Sandra Fiore
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Talvez Nietzsche tenha percebido um problema real, embora sua solução fosse diferente daquela apresentada pelo Espiritismo.
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Antes de tudo, é importante compreender o significado da palavra filosofia. De origem grega, ela significa “amor à sabedoria”. Filosofar é refletir sobre as questões fundamentais da existência humana, pois quem filosofa sente a necessidade de compreender, perguntar, investigar e buscar um sentido mais profundo para viver.
Entretanto, filosofar não é um privilégio reservado aos grandes pensadores ou às universidades. Todos nós, em algum momento da vida, fazemos filosofia. Quando uma mãe se pergunta como educar um filho em um mundo tão complexo; quando alguém perde um ente querido e questiona se a morte representa realmente o fim; quando um jovem procura descobrir qual caminho dará sentido à sua existência; quando um trabalhador honesto se pergunta por que tantos desonestos parecem prosperar, todos estão filosofando. São perguntas que ultrapassam o imediato e revelam a inquietação natural do Espírito humano diante do mistério da vida.
Ao longo da história, grandes pensadores dedicaram-se a esse esforço de compreender a existência. Questionaram valores, confrontaram crenças, desafiaram tradições e procuraram construir respostas capazes de orientar a vida humana. Afinal, muitas vezes é a pergunta correta que nos aproxima da resposta transformadora. Não por acaso, Sócrates afirmava que “uma vida sem exame não merece ser vivida”.
Séculos mais tarde, Allan Kardec adotaria exatamente essa postura filosófica. Em vez de aceitar respostas prontas, perguntou, investigou, comparou milhares de comunicações mediúnicas e submeteu tudo ao crivo da razão. O Espiritismo nasce, assim, de uma atitude profundamente filosófica: perguntar antes de acreditar, compreender antes de aceitar.
Contudo, compreender os filósofos nem sempre é tarefa simples. Muitos deles voltaram sua atenção apenas para o mundo material, construindo sistemas de pensamento que se limitavam ao aqui e agora e ignoravam a dimensão espiritual da existência. Para nós, que seguimos a Doutrina Espírita — estruturada sobre os pilares da ciência, da filosofia e da moral —, a realidade é muito mais ampla. O ser humano não é apenas um organismo biológico destinado ao desaparecimento. É um Espírito imortal, viajante do infinito, que utiliza temporariamente o corpo físico como instrumento de aprendizado e progresso. Sob essa perspectiva, os problemas deixam de ser castigos e passam a representar oportunidades educativas; as dores deixam de ser absurdos da existência para se tornarem consequências naturais de nossas escolhas, tanto do presente quanto de experiências anteriores, convidando-nos à renovação moral e ao crescimento espiritual.
Entre os filósofos mais influentes da modernidade destaca-se Jean-Paul Sartre, um dos principais representantes do existencialismo ateu. Para ele, a vida começava no berço e terminava no túmulo. Sem uma existência anterior e sem continuidade após a morte, caberia ao próprio homem construir sozinho o significado de sua vida. Sua companheira, Simone de Beauvoir, expressou de forma profundamente comovente essa visão ao concluir seu livro “La Force des Choses”:
“Detesto pensar no meu aniquilamento. Penso com melancolia nos livros lidos, nos lugares visitados, no saber acumulado e que não mais existirá. Toda a música, toda a pintura, tantos lugares percorridos — e de repente mais nada!”.
Essa reflexão traduz a angústia de quem acredita que a morte apaga definitivamente tudo aquilo que fomos e construímos. Se tudo termina no túmulo, qual seria, afinal, o sentido último do sacrifício de uma mãe pelos filhos? Por que perdoar alguém que jamais reconhecerá seu erro? Qual o valor da honestidade quando ninguém está olhando? Se a existência termina no nada, muitas das mais nobres atitudes humanas parecem perder seu fundamento mais profundo. É o peso do niilismo, que transforma até mesmo as mais belas experiências da vida em lembranças destinadas ao esquecimento absoluto.
Mas que bênção é termos acesso à Doutrina Espírita, que nos oferece uma visão infinitamente mais consoladora e, ao mesmo tempo, mais racional. A morte não representa um fim, mas apenas uma mudança de estado. A vida continua no plano espiritual, e a reencarnação nos proporciona novas oportunidades de aprender, reparar nossos equívocos e prosseguir nosso progresso. Aquilo que, para o existencialismo materialista, parece ser o encerramento definitivo da existência é, para o Espiritismo, apenas o início de uma nova etapa da grande jornada do espírito imortal.
Outro nome incontornável da filosofia moderna é Friedrich Nietzsche. Nascido em 1844, na antiga Prússia, brilhante, provocador e profundamente crítico de sua época, ele denunciou aquilo que considerava a decadência dos valores ocidentais. Sua célebre frase — “Deus está morto” — talvez seja uma das mais mal compreendidas da história da filosofia. Nietzsche não pretendia demonstrar filosoficamente que Deus não existia. Sua denúncia era muito mais profunda. Ele observava uma sociedade que continuava falando em Deus, mas vivia como se Ele não existisse. Via templos cheios, mas consciências vazias; discursos religiosos, mas comportamentos profundamente egoístas; práticas de culto, sem verdadeira transformação moral.
Segundo Nietzsche, o desaparecimento dos valores religiosos tradicionais deixava o homem mergulhado no niilismo, isto é, na sensação de que nada possuía sentido definitivo. Sua resposta foi propor o “Übermensch”, o além-do-homem, aquele que seria capaz de criar novos valores por si mesmo e afirmar a vida sem depender da religião.
