O maior revolucionário de todos os tempos, por Reza Aslan

Tempo de leitura: 4 minutos

Reza Aslan

Os Evangelhos não são história, não são fato. São argumentos teológicos.

Jesus foi o maior revolucionário de todos os tempos. As pessoas têm dificuldade de compreender isso porque veem o Cristo da religião com o olhar do nosso tempo. No tempo de Jesus, não havia separação entre política e religião. Ambas eram a mesma coisa. É incorreto dizer que Jesus era só um líder espiritual ou só um líder político. Ele era os dois. Toda e qualquer palavra proferida por Jesus tinha implicações políticas, por mais espirituais que fossem. É fundamental tirar as camadas de teologia, misologia, lenda e doutrina que se sobrepuseram ao Jesus histórico, para compreender o mundo em que Jesus viveu. Importante, assim, estabelecer as diferenças entre Jesus de Nazaré e o Cristo da fé, criado pelos Evangelhos e pela Igreja.

O Jesus da história era um judeu pregando o judaísmo para outros judeus. O Cristo da fé, aquele que lemos nos Evangelhos e na teologia cristã, é alguém divorciado do judaísmo, alguém pregando uma nova fé, uma nova religião. Jesus proclamava-se o messias, mas, quando dizia isso, se referia ao messias do judaísmo. Se Jesus de fato pensasse ser o Deus encarnado, teria sido o primeiro judeu da história a pensar assim. Porque o conceito de um homem divino viola 5 mil anos de história, tradição e religião judaicas. Isso quer dizer que é impossível que Jesus se considerasse um Deus encarnado? Não. Só não é plausível. Sobram duas opções: Jesus nunca disse isso e era como todas as outras centenas de messias de seu tempo. Ou então Jesus acreditava nisso e era absolutamente único, diferente de todos os judeus que vieram antes ou depois dele. Como historiador, acredito que Jesus era como todos os outros messias de seu tempo e nunca disse ser o Deus encarnado do Novo Testamento.

Jesus possui ensinamentos únicos e extraordinários. Jesus teve uma visão de uma nova ordem mundial, em que ricos e pobres trocariam de lugar. Os primeiros se tornariam os últimos, e os últimos se tornariam os primeiros. O apelo dessa mensagem depois da morte de Jesus se perpetuou menos pelo que Jesus disse ou fez e mais pelo que seus discípulos escreveram e disseram sobre ele.

A mensagem de Jesus, assim, foi reinventada por seus intérpretes e pela Igreja. Os seguidores de Jesus, os homens que escreveram os Evangelhos anos ou décadas depois de sua morte, tentaram esconder ou amenizar o aspecto político da vida de Jesus. Primeiro, porque Jesus falhou em sua missão.

O que sabemos de fato sobre Jesus? Que ele era judeu, que começou um movimento judaico no século I e, como resultado desse movimento, foi condenado à morte na cruz por crimes contra o Estado (Roma). As ambições políticas de Jesus falharam. A definição de messias, no tempo de Jesus, era um descendente do rei Davi, que restabeleceria o Reino de Davi na Terra. Se você diz ser um messias e morre sem restabelecer o Reino de Davi, você não é um messias. Todos os outros messias, e foram centenas, prometeram restabelecer o reino de Davi. Foram tão bem-sucedidos quanto Jesus. Nenhum cumpriu a promessa, e todos foram chamados de falsos messias. A diferença é que os seguidores de Jesus tentaram dar sentido a sua falha, mudaram o significado de messias, o deixaram menos judeu, mais espiritual. Quando fizeram isso, o tornaram mais atraente para os não judeus.

Jesus foi condenado à crucificação por crimes contra o Estado. Roma reservava a crucificação a crimes contra o Estado. Como convencer Roma a aceitar um movimento de um homem que pretendia tirar Roma do poder? Basta dizer que o reino prometido por Jesus não era o terreno, mas sim o divino, que Jesus não tinha ambições políticas, não ameaçava o Império Romano. Assim, você diz que é possível ser cristão sem ser uma ameaça ao Estado. Todas essas mensagens foram incorporadas ao cristianismo e ajudaram em sua expansão. Décadas depois da morte de Jesus, os seguidores não judeus de Cristo superaram os seguidores judeus. Cem anos depois, não havia quase ligação alguma entre cristianismo e judaísmo. E, pelos últimos 2 mil anos, o cristianismo tem sido uma religião que confortavelmente se casa com o Estado. Como faz isso? Proclamando que não tem interesse em governar este mundo, não se apega às coisas terrenas.

Os leigos olham para os Evangelhos e acham que tudo o que está escrito em Mateus, Marcos, Lucas e João é igualmente válido. Isso é absurdo. Há 200 anos definiu-se uma metodologia de estudo para saber o que é confiável do ponto de vista histórico nos Evangelhos. Para o leigo, parece que escolho apenas o que me interessa. Mas fui metódico. Não usei os Evangelhos de João como fonte de pesquisa, porque eles são tardios, escritos quase um século depois da morte de Jesus. Usei apenas o Evangelho de Marcos, visto universalmente como o mais preciso historicamente. Os Evangelhos não são história, não são fato. São argumentos teológicos. Minhas fontes foram os documentos históricos sobre o tempo em que Jesus viveu e partes comprováveis dos Evangelhos. Rejeito as histórias da natividade, a fuga da família de Jesus para o Egito e outros acontecimentos imprecisos. Tais histórias são lendas e mitos.

Nota do ECK:
Adaptação de entrevista concedida ao autor ao repórter Rodrigo Turrer, da Revista “Época”. Aslan escreveu “Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré”, publicado, no Brasil, pela Zahar.

Textos da edição

EDITORIAL: Jesus, entre o homem e o mito

Separar Jesus do Cristo!, por Marcelo Henrique

Jesus a porta, Kardec a chave?, por Natália Canizza Torres

Jesus e as verdades espirituais, por Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Jesus e o Espiritismo pós-cristão, por Milton Medran Moreira

Jesus, um exemplo moral que permanece até hoje, por Paulo Roberto Santos (in memoriam)

O maior revolucionário de todos os tempos, por Reza Aslan

Jesus numa moto, por Manoel Fernandes Neto

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