Sérgio Luís Boeira
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Ler Trump com Morin, desde o Sul, pode ser uma forma de escapar tanto da importação acrítica de “modelos” conservadores quanto da reprodução das nossas próprias simplificações. Não se trata de opor um “bem progressista” a um “mal reacionário” em abstrato, mas de perguntar: que tipo de pensamento estamos praticando, quando aceitamos decretos que reduzem vidas a binarismos? Que tipo de educação e de política conseguimos construir se assumirmos a complexidade, não como problema, mas como condição inescapável?
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No dia em que Donald Trump assinou a ordem executiva que reduz o gênero a uma “verdade biológica” de dois sexos, a política mundial ganhou algo parecido com um manifesto da simplificação. Num único gesto administrativo, o governo dos Estados Unidos decidiu que só existem homens e mulheres, definidos pelo sexo “natural” no nascimento, determinou que passaportes e registros oficiais reflitam esse binarismo e orientou as agências federais a varrer dos seus formulários, sites e políticas qualquer menção à chamada “ideologia de gênero”. Ao mesmo tempo, Trump prometeu acabar com a “engenharia social de raça e gênero” e encerrar programas de diversidade, em nome de um suposto retorno ao “reconhecimento humano regular” de masculino e feminino.
Poucos dias depois de Morin morrer aos 104 anos, deixando uma obra inteira dedicada a mostrar que o real é tecido de incertezas, interdependências e contradições, essa cena ganha um sentido simbólico ainda mais forte. De um lado, um presidente que governa decretando que o mundo deve caber em duas caixas estanques; de outro, um pensador que passou a vida inteira insistindo que mutilar o real é a maneira mais eficiente de não compreendê‑lo. Trump e Morin encarnam, de modos muito distintos, um conflito que atravessa nosso tempo: entre o desejo de simplificar o mundo à força e a necessidade de reconhecê‑lo como complexo.
A doutrina da “verdade biológica”
A ordem executiva de Trump tem um nome revelador: “Defendendo as mulheres do extremismo da ideologia de gênero”. O texto afirma restaurar a “realidade biológica do sexo” nos órgãos federais, define oficialmente “mulher” como “mulher humana adulta” e declara que o governo dos EUA reconhecerá apenas dois sexos, masculino e feminino. Na prática, isso significa apagar categorias não binárias de documentos, impedir que pessoas trans sejam reconhecidas de acordo com sua identidade de gênero e orientar a exclusão de pessoas trans de espaços de “sexo único”, como abrigos femininos e prisões.
Não se trata apenas de uma discussão semântica. Ao retirar de sites oficiais termos como “gay”, “lésbica”, “transgênero”, “bissexual” e “LGBTQIA+”, o governo transforma um conflito político em política de não‑nomeação: aquilo que o Estado não nomeia passa a existir menos, ter menos estatísticas, menos políticas, menos direitos. Em nome de “proteger mulheres e crianças” e de defender um suposto “bom senso biológico”, o que se constrói é um regime de invisibilidade e vulnerabilidade para pessoas trans e não binárias, que especialistas apontam como potencializador de discriminação, sofrimento psíquico e barreiras ao acesso a saúde, educação e trabalho.
Ao mesmo tempo, o trumpismo vende essa agenda como se fosse antítese da ideologia. É a velha estratégia: chamar de “ideologia de gênero” tudo aquilo que problematiza o binarismo e apresentar como simples “reconhecimento da natureza” uma operação política pesada de definição de quem conta como sujeito de direitos. E é justamente aí que a epistemologia da complexidade de Morin se torna interessante: porque ela desloca a pergunta “quem tem razão, a biologia ou a ideologia?” para outra: “o que estamos mutilando quando reduzimos gênero a cromossomos em um decreto?”.
Morin e a arte de não mutilar
Várias homenagens a Edgar Morin destacam um mesmo traço: ele foi um pensador obstinado em mostrar que a realidade não cabe em compartimentos estanques. Em seu trabalho sobre o pensamento complexo, ele critica a combinação de fragmentação disciplinar e reducionismo que faz com que, em nome da precisão, a ciência e a política percam de vista o tecido vivo das interações entre indivíduo, sociedade, espécie, natureza, história e cultura. Em vez de escolher entre biologia ou cultura, entre indivíduo ou sociedade, Morin propõe que enfrentemos a dificuldade de pensar “ao mesmo tempo” — de manter unidos termos que as lógicas simplificadoras colocam em guerra.
Se pensarmos com Morin, a política de gênero de Trump é um exemplo claro de pensamento mutilador. Ao invocar a biologia como árbitro supremo, ela faz duas coisas ao mesmo tempo: reduz a própria biologia a um binarismo rígido que muitos cientistas contestam, e exclui da cena todas as dimensões históricas, culturais, psíquicas e existenciais que constituem o viver de gênero. Em seus textos sobre educação, Morin insistia na necessidade de um conhecimento “pertinente”, isto é, capaz de situar informação em contexto e articular diferentes níveis da realidade. O decreto de Trump faz o contrário: toma um recorte estreito da biologia como se fosse a totalidade e reorganiza a vida social a partir dessa amputação.
Morin chamava de “cegueiras do conhecimento” justamente essas construções que transformam ignorância em certeza. No caso da doutrina Trump, temos uma cegueira ativa: um conjunto vasto de pesquisas sobre intersexualidade, transgeneridade, variação de sexo e gênero ao longo das culturas é simplesmente desconsiderado, ao mesmo tempo em que se usa a palavra “biologia” como selo de verdade definitiva. Mutila‑se o saber e, com isso, legitima‑se a mutilação de vidas.