Diante dessa análise, nós, espíritas, podemos fazer uma reflexão muito interessante. Talvez Nietzsche tenha percebido um problema real, embora sua solução fosse diferente daquela apresentada pelo Espiritismo. Afinal, quantas vezes dizemos acreditar em Deus, mas vivemos como se Ele estivesse ausente de nossas escolhas? Falamos em fraternidade e alimentamos o ódio nas redes sociais. Defendemos a paz, mas cultivamos a agressividade dentro de casa. Ensinamos honestidade aos filhos, mas buscamos pequenos privilégios quando acreditamos que ninguém está olhando. Frequentamos templos religiosos e, ao mesmo tempo, permanecemos indiferentes à dor daqueles que sofrem ao nosso lado.
Nesse sentido, podemos dizer simbolicamente que estamos “matando Deus” dentro de nós, não porque Deus possa morrer — pois Ele é eterno, infinito, soberanamente justo e bom —, mas porque sufocamos Sua presença em nossa consciência.
Matamos Deus quando destruímos a natureza por interesses imediatos; quando banalizamos a vida humana; quando aceitamos a corrupção como algo normal; quando humilhamos alguém por ocupar uma posição social inferior; quando espalhamos notícias falsas capazes de destruir reputações; quando fechamos os olhos diante da fome, da violência e da exclusão; quando permanecemos indiferentes às crianças abandonadas, aos idosos esquecidos, às vítimas do preconceito ou aos que sofrem em silêncio. Cada vez que escolhemos o egoísmo em lugar da solidariedade, a violência em vez do diálogo ou a vingança em lugar do perdão, obscurecemos em nós a presença da Lei Divina.
A grande pergunta, então, não é se Deus morreu, mas se ainda existe espaço para Deus dentro de nossa consciência.
É exatamente aqui que Allan Kardec oferece uma das mais belas contribuições filosóficas da história. Logo na primeira pergunta de “O Livro dos Espíritos”, ele demonstra extraordinária profundidade ao perguntar: “Que é Deus?”.
Essa escolha não foi casual. Kardec não perguntou “Quem é Deus?”, pois isso nos levaria naturalmente a imaginar uma pessoa semelhante a nós, apenas infinitamente mais poderosa. Ao perguntar “Que é Deus?”, ele rompe com o antropomorfismo e desloca a reflexão para a essência do divino.
Ao longo da história, a humanidade precisou representar Deus como um Pai, um Rei ou um Juiz porque ainda não possuía recursos intelectuais para compreender uma realidade infinita. Era uma etapa necessária da educação espiritual da humanidade. Kardec, porém, inaugura uma compreensão muito mais elevada. Deus deixa de ser concebido como uma figura humana engrandecida e passa a ser entendido como o Princípio Supremo que sustenta toda a criação.
A resposta dos Espíritos superiores sintetiza essa revolução filosófica em poucas palavras:
“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”.
Essa definição dialoga com a razão, com a ciência e com a espiritualidade. Ela liberta a ideia de Deus das limitações humanas e nos convida a compreender o Universo como expressão de uma Inteligência perfeita, cujas leis se manifestam na harmonia da criação e no progresso incessante dos Espíritos.
É essa a grande tarefa do nosso tempo: renascer espiritualmente. Precisamos reconstruir nossa existência sobre bases mais sólidas, cultivando uma fé raciocinada que não tema a ciência nem permaneça aprisionada aos dogmas. Jesus prometeu o Consolador exatamente para isso: para que a humanidade não se perdesse na escuridão do materialismo e do niilismo, mas encontrasse, na imortalidade da alma, na reencarnação e na lei de causa e efeito, o verdadeiro sentido da existência.
O Espiritismo nos ensina que nada acontece por acaso. Toda dor possui uma causa justa, ainda que muitas vezes desconhecida por nós; toda conquista é fruto do esforço; toda dificuldade pode transformar-se em oportunidade de crescimento. Assim como o agricultor colhe aquilo que semeia, o estudante recebe os frutos do próprio esforço e o profissional honesto conquista confiança ao longo dos anos, também nós colhemos, na vida espiritual, as consequências de nossos pensamentos, sentimentos e ações. Deus não distribui privilégios nem castigos arbitrários; oferece a todos, indistintamente, oportunidades permanentes de aprendizado e progresso.
Nesse horizonte, a vida deixa de ser um breve intervalo entre o nada e o nada para transformar-se em uma magnífica jornada de aperfeiçoamento espiritual. Cada experiência, alegre ou dolorosa, converte-se em um degrau na construção da própria felicidade. O ser humano já não é um viajante perdido em um universo indiferente, mas um Espírito imortal chamado a desenvolver a inteligência, o amor e a fraternidade como fundamentos de uma nova humanidade.
Talvez, no fundo, a maior pergunta não seja simplesmente se Deus existe, mas se permitimos que Sua Lei de Amor governe nossas escolhas. Deus continua vivo, sustentando o Universo com infinita sabedoria. A questão é saber se O deixamos viver dentro de nós. Cada gesto de bondade amplia essa presença; cada ato de egoísmo a obscurece. A regeneração do mundo não começará por grandes acontecimentos históricos, mas pela transformação silenciosa de cada consciência. E, quando compreendermos que amar é a mais elevada expressão da inteligência espiritual, perceberemos que Deus nunca esteve morto. Ele sempre esteve presente, esperando pacientemente que despertássemos para a Sua lei de amor e fraternidade.
Fontes:
Beauvoir, S. (2021). “A força das coisas”. 5. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
Nietzsche, F. (2018). “Assim falou Zaratustra”. São Paulo: Companhia de Bolso.
Nota do ECK: Artigo originalmente publicado no Blog da autora.
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