O Espiritismo e a sociedade, por Alexandre Mano

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Alexandre Mano

A obra basilar da Doutrina dos Espíritos, tal como as ideias do próprio cristianismo, reflete sobre a sociedade da época e aponta o caminho do progresso fraternal e ancorado nos avanços científicos e sociais.

A Doutrina Espírita, depois de desvendado o segredo que fazia “girar as mesas”, sempre se debruçou sobre todos os aspectos da vida terrena. Allan Kardec publicou o Livro dos Espíritos, em 1857, como um guia completo para toda a experiência humana. Prova disso é que, mesmo na sua introdução, Kardec afirma que “Ninguém, pois, se iluda: o estudo do Espiritismo é imenso; interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é um mundo que se abre diante de nós” (“O livro dos Espíritos”, Introdução, item XIII).

Pese embora a importância atribuída a Kardec às questões da vida humana, frequentemente esta parte da Doutrina é relegada para segundo plano, preterida pelos temas da ordem fenomenológica e pela vertente moral da Doutrina.

Lembremos que Kardec definiu o tríplice aspecto da doutrina espírita. O Espiritismo é, em simultâneo,
uma ciência, que estuda a vida espiritual, os fenómenos espíritas e a relação entre os dois planos;
uma moral ou religião, que a liga a Deus e à criação;
uma doutrina filosófica, que extrai do conhecimento dos espíritos consequências para a conduta dos homens.

Já em “O livro dos Médiuns” (cap. II, ponto 13), Kardec escreve: “Ora, o Espiritismo, que entende com as mais graves questões de filosofia, com todos os ramos da ordem social, que abrange tanto o homem físico quanto o homem moral, é, em si mesmo, uma ciência, uma filosofia, que já não podem ser aprendidas em algumas horas, como nenhuma outra ciência”.

Ao longo das obras da codificação, por diversas vezes Kardec reafirma que o Espiritismo não pretende apenas expor e explicar a vida espiritual. A Doutrina, enquanto filosofia, também nos remete para a existência humana, a sua finalidade, o seu papel como percurso ineludível do Espírito em progresso. Vejamos as seguintes passagens da codificação:

1) “Aquele que não conhece do Espiritismo senão o movimento das mesas vê nele apenas um divertimento (…) e não compreende que esse fenômeno, tão simples e tão vulgar, (…) pudesse se prender às mais graves questões da ordem social” (“O livro dos Espíritos”, Conclusão, item I).

2) “Os frutos que o homem deve retirar dela [da doutrina espírita] não são somente para a vida futura; ele os gozará sobre a Terra pela transformação que essas novas crenças devem necessariamente operar sobre seu caráter, seus gostos, suas tendências e, por consequência, sobre os hábitos e as relações sociais” (“A Gênese”, Cap. I, número 62).

3) “O Espiritismo (…), tocando a todos os ramos da economia social, às quais presta o apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam” (“A Gênese”, Cap. I, número 55).

Podemos concluir que Kardec nunca pretendeu excluir da Doutrina Espírita as preocupações de ordem social; pelo contrário, deixou sempre bem claro que é um dos pontos centrais da Filosofia Espírita. Não é possível, assim, dissociar o conhecimento da Doutrina Espírita e a experiência do homem na sociedade em que se insere.

Isto é bastante claro em “O livro dos Espíritos”, que dedica vários capítulos e perguntas à conduta do homem encarnado. Ver, por exemplo, quase toda a terceira parte – “Das Leis Morais”.

Na obra introdutória da Doutrina, e que podemos considerar como marco fundador do Espiritismo, Kardec não deixou de colocar várias questões sobre diferentes aspectos da vida do Espírito encarnado. E não fez de forma vaga ou ligeira, sob a forma de tópicos gerais da conduta humana. Pelo contrário, em capítulos como “da Lei do Trabalho”, “da Lei de igualdade” ou “da Lei de Liberdade”, desce a pormenores muito concretos, que não deixam dúvidas a quem os lê acerca do caráter progressista da Doutrina. Em muitas questões, a Doutrina Espírita está na vanguarda (ou até além) do pensamento considerado progressista da época. Em nada se vislumbra qualquer ideia de conservadorismo.

Nos próximos tópicos está uma seleção de alguns temas tirados de vários capítulos do Livro dos Espíritos que atestam o que acima foi descrito.

A vida em sociedade
Sendo o homem um ser social, ele é naturalmente, também, um ser político. Neste contexto a política deve ser entendida como “os assuntos do Estado” (do grego pólis, que eram as cidades-estados gregas).

Na introdução de “O Livro dos Espíritos”, Kardec escreve “(…) Esperamos que [“O livro dos Espíritos”] dará outro resultado, o de guiar os homens que desejem esclarecer-se, mostrando-lhes, nestes estudos, um fim grande e sublime: o do progresso individual e social e o de lhes indicar o caminho que conduz a esse fim” (Livro dos Espíritos, Introdução, item XVII).

O espírita e a sociedade
O simples conhecimento de algumas verdades espíritas, como a reencarnação e o progresso imparável da alma humana, origina inevitavelmente uma reflexão sobre a conduta do espírita na sociedade.

Alguns temas, como por exemplo, a igualdade de género, surgem-nos como claros e óbvios. Se os espíritos podem reencarnar como homens ou mulheres, não pode haver uma razão lógica para qualquer discriminação.

O progresso
Kardec não teve receio de avançar para questões bastante polémicas para a época, entrando em temas como a igualdade de género, racismo, desigualdade social e outros.

Assim, “O livro dos Espíritos”, tal como as ideias do próprio cristianismo, reflete sobre a sociedade da época e aponta o caminho do progresso fraternal e ancorado nos avanços científicos e sociais.

Epílogo
Poucos meses antes de desencarnar, Kardec escreve este texto para a Revista Espírita. Penso que ele encerra em si, de forma categórica, a opinião do Codificador acerca das relações entre o Espiritismo e a sociedade.

Vamos ao texto: “Que se siga a fileira das consequências forçosas deste único fato: a existência do mundo invisível em torno de nós, e chega-se a uma transformação completa, inevitável, nas ideias, à destruição dos preconceitos e dos abusos que delas decorrem e, por consequência, a uma modificação das relações sociais. Eis aonde chega o Espiritismo. Sua doutrina é o desenvolvimento, a dedução das consequências do facto principal do qual ele acaba de revelar a existência; essas consequências são inumeráveis, porque, cada vez mais de perto, elas tocam a todos os ramos da ordem social, no físico tão bem quanto no moral. É o que compreendem todos os que se deram ao trabalho de estudá-lo seriamente” (“Revista Espírita”, agosto de 1868, “O jornal A Solidariedade”).

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