Guerra à complexidade
O que está em jogo, porém, vai além da disputa sobre gênero. A doutrina Trump é um caso exemplar de guerra à complexidade em vários planos. Na política externa, há a retomada seletiva da Doutrina Monroe para justificar um reposicionamento agressivo dos EUA na América Latina, colocando imigração, drogas e presença de potências rivais no mesmo pacote de ameaças. No plano interno, há a demonização de políticas de diversidade racial e de gênero, tratadas como “engenharia social” e “ideologia woke”, e a promoção de um nacionalismo branco, cristão e ressentido.
Em todos esses casos, o procedimento é semelhante: reduzir problemas complexos a antagonismos simples, com identidades claras e soluções rápidas. A crise migratória vira “invasão”; a luta por reconhecimento trans vira “loucuras da ideologia de gênero”; conflitos raciais e coloniais se condensam em “vitimismo identitário”; a própria globalização é recortada como conspiração de elites cosmopolitas. Para um pensamento complexo, isso é duplamente perigoso: porque distorce o diagnóstico e porque produz políticas que, ao tentar eliminar a incerteza, apenas a deslocam e intensificam.
Morin, ao falar dos “sete saberes necessários à educação do futuro”, argumentava que precisamos aprender a lidar com as incertezas e ensinar a condição humana em sua multidimensionalidade, em vez de formar sujeitos para respostas automáticas e identidades rígidas. A doutrina de Trump é, em muitos aspectos, um programa pedagógico invertido: ela educa para o medo da diferença, para o ódio à ambivalência e para a recusa sistemática da complexidade.
Sete saberes frente à doutrina Trump
Se tomarmos, ainda que esquematicamente, os sete saberes de Morin como uma espécie de “contradoutrina” ao trumpismo, alguns contrastes ficam claros.
Primeiro, “as cegueiras do conhecimento”: Trump não apenas ignora a complexidade de gênero, raça, ecologia ou globalização, mas transforma essa ignorância em força política, brandindo a simplificação como virtude. Morin, ao contrário, nos convida a reconhecer nossas cegueiras e a colocá‑las em debate, abrindo o conhecimento à autocrítica.
Segundo, “o conhecimento pertinente”: ao decretar que gênero é apenas um dado biológico binário, o governo escolhe um conhecimento descontextualizado e o absolutiza; o pensamento complexo insiste que conhecimento sem contexto é conhecimento mutilado, incapaz de orientar decisões justas.
Terceiro, “a condição humana” e “a identidade terrena”: a doutrina Trump reinveste numa identidade nacional agressiva, marcada pela exclusão de migrantes, minorias raciais e sexuais e pela negação de interdependências planetárias. Morin, ao contrário, fala em comunidade de destino terrestre, em que as fronteiras nacionais não apagam a solidariedade de espécie diante de crises ecológicas, tecnológicas e civilizacionais comuns.
Quarto, “enfrentar as incertezas”: diante de um mundo incerto, Trump promete certezas fáceis – dois gêneros, um inimigo, uma pátria, uma verdade. Morin nos convida a educar para escolhas responsáveis em contextos incertos, reconhecendo que a incerteza não é falha, mas condição da ação humana.
Por fim, “a ética do gênero humano”: as políticas antitrans e antigênero não tratam apenas de categorias administrativas; elas dizem quem é considerado plenamente humano e quem pode ser sacrificado em nome da ordem. A ética moriniana, desenvolvida especialmente no último volume de La Méthode , aposta numa solidariedade que atravesse identidades, reconheça a vulnerabilidade compartilhada e recuse, justamente, essas hierarquias de humanidade.
Do Capitólio ao Brasil
Nada disso fica confinado a Washington. As ordens executivas de Trump alimentam, com linguagem e legitimidade, redes transnacionais que promovem cruzadas antigênero em diversos países, inclusive no Brasil e na América Latina. Expressões como “ideologia de gênero”, “defesa da família” e “verdade biológica” circulam entre púlpitos, parlamentos e tribunais, frequentemente recicladas em políticas educacionais que tentam expulsar gênero e sexualidade crítica da escola.
Ler Trump com Morin, desde o Sul, pode ser uma forma de escapar tanto da importação acrítica de “modelos” conservadores quanto da reprodução das nossas próprias simplificações. Não se trata de opor um “bem progressista” a um “mal reacionário” em abstrato, mas de perguntar: que tipo de pensamento estamos praticando, quando aceitamos decretos que reduzem vidas a binarismos? Que tipo de educação e de política conseguimos construir se assumirmos a complexidade, não como problema, mas como condição inescapável?
Morin costumava dizer que a tarefa do pensamento é religar o que foi separado. Talvez, em tempos de trumpismo globalizado, nossa tarefa política seja parecida: religar saberes, corpos, experiências, lutas, em vez de deixá‑los ser dissolvidos por decretos que prometem, em nome da ordem, uma simplificação que só aumenta a violência. Trump governa pela mutilação da complexidade; Morin nos lembra que só há saída pela ampliação dela.
Nota do Autor: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Copilot na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.
Nota do ECK: Artigo originalmente publicado em seu blog (https://www.websergioluisboeira.com/).




