Maria Cristina Rivé
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Se a maternidade é normatizada, a não-maternidade tende a ser problematizada. Mulheres que não têm filhos, seja por escolha ou circunstância normalmente enfrentam questionamentos que buscam explicar ou corrigir sua condição.
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Resumo
Este ensaio analisa a maternidade e a não-maternidade como construções sociais atravessadas por normas de gênero que organizam expectativas, produzem sentidos e delimitam formas legítimas de existência feminina. A partir de uma abordagem interdisciplinar — que articula contribuições da psicanálise, da sociologia e da filosofia — discute-se a ambivalência materna e o estigma associado à recusa ou ausência da maternidade. Argumenta-se que tanto a experiência de maternar quanto a decisão de não ter filhos são tensionadas por ideais normativos que dificultam a expressão da complexidade subjetiva. Defende-se, por fim, a necessidade de reconhecer a pluralidade das trajetórias femininas e de legitimar o direito à ambivalência.
Palavras-chave: maternidade; não-maternidade; ambivalência; gênero; subjetividade.
Às vezes, nas conversas cotidianas, naquelas em que não se tem vontade de abrir a boca e se quer fechar os ouvidos, lembro de minha mãe, quando falava das mulheres: “a mulher sempre tem um dono”, “casar prá quê?”, “grávida?, bahhhh”. Todas elas em relação à maternidade, demonstrando nenhuma felicidade, mesmo que se tenha tido um ótimo marido e amado (todos ou alguns de) seus filhos.
Por isso, sempre me indaguei acerca da maternidade, sobre casamento, e a respeito da função social (pré)definida para as mulheres. Ao ouvir, sempre, a pergunta “tens filhos?”, ontem, como hoje, sinto, imediatamente, o comando da classificação social. Mais do que informar sobre uma condição biográfica, ela localiza a mulher em um campo simbólico estruturado por expectativas normativas. Nesse sentido, a maternidade não se configura apenas como uma experiência individual, mas como um elemento central na produção de inteligibilidade do feminino.
A maternidade se tornou, então, não uma experiência, mas uma Instituição. Sendo que essa foi delegada às mulheres e, como tal, sendo enquadra no conjunto de normas que regulam, orientam e, frequentemente, limitam os seres (femininos).
A associação entre feminino e maternidade é, portanto, historicamente produzida. Como argumenta Simone de Beauvoir (1949), a mulher foi construída como o “outro” em relação ao homem, sendo frequentemente definida por sua função reprodutiva e pelo papel de cuidado. No contexto brasileiro e, creio, também, no mundial, isto evidencia como a divisão sexual do trabalho estrutura essa associação, atribuindo às mulheres a responsabilidade pelo espaço doméstico e pela reprodução social.
Na contemporaneidade, esse modelo é reconfigurado sob a forma da chamada “maternidade intensiva”, caracterizada por elevados níveis de exigência emocional, disponibilidade constante e investimento integral na criação dos filhos. Tal ideal, embora socialmente valorizado, produz efeitos significativos sobre a subjetividade materna.
A ambivalência materna pode ser compreendida como a coexistência de afetos contraditórios em relação à experiência de maternar. Longe de indicar ausência de amor, ela expressa a complexidade inerente a uma função marcada por exigências contínuas e transformações profundas na identidade.
Apesar de sua recorrência, essa ambivalência tende a ser silenciada. Assim demonstram os costumeiros discursos sobre arrependimento ou insatisfação materna, mas que são, frequentemente, marginalizados, em razão do ideal cultural que associa maternidade à realização plena. Portanto, o sofrimento psíquico pode emergir da tensão entre o vivido e os ideais internalizados. Nesse contexto, a mãe não sofre apenas pelas demandas concretas da maternidade, mas pela impossibilidade de corresponder ao modelo idealizado.
Se a maternidade é normatizada, a não-maternidade tende a ser problematizada. Mulheres que não têm filhos, seja por escolha ou circunstância normalmente enfrentam questionamentos que buscam explicar ou corrigir sua condição.
Mirian Goldenberg, antropóloga brasileira, sustenta que a maternidade ainda é percebida como um marco central na trajetória feminina, sendo, a sua ausência, interpretada, muitas vezes, como desvio ou incompletude.
Esse processo evidencia a força de normas sociais que vinculam o valor da mulher à sua capacidade de maternar. A não-maternidade, nesse sentido, não representa apenas uma condição, mas uma posição que tensiona tais normas. Tanto a maternidade quanto a não-maternidade implicam processos de elaboração subjetiva.
Tornar-se mãe envolve transformações identitárias significativas, frequentemente acompanhadas por perdas simbólicas, de autonomia, de tempo, de projetos pessoais, ou simplesmente o não-querer, visto ser importante reconhecer os lutos implicados na maternidade, frequentemente invisibilizados no discurso social.
Por outro lado, a não-maternidade pode implicar a necessidade de sustentar uma identidade que não encontra reconhecimento pleno no imaginário coletivo. Trata-se, em ambos os casos, de processos que exigem elaboração, sem garantia de resolução definitiva.
A análise (ou a sua tentativa) desenvolvida neste artigo permite afirmar que a maternidade e a não-maternidade não devem ser compreendidas em termos de oposição simples, mas como experiências atravessadas por normas sociais que limitam a expressão da complexidade subjetiva.
Reconhecer a ambivalência materna e legitimar a não-maternidade implica questionar os modelos normativos que reduzem a experiência feminina a trajetórias únicas e prescritas. Mais do que oferecer respostas, este trabalho propõe a abertura de um campo de reflexão em que diferentes formas de existência possam ser reconhecidas em sua legitimidade.
A possibilidade de sustentar a dúvida, o conflito e a ambivalência talvez constitua, nesse contexto, um dos gestos mais relevantes para a afirmação da autonomia feminina.
Dessa forma, todos os anos, é possível dizer no segundo domingo de cada mês de maio anual: — Feliz Dia das Mães ou Feliz Dia!
Imagem ImagineThatStudio, por PixaBay




