O desprezo à metodologia de Kardec: a formação mediúnica em crise, por Ruy Marcelo

Tempo de leitura: 3 minutos

Ruy Marcelo

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Propomos uma reflexão sobre a fragilidade da formação de médiuns e suas consequências para o espiritismo prático contemporâneo. Questionamos o desprezo da metodologia espírita como causa do empobrecimento das práticas e comunicações mediúnicas e da falta de avanço da ciência espírita.

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Introdução

A Doutrina Espírita apresenta-se como uma síntese admirável de ciência psicológica e de filosofia moral, tornada possível e estruturada mediante o estudo metódico da fenomenologia espiritual e da mediunidade. No entanto, ao observar o cenário atual do Espiritismo prático — especialmente no que tange à formação de médiuns e à condução dos grupos mediúnicos e das comunicações — é inevitável reconhecer que muitos dos princípios fundamentais têm sido negligenciados, disso resultando a escassez de produção instrutiva e de avanço do conhecimento espírita.

A fragilidade da formação mediúnica

A mediunidade, por sua natureza delicada e complexa, exige estudo, disciplina e orientação segura. Infelizmente, o que se vê em muitos grupos espíritas é uma formação superficial, marcada por improvisações, superficialidades e ausência de método. 

O médium iniciante, ou mesmo o candidato à mediunidade, não é habituado a lidar com sua faculdade de forma consciente e racional; tampouco é incentivado a reconhecer os Espíritos simpáticos que o rodeiam ou a estabelecer comunicações regulares com seu guia espiritual.

Essa lacuna formativa compromete não apenas a qualidade das comunicações, mas também a segurança espiritual dos envolvidos. Sem preparo adequado, o médium torna-se vulnerável a influências perturbadoras e a mistificações que poderiam ser evitadas com o estudo sério e a observância da metodologia constante de “O Livro dos Médiuns: Guia dos Médiuns e dos Evocadores”.

O desprezo às instruções de O Livro dos Médiuns

Allan Kardec oferece, em “O Livro dos Médiuns”, um verdadeiro tratado de orientação para o desenvolvimento da mediunidade e a prática mediúnica. No entanto, muitas dessas instruções têm sido ignoradas ou relativizadas. O capítulo 25, por exemplo, trata com profundidade da evocação dos espíritos familiares e dos guias espirituais — prática que tem sido abandonada por diversos grupos ao argumento equivocado de que seria mais “seguro” e “elevado” ater-se a manifestações espontâneas.

Kardec refuta essa ideia com clareza, demonstrando que a evocação feita com consciência e racionalidade é um instrumento legítimo e indispensável de controle, de elevação e de aprofundamento do intercâmbio espiritual. A ausência dessa prática nas reuniões de formação mediúnica empobrece o conteúdo das comunicações e abre espaço para fontes duvidosas, muitas vezes desprovidas de conteúdo moral ou filosófico edificante.

Diante desse cenário, é fundamental que os grupos de formação mediúnica assumam a responsabilidade de instruir os médiuns iniciantes segundo os princípios estabelecidos por Kardec, especialmente quanto à importância das evocações conscientes e das relações com os bons Espíritos. Desde os primeiros passos, o médium deve ser encorajado a estabelecer comunicações regulares com seus Espíritos familiares e, sobretudo, com seu guia espiritual como ápice de sua formação para contribuir com os trabalhos do grupo.

 O guia espiritual é um colaborador essencial e insubstituível para que o médium desenvolva sua faculdade com segurança, discernimento e utilidade moral. Conforme ensina Kardec na “Revue Spirite”, os médiuns que mantêm relação contínua com seus guias espirituais podem consultá-los com segurança sobre a conveniência de tentar comunicações com outros Espíritos, recebendo conselhos prudentes e proteção contra mistificações. O guia do médium exerce o papel valioso de comunicador intermediário com Espíritos que, sem isso, não teriam como se manifestar. Essa prática, longe de ser um detalhe secundário, constitui um dos pilares da mediunidade séria e esclarecida, e sua ausência compromete a qualidade e a finalidade superior das reuniões mediúnicas.

Sem acesso a conteúdo sólido, os médiuns e dirigentes acabam por repetir fórmulas vazias, desconectadas da proposta original da Doutrina Espírita, que é a de iluminar a razão, o autoconhecimento e promover o progresso moral da humanidade.

Conclusão

É urgente que os grupos espíritas retomem o estudo sistemático das obras fundamentais da Doutrina Espírita, especialmente de “O Livro dos Médiuns”. A formação mediúnica deve ser conduzida com seriedade, método e respeito à ciência espiritual. As evocações conscientes, o reconhecimento dos guias espirituais, o estudo das influências e a vigilância moral devem voltar a ocupar o centro das reuniões mediúnicas.

O Espiritismo prático não pode se reduzir a fenômenos desconexos ou a mensagens genéricas. Ele deve ser, como propôs Kardec, um campo de experimentação lúcida, de educação espiritual e de construção moral.

Fontes:

Kardec, A. (1998). “O livro dos Médiuns”. Trad. J. Herculano Pires. 20. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (1964). “Revue Spirite”. Trad. Julio Abreu Filho. Superv. J. Herculano Pires. São Paulo: Edicel.

 

Imagem Pixabay  KLAU2018


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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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2 thoughts on “O desprezo à metodologia de Kardec: a formação mediúnica em crise, por Ruy Marcelo

  1. Ótimo. devemos renovar, incentivar os estudos. algumas casas tem o estudo da série André Luiz, sendo um livro por ano.
    o Estudo Sistematizado ,ainda encontra muita resistência

  2. Muito bom! Embora o cenário atual pareça pouco promissor, mantenho a esperança e o compromisso de que sua reflexão inspire dirigentes e trabalhadores a resgatar, na prática mediúnica, o rigor, a ética e a finalidade moral que Allan Kardec tão claramente delineou.