EDITORIAL: Jesus, entre o homem e o mito

Tempo de leitura: 5 minutos

Leopoldina Xavier e Nelson Santos
Jesus, entre o homem e o mito

Jesus de Nazaré, como Sócrates, não deixou escritos os seus ideais e ensinos, tendo sido, estes, transcritos por vários de seus discípulos ao longo dos primeiros séculos de nossa era. Exemplificativamente, tem-se os Evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João – os três primeiros considerados sinóticos (por apresentarem, entre si, uma grande quantidade de histórias em comum e na mesma sequência, ou por, algumas vezes, utilizarem exatamente a mesma estrutura de palavras) – e as cartas de Paulo de Tarso. Todavia, é preciso observar, também, o que consta dos chamados Evangelhos apócrifos bem como o conteúdo da Biblioteca de Nag Hammadi, que podem lançar luzes ao conhecimento deste grande educador, o homem de Nazaré, além das diversas citações históricas nas obras de Públio Cornélio Tácito, Flávio Josefo, Plínio e outros.

Enquanto Tácito, Josefo e Plínio traçam pequenos comentários históricos sobre o homem Jesus, os Evangelhos canônicos traçam um mito, um arquétipo, que mistifica seus ensinamentos e, até mesmo, demonstra a influência dominadora da Igreja Católica Apostólica Romana, dogmatizando o personagem. Por sua vez, os apócrifos fornecem-nos uma visão complementar, embora ainda mística. São, então, os papiros de Nag Hammadi, destacando-se o Evangelho de Tomé, é nos propiciada uma visão acerca do homem Jesus, enaltecendo elementos como o livre-arbítrio, o livre-pensamento, a condição de ser senhor de seus atos e a obtenção da salvação (entendida como transformação e progresso), a qual dá-se na Terra.

No século XIX, a Doutrina Espírita trouxe-nos, por intermédio do ensino dos Espíritos Superiores aliada à lucidez do pensamento kardeciano, valendo-se dos critérios analítico, científico e filosófico que, ao tratar dos mitos e da mística, permitiram uma melhor compreensão do rabi como homem e ser no mundo, desmistificando e humanizando-o. No entanto, mesmo retirando a aura de ser sobrenatural ou divino, ainda se percebem, na vasta obra de Kardec, os contornos da cristologia. Denota-se, ainda, que a Teoria Espírita sobre Jesus não evoluiu como a ciência, evidenciada por descobertas arqueológicas, e por sua vez não acompanha as descobertas arqueológicas e o estudo da história, delas decorrentes, permanecendo estática, diferentemente do que preconizou Kardec, permanecendo contaminada, ao longo das décadas dos dois últimos séculos, pelas interpretações dogmáticas.

Temos, portanto, nessa edição como enfoque, o principal questionamento se, de fato, há um “Jesus Espírita”, calcado na forma de como interpretar e compreender os ensinos do homem que nos serve de modelo. Poderemos, portanto, descerrar o véu místico e mítico que envolve Jesus?

Marcelo Henrique, em Separar Jesus do Cristo!, convida-nos a exercitar o bom senso e a lógica, separando Jesus – o homem – do mito Jesus – o Cristo –, ponderando sobre a mística da cristandade iniciada por Paulo e alicerçada pelas autoridades religiosas ao longo da história que agregaram predicados divinos, através um projeto de dominação e hegemonia solidificado no Credo Niceno no ano de 325 e os ensinos morais daquele educador que, por sua evolução, revolucionou a compreensão dos textos do Tanakh. Escudado na pedra angular da Doutrina, “O livro dos Espíritos”, Marcelo tece, por parâmetros comparativos, a contaminação, as inconsistências, os erros interpretativos e sobretudo as superstições; equipara as ideias espiritas às cristãs, expondo, didaticamente, as divergências, e, nesse diapasão avança, inclusive, nos equívocos que, muitos espíritas, cometem na interpretação da vida e obra de Jesus de Nazaré.

Os aspectos históricos e sociológicos do Espiritismo no Brasil que culminaram na cultuação do evangelho em oposição aos postulados Espíritas e ao pensamento Kardeciano, são abordados por Natália Canizza Torres em sua dissertação Jesus a porta, Kardec a chave?, que abrange os fatos que favoreceram o entendimento igrejeiro e dogmático do Espiritismo, transformando-o em uma espécie de subseita cristã.

