André Marouço
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O narcisismo exacerbado funciona como uma armadura frágil: ele nos convence de que o nosso valor está condicionado à vitória ininterrupta e ao nosso domínio sobre os demais.
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A cena que encerrou a final da Copa do Mundo de 2026 carrega uma simbologia que transborda os limites do esporte. Enquanto a seleção espanhola erguia a taça de campeã, a equipe argentina — detentora do título anterior e repleta de atletas que já atingiram o ápice da fama e da fortuna — permaneceu de costas para o pódio. Entre eles, Lionel Messi. A imagem repercutiu como um desrespeito para alguns, mas, para outros, os atletas não estavam de costas para os campeões e, sim, de frente para a torcida que lhes acompanhou. Todavia, para o (nosso) olhar clínico e filosófico, o gesto revela algo muito mais profundo: a incapacidade de integrar a “derrota” e a ilusão sufocante do topo.
Messi, por exemplo, já ganhou absolutamente tudo o que um jogador de futebol poderia ambicionar. Entre os ganhos, uma fortuna inimaginável. Ele, algumas vezes, foi eleito com o maior troféu de jogador individual que a entidade máxima do futebol entrega aos seus atletas. E, se tudo der muito errado, na vida profissional dele, adiante o que lhe aguarda são contratos publicitários que vão somar outros tantos milhões. Ainda assim, suas lágrimas e a frustração estampada ao término do jogo expõem a engrenagem oculta da lógica neoliberal e do narcisismo contemporâneo: a promessa de que a conquista traz a plenitude e só é possível ser pleno se no topo for possível permanecer.
Na perspectiva psicoterapêutica, o narcisismo exacerbado funciona como uma armadura frágil. Ele nos convence de que o nosso valor está condicionado à vitória ininterrupta e ao nosso domínio sobre os demais. É a dinâmica do “quanto mais se ganha, mais se deseja ganhar”. O topo não é um lugar de descanso; torna-se uma jaula de ansiedade onde a menor ameaça de perda é vivenciada como uma aniquilação do próprio Eu. Me lembro muito bem, das perversas palavras de um gigante do automobilismo, o Senhor Nelson Piquet que eternizou a frase: “O segundo lugar é o primeiro entre os perdedores”. Grande esportista, mas, infelizmente, muitas vezes, pequeno nas palavras.
Sob a ótica do Espiritismo laico — centrado no progresso intelecto-moral, na solidariedade e no entendimento do desapego —, esse comportamento reflete a ignorância de nossa verdadeira natureza. Apegamo-nos aos papéis de “vencedores” temporários como se fossem a nossa essência. Esquecemos que a vida material é transitória e que o verdadeiro progresso exige a capacidade de reconhecer o mérito e a existência do outro.
Virar as costas para a celebração alheia não foi apenas dar as costas à Espanha. Foi dar as costas à própria realidade da derrota e à dor de ter que ceder o lugar.
Essa mesma cena se repete diariamente na estrutura socioeconômica em que vivemos. A lógica capitalista e meritocrática prega que apenas um número reduzido de indivíduos pode chegar ao “topo” — e estimula, quem lá chega, a agir com voracidade. Há um paralelo direto com a injustiça social: os hiper-ricos e as elites econômicas, por mais acúmulo econômico-financeiro que obtenham, recusam-se a “dividir o bolo”. A ideia de abrir mão de privilégios para que surjam mais vencedores é encarada, não como um ato de justiça ou fraternidade, mas como uma perda insuportável. Preferem virar as costas para a miséria e para a injustiça e a desigualdade social a aceitar a distribuição do espaço.
Quantas vezes não fazemos exatamente a mesma coisa em nossas trajetórias individuais?
Em nossas vidas afetivas, profissionais e sociais, quantas vezes nos agarramos a posições, status, opiniões ou dinâmicas de controle apenas por puro orgulho? Agimos como crianças mimadas, as que preferem quebrar o brinquedo a compartilhá-lo. Empenhamos, assim, forças inimagináveis nessa manutenção contínua da imagem do “vencedor” — uma energia vital imensa que nos é roubada apenas para sustentar uma ilusão de superioridade.
Lutar desesperadamente para não perder o topo nos adoece. Furta-nos de nós mesmos a capacidade de viver em paz, de celebrar a diversidade da vida, de praticar a alteridade e de viver no agora, pois, no topo, do que quer que seja a nossa realidade, nosso inconsciente afirma: “um dia você vai ter que descer”.
Ceder o lugar não significa fracassar; significa compreender o fluxo contínuo da vida. O gesto do jovem Lamine Yamal ao procurar Lionel Messi — que, jogado ao chão do gramado, provavelmente se sentia um perdedor — talvez tenha sido o único vislumbre de maturidade e fraternidade em meio à tempestade de egos.
Curar essa neurose coletiva exige a coragem de olhar de frente para as nossas limitações, soltar o peso da necessidade de ser “o maior” e entender que a verdadeira vitória não está em ser o único no topo, mas em caminhar de mãos dadas com a humanidade. Enquanto a cultura contemporânea incitar os vencedores a virarem as costas para os que perdem, estes mesmos se agarrarão ao sofrimento do pódio, olvidando que, quer queiram quer não, um dia, a velhice, a doença ou a morte os fará descer do alto das tamancas. E isso, posso dizer, só se dá graças às sábias — e laicas — Leis Divinas.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay





Sem dúvida André Marouço tocou no ponto essencial da actualidade nesta nossa sociedade do sec.XXI. Sempre existiram esses indivíduos que almejaram sempre mais lucro e posição superior aos demais, não se importando com os pobres e oprimidos, hoje é uma condição que parece ter aumentado exponencialmente. Realmente só as Leis Universais nos podem ajudar a superar esse flagelo, que parece aumentar a cada dia, não deixando a Humanidade progredir.