O Adoecimento no Topo: Narcisismos, Ilusão de Posse e as Costas Viradas para a Vida

Tempo de leitura: 3 minutos

André Marouço

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O narcisismo exacerbado funciona como uma armadura frágil: ele nos convence de que o nosso valor está condicionado à vitória ininterrupta e ao nosso domínio sobre os demais.

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A cena que encerrou a final da Copa do Mundo de 2026 carrega uma simbologia que transborda os limites do esporte. Enquanto a seleção espanhola erguia a taça de campeã, a equipe argentina — detentora do título anterior e repleta de atletas que já atingiram o ápice da fama e da fortuna — permaneceu de costas para o pódio. Entre eles, Lionel Messi. A imagem repercutiu como um desrespeito para alguns, mas, para outros, os atletas não estavam de costas para os campeões e, sim, de frente para a torcida que lhes acompanhou. Todavia, para o (nosso) olhar clínico e filosófico, o gesto revela algo muito mais profundo: a incapacidade de integrar a “derrota” e a ilusão sufocante do topo.

Messi, por exemplo, já ganhou absolutamente tudo o que um jogador de futebol poderia ambicionar. Entre os ganhos, uma fortuna inimaginável. Ele, algumas vezes, foi eleito com o maior troféu de jogador individual que a entidade máxima do futebol entrega aos seus atletas. E, se tudo der muito errado, na vida profissional dele, adiante o que lhe aguarda são contratos publicitários que vão somar outros tantos milhões. Ainda assim, suas lágrimas e a frustração estampada ao término do jogo expõem a engrenagem oculta da lógica neoliberal e do narcisismo contemporâneo: a promessa de que a conquista traz a plenitude e só é possível ser pleno se no topo for possível permanecer.

Na perspectiva psicoterapêutica, o narcisismo exacerbado funciona como uma armadura frágil. Ele nos convence de que o nosso valor está condicionado à vitória ininterrupta e ao nosso domínio sobre os demais. É a dinâmica do “quanto mais se ganha, mais se deseja ganhar”. O topo não é um lugar de descanso; torna-se uma jaula de ansiedade onde a menor ameaça de perda é vivenciada como uma aniquilação do próprio Eu. Me lembro muito bem, das perversas palavras de um gigante do automobilismo, o Senhor Nelson Piquet que eternizou a frase: “O segundo lugar é o primeiro entre os perdedores”. Grande esportista, mas, infelizmente, muitas vezes, pequeno nas palavras.

Sob a ótica do Espiritismo laico — centrado no progresso intelecto-moral, na solidariedade e no entendimento do desapego —, esse comportamento reflete a ignorância de nossa verdadeira natureza. Apegamo-nos aos papéis de “vencedores” temporários como se fossem a nossa essência. Esquecemos que a vida material é transitória e que o verdadeiro progresso exige a capacidade de reconhecer o mérito e a existência do outro.

 Virar as costas para a celebração alheia não foi apenas dar as costas à Espanha. Foi dar as costas à própria realidade da derrota e à dor de ter que ceder o lugar.

Essa mesma cena se repete diariamente na estrutura socioeconômica em que vivemos. A lógica capitalista e meritocrática prega que apenas um número reduzido de indivíduos pode chegar ao “topo” — e estimula, quem lá chega, a agir com voracidade. Há um paralelo direto com a injustiça social: os hiper-ricos e as elites econômicas, por mais acúmulo econômico-financeiro que obtenham, recusam-se a “dividir o bolo”. A ideia de abrir mão de privilégios para que surjam mais vencedores é encarada, não como um ato de justiça ou fraternidade, mas como uma perda insuportável. Preferem virar as costas para a miséria e para a injustiça e a desigualdade social a aceitar a distribuição do espaço.

Quantas vezes não fazemos exatamente a mesma coisa em nossas trajetórias individuais?

Em nossas vidas afetivas, profissionais e sociais, quantas vezes nos agarramos a posições, status, opiniões ou dinâmicas de controle apenas por puro orgulho? Agimos como crianças mimadas, as que preferem quebrar o brinquedo a compartilhá-lo. Empenhamos, assim, forças inimagináveis nessa manutenção contínua da imagem do “vencedor” — uma energia vital imensa que nos é roubada apenas para sustentar uma ilusão de superioridade.

Lutar desesperadamente para não perder o topo nos adoece. Furta-nos de nós mesmos a capacidade de viver em paz, de celebrar a diversidade da vida, de praticar a alteridade e de viver no agora, pois, no topo, do que quer que seja a nossa realidade, nosso inconsciente afirma: “um dia você vai ter que descer”.

Ceder o lugar não significa fracassar; significa compreender o fluxo contínuo da vida. O gesto do jovem Lamine Yamal ao procurar Lionel Messi — que, jogado ao chão do gramado, provavelmente se sentia um perdedor — talvez tenha sido o único vislumbre de maturidade e fraternidade em meio à tempestade de egos.

Curar essa neurose coletiva exige a coragem de olhar de frente para as nossas limitações, soltar o peso da necessidade de ser “o maior” e entender que a verdadeira vitória não está em ser o único no topo, mas em caminhar de mãos dadas com a humanidade. Enquanto a cultura contemporânea incitar os vencedores a virarem as costas para os que perdem, estes mesmos se agarrarão ao sofrimento do pódio, olvidando que, quer queiram quer não, um dia, a velhice, a doença ou a morte os fará descer do alto das tamancas. E isso, posso dizer, só se dá graças às sábias — e laicas — Leis Divinas.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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One thought on “O Adoecimento no Topo: Narcisismos, Ilusão de Posse e as Costas Viradas para a Vida

  1. Sem dúvida André Marouço tocou no ponto essencial da actualidade nesta nossa sociedade do sec.XXI. Sempre existiram esses indivíduos que almejaram sempre mais lucro e posição superior aos demais, não se importando com os pobres e oprimidos, hoje é uma condição que parece ter aumentado exponencialmente. Realmente só as Leis Universais nos podem ajudar a superar esse flagelo, que parece aumentar a cada dia, não deixando a Humanidade progredir.