” em direção ao Deus Inteligência Suprema e Causa Primeira (normalmente tem-se traduzido “première” por primária, quando devia ser primeira. Tem-se tomado uma coisa pela outra, mas não são exatamente o mesmo. Basta consultar um dicionário. Mas tal permanece híbrido, meio Javé, Senhor dos exércitos, cioso e vingativo, meio “Abba” [2], misericordioso que cede a imprecações [3].
As religiões têm Deus, mas Deus não tem religião! Sendo invenções humanas, as religiões espelham as idiossincrasias dos seus fundadores e mantenedores.
O Deus da primeira questão de “O livro dos Espíritos” não é o das religiões, porque estas o representam noutros termos que não nesta grandeza. Assim sendo, aplicando o conceito de Deus dado pelos Espíritos Superiores a tudo que possa ter interesse filosófico — e tudo pode ser objeto de reflexão —, o Espiritismo deveria situar-se no espaço neutro das religiões (mas também tem de extrair inferências coerentes na totalidade das questões abordadas).
Aliás, veja-se o que diz Kardec, na Introdução, Item II, de “O evangelho segundo o Espiritismo” (OESE):
“O Espiritismo não tem nacionalidade, independe de todos os cultos particulares, não é imposto por nenhuma classe social o impõe, visto que cada um pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo. Era necessário que assim fosse, para que ele pudesse conclamar todos os homens à fraternidade, pois se não se colocasse em terreno neutro, teria mantido as dissensões, em lugar de apaziguá-las”.
Todavia, o capítulo VI de OESE parece contradizer este excerto. Ou, então, o excerto refere-se a outra coisa que não a desta interpretação.
Mas, como já percebemos, ainda não se fez luz para a maioria dos espíritas, reais e nominais, para ver a magnitude de Deus contida numa simples frase, mas de implicações múltiplas, radicais e complexas. Por isso, continuam agarrados ao Deus da religião, que é sobretudo homem e fácil de lidar — porém limitante (até para o entendimento do Espiritismo, que se queda pela superfície).
Notas:
[1] Citado por William James, em “As Variedades da Experiência Religiosa”.
[2] A palavra vem do aramaico, significando “papai” ou “paizinho”. Convenciona-se que era esta a forma de Yeshua se referir, em diálogos, com Deus. Ela aparece no Novo Testamento (Mc; 14:36; Romanos; 8:15; e, Gálatas; 4:6). Essas duas últimas referências são de Paulo (Saulo) de Tarso, em suas epístolas. Nesse sentido, representativamente, para a crença religiosa, simboliza, também, o “acesso direto” do Mestre ao Criador.
[3] Imprecações são aqueles desejos intensos, relacionados a uma futura ocorrência ruim aconteça (desgraça ou maldição). No contexto bíblico (religioso) está associada, a palavra, ao clamor pela Justiça Divina, em ações contra inimigos. Na literatura em geral, simboliza revolta e indignação.
Fontes:
Almeida, J. F. A. (2026). “Bíblia On Line”. Almeida Corrigida e Fiel. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>. Acesso em 31. Jan. 2026.
Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.
Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
Imagem de Anna Lenskaya por Pixabay





A grande maioria dos que connosco habitam neste mundo, ainda não têm capacidade de separar o Deus antropomórfico do Deus Criador a Causa Primeira ( ou Primária). Estamos na alvorada do conhecimento que os Espíritos Superiores nos disponibilizaram através do Professor Revail. Somos aprendizes e ainda petizes na escola dos principiantes. Sou grata por ter encontrado companheiros de jornada que estão mais avançados do que eu nesta aprendizagem da Filosofia Espírita. Grata pelo texto.