A descoberta arqueológica da Biblioteca de Nag Hammadi é o ponto de partida do artigo Jesus e as verdades espirituais, de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, onde tece comparativos entre os fragmentos do nomeado Evangelho de Tomé com os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), onde, apesar de alguma similitude, o primeiro enaltece o homem, seu pensamento, seu arbítrio como determinante para a evolução, independente de uma força superior ou divina, apresentado Jesus não como o cultuado mashiach ou kristós, mas sim como o homem que trouxe ao povo a compreensão sobre a vida, sua transformação e evolução.

Alan Kardec estruturou a doutrina espírita em bases cristãs com a predominância da ciência-filosofia-moral e na observância da sua época. A partir dessa premissa, Milton Medran Moreira, em Jesus e o Espiritismo pós-cristão, analisa a identidade cristã a partir do século 16 até o presente. Ressalta os períodos de intolerância do cristianismo, os dogmas cristãos como a Santíssima Trindade, pecado original, a moral cristã de fazer o bem, chegando a idade moderna cujo compromisso é a aproximação pela fé. Avalia os novos conceitos sociais como a liberdade sexual, a dissolubilidade do matrimônio, a pesquisa científica das células-troncos e outros, que corre em direção oposta aos princípios primários cristãos. Dessa forma, o Espiritismo nasce com vários princípios morais cristãos, mas que pela sua cultura universal e de evolução individual deve acompanhar as transformações sociais e criar novos paradigmas no raciocínio lógico e do livre pensar.

Paulo Roberto Santos, em seu artigo Jesus, um exemplo moral que permanece até hoje, aborda o papel das religiões na transformação social-moral que se encontra bastante conturbada. Em relação ao espiritismo cuida do evangelho “piegas” que foge a doutrina kardecista como a questão do “carma coletivo” para responsabilizar a espiritualidade pelas mazelas sociais, o que faz com que os espíritas lavem às mãos para sua atuação perante as transformações sociais, quando deveria de forma consciente agir com influência na mesma toada que Jesus de Nazaré, posto que foi condenado não pela sua pregação religiosa, porém por “causa de seus ensinamentos explosivos” que, com sua dedicação de olhar e compreender a cada um como um ser especial, amava-o para transformá-lo.

Reza Aslan, em O maior revolucionário de todos os tempos, sustenta que Jesus como judeu pregava o judaísmo com a visão de uma nova ordem mundial como a troca de posição entre ricos e pobres, onde o pobre seria o primeiro, invertendo a ordem social, a liberdade do povo de se auto governar, o que levou por seu comportamento a ser condenado por crime contra o Estado (Roma). O cristianismo através do evangelho transforma Jesus em pregador do divino e sem qualquer consideração com o mundo terreno, a forma teológica encontrada para tornar o cristão não ameaça ao Estado, ao cristão cabe tão somente idealização do celestial.

Em Jesus numa moto, Manoel Fernandes Neto, num texto leve e espirituoso, toma o título e a alma da canção de Rodrix, Sá e Guarabira para demonstrar que é possível quebrar paradigmas no aspecto individual e coletivo, de buscar a liberdade de escolher o destino de si e da sociedade, de aprender, de dialogar, de participar, de agir, de amar o presente sem ressentimento do passado e olhar para o futuro com as desamarras dos preconceitos, nessa esteia Jesus numa moto é o desafio de desapegar das convenções e se soltar para experiências de plena realização.

Convidamos o leitor amigo para se debruçar sobre cada um dos textos, degustando-os, sem pressa!

Textos da edição

Separar Jesus do Cristo!, por Marcelo Henrique

Jesus a porta, Kardec a chave?, por Natália Canizza Torres

Jesus e as verdades espirituais, por Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Jesus e o Espiritismo pós-cristão, por Milton Medran Moreira

Jesus, um exemplo moral que permanece até hoje, por Paulo Roberto Santos (in memoriam)

O maior revolucionário de todos os tempos, por Reza Aslan

Jesus numa moto, por Manoel Fernandes Neto

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