As adjetivações necessárias, por Nelson Santos

Tempo de leitura: 4 minutos

Nelson Santos

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O que se busca e se incentiva é a libertação dos Espíritos e a emancipação das consciências e é sobre esta base que, os livres-pensadores se apoiam para fazer o progressismo que conduzirá a uma evolução moral e à Justiça Social.

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Passados quase cento e setenta anos da publicação da obra primeira de Allan Kardec, “O livro dos Espíritos” (18 de abril de 1857), escrito basilar da Filosofia Espiritualista, frustramo-nos pela falta de compreensão, por parte dos ditos espíritas, acerca de sua extensão.. Afinal, o livro inaugural do Prof. Rivail, concedeu lucidez ao conhecimento espiritualista, oferecendo a lógica de um conjunto doutrinário, através do pensamento filosófico e alicerçado na experimentação metódica científica, com o contributo do ensino dos Espíritos e do pensamento Kardeciano.

Causa espécie a ojeriza que a maioria do movimento espírita tem de adjetivos como progressista e livre pensador. Alegam que o Espiritismo não tem adjetivações e que ele o é; porém, estes, que deveriam ser mantenedores do espírito filosófico e científico da Doutrina Espírita, perdem-se em dogmatismos, miopias interpretativas e análises tacanhas que traduzem a precariedade de seus estados humanos atuais.

Então, face ao exacerbado religiosismo que contaminou a ambiência Espírita, embora não o seja ideal, faz-se necessário usar de tais adjetivações para expor que há mais a conhecer e estudar do que as supostas obras mediúnicas apresentam, posto que chamadas indevidamente de obras complementares (sic), as quais, multiplicam-se indiscriminadamente, deturpando os fundamentos espíritas. Referidas publicações somente deveriam ser apreciadas após o espírita, adepto ou simpatizante, estar ciente dos critérios Kardecianos, pois é nestes que encontramos os traços que definem a Filosofia Espírita.

Para avançarmos na argumentação, escapando de conjecturas, separamos duas das adjetivações mais usuais que estão, de maneira expressa, ao longo das obras do insigne professor.

Consideremos, primeiramente, o contexto léxico:

1) Progressista: adepto do progressismo, que é o conjunto de doutrinas filosóficas, éticas e econômicas baseado na ideia de que o progresso, entendido como avanço científico, tecnológico, econômico e social, é vital para o aperfeiçoamento da condição humana; e,

2) Livre-pensador: adepto do livre-pensamento, filosófico ou não, que sustenta que os fenômenos e todas as coisas devem ser formados a partir da ciência, da lógica e da razão e não devem ser influenciados por nenhuma tradição, autoridade ou qualquer dogma.

A adjetivação progressista, conceito presente na suma doutrinária espírita, não obsta ao que está constituído; pelo contrário, impulsiona as transformações necessárias ao progresso, através de análises da realidade e por constantes reavaliações, pois o ser não atinge de forma permanente a perfeição e a renovação, sendo constante e infinito o progresso do pensamento.

Kardec, em pleno século XIX, num contexto de grande efervescência cultural, de ideias de transformação da sociedade seguiu, por esse ideário, o conceito vanguardista de ideias sociais progressistas. Isto está explicito em sua abordagem ao ensino dos Espíritos, como podemos destacar em “A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo”, Capítulo XVIII, item 23:

“O Espiritismo não criou a renovação social, pois a maturidade da humanidade faz dessa renovação uma necessidade. Por seu poder moralizador, por suas tendências progressivas, pela elevação de seus propósitos, pela generalidade das questões que ele abraça, o Espiritismo está, mais que todas as outras doutrinas, apto a secundar o movimento regenerador. Por isso que é contemporâneo.”

Outra adjetivação, livre-pensador, está presente no corpo Doutrinário, pois livre-pensar é pensar com isenção, sem os condicionamentos impostos pelo que é tradicional ou por qualquer tipo de dogma. O livre-pensador o faz por seu próprio raciocínio, e, portanto, é ciente e consciente de suas limitações e sabe que o pensamento é progressivo. Não recusa a análise de uma ideia, mas não admite como verdadeiras as teses propostas e nem as ter como falsas, apenas por terem uma origem desconhecida.

Pela síntese de elementos díspares, originários de diferentes visões do mundo ou de doutrinas filosóficas distintas, pelos processos dialéticos possíveis, seria, cada conceito, um paradigma, mas o livre-pensador rompe, buscando alternativas possíveis que o levem a novos caminhos com horizontes cada vez mais amplos: é um progressista por excelência.

Para ilustração, citamos uma passagem da “Revue Spirite”, de fevereiro de 1867, no artigo “Livre pensamento e livre consciência”:

“Em sua concepção mais larga, o livre-pensamento significa livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada. Ele simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; ele não quer mais nem escravos do pensamento nem do corpo, porque o que caracteriza o livre-pensador é que ele pensa por si mesmo e não pelos outros; em outros termos, sua opinião lhe é própria. Assim, pode haver livres pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre pensamento eleva a dignidade do homem; dela faz um ser ativo e inteligente, em vez de uma máquina de crer.”

Como progressista e livre-pensador, sob pena de ser incoerente com seus princípios e com os postulados, o espírita, que não aceita nem assimila práticas contrárias, possui a compreensão e a respeitabilidade às diversas concepções intelectuais, religiosas ou filosóficas, como bem expôs Kardec ao longo de suas obras. Esta premissa é fortemente destacada no ensino dos Espíritos, pressupondo a convivência entre diferentes vertentes filosóficas, religiosas ou doutrinárias, ou, ainda, sociais e ideológicas.

Por isso, o “Espiritismo COM Kardec” não permite desvios interpretativos, mas fornece a segurança do caminho seguro para o futuro. Não se quer substituir um dogma por outro dogma, nem uma religião por outra religião. O que se busca e se incentiva é a libertação dos Espíritos e a emancipação das consciências e é sobre esta base que, os livres-pensadores se apoiam para fazer o progressismo que conduzirá a uma evolução moral e à Justiça Social.

O livre-pensamento e o progressismo, assim, representam a obra de justiça e emancipação preconizada por Kardec e pela Espiritualidade. A emancipação do indivíduo corresponde à emancipação da sociedade; essa à emancipação dos povos e, destes, à emancipação da humanidade. Nestes termos se concretizam e se resumem todas as aspirações, todos os aprendizados, todas as tendências evolutivas de nossa existência.

Imagem de Jill Wellington por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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