Sobre envelhecer, por Edson Figueiredo de Abreu

Tempo de leitura: 6 minutos

Estou escrevendo este artigo, em uma data muito próxima a completar meus 60 anos de existência física. E, devo confessar que, na minha juventude, jamais imaginei como seria chegar a esta idade. Aliás, como a grande maioria das pessoas, nunca me preocupei muito com este assunto!!

Devo também esclarecer que, não é por estar próximo aos 60 anos que escrevo sobre este tema, pois que, na verdade, este artigo é um resumo de uma de minhas palestras que já ministro a alguns anos, que tem o mesmo título.
Esta palestra em questão e, agora este artigo, me foi solicitado por alguns frequentadores da instituição espírita que presido, muitos inclusive, já próximos à meia idade que preocupados com a chegada da velhice, queriam ter uma ideia da visão espírita sobre o envelhecer.

E não é por menos esta preocupação, pois não faz muito tempo, e ainda na atualidade em algumas regiões do nosso planeta, que a velhice é vista pelos mais jovens com um certo preconceito; como uma faze da vida obscura, ruim e improdutiva, onde existe apenas perdas e doenças, acompanhada por uma boa dose de decrepitude, senilidade, dores, tristezas, sofrimentos, frustrações e angustias. Enfim, um quadro bem assustador e complexo.

Para aqueles que estão em pleno vigor físico, realmente o quadro apresentado pela velhice é de certa forma, muito aterrador sendo um agente de muitas incertezas e apreensões. Isso faz com que os mais jovens muitas vezes sem o perceberem, venham a isolar os idosos, motivados principalmente pela falta de conhecimento, medo e receio da proximidade da morte física; como se a morte ocorresse apenas na velhice e não em qualquer fase da existência física, e ainda por diferentes razões, como podemos observar todos os dias.

Outro fator que contribui para este “inadvertido” isolamento do idoso é que na nossa cultura existe uma “mística” de que o mais velho deixa de produzir como o jovem.

E em uma sociedade consumista, imediatista e de valores baseados no lucro, no incentivo a conquistas materiais, onde se privilegia o “ter” em detrimento do “ser”, quem deixa de produzir torna-se um problema, um estorvo na realidade.

Nesse sentido, os idosos então, viram empecilhos à plena atividade produtiva, e as casas de repouso se tornam a solução ideal, pois, ao mesmo tempo que afastam do convívio os obstáculos à chamada produtividade, ainda empregam pessoas mais jovens e promovem o lucro na atividade comercial de cuidadores.

Infelizmente, este é o retrato padrão da nossa sociedade! Por favor, entenda que não estou aqui criticando e condenando quem opta por propiciar aos seus idosos um tratamento adequado em clinicas de repouso, principalmente para aqueles que atingiram um grau de senilidade extremo que requer cuidados especiais, pois cada caso, requer análise cuidadosa e solução própria. Estou aqui me referindo apenas ao conceito “raso” e não ”raciocinado” da situação da velhice sendo considerada como estorvo e empecilho à atividade produtiva.

Situação esta, que se baseia na mais pura ignorância e numa ótica extremamente materialista, que não considera o ser humano na sua integralidade, pois que, como seres, somos sim dotados de um corpo físico que se deteriora e perece, mas na realidade, na nossa mais pura essência, somos espíritos imortais que preexistiram à matéria e continuarão existindo após a morte física. A morte é, então, apenas mais um processo de transformação do espírito eterno, e não o fim de tudo como muitos imaginam!

Neste contexto, é certo que no corpo físico o processo de envelhecimento provoca alterações visíveis e inequívocas, causadas principalmente, pelo desgaste do “fluido vital” que, como nos ensinam os espíritos superiores, vai se dissipando aos poucos até a sua completa exaustão, quando ocorre a falência total do corpo material. Como isto é algo inevitável, trata-se então de uma questão de cultura, entendimento e aceitação desta “ação” da natureza. A ignorância sobre o assunto porém, não permite que as pessoas entendam e aceitem bem este processo, fazendo com que evitem conviver com a realidade que para elas é dura. Estas pessoas estão na verdade, se auto enganando.

Quanto a questão do abandono do idoso, os espíritos superiores falaram a Allan Kardec sobre o assunto, em resposta à questão 681 do Livro dos Espíritos, dizendo o seguinte: – “Certamente que a lei da Natureza impõe aos filhos a obrigação de trabalharem para seus pais, assim como os pais têm que trabalhar para seus filhos. Foi por isso que Deus fez do amor filial e do amor paterno um sentimento natural. Foi para que, pela afeição recíproca, os membros de uma família se motivem a se ajudarem mutuamente, o que, aliás é raro ocorrer na vossa sociedade atual”. (Ressalto aqui que os espíritos já assinalavam no século passado esta questão do abandono do idoso).

Veja então, que os espíritos nos alertam sobre o dever moral de cuidarmos em família, uns dos outros. Porém, os conceitos espíritas vão além disso e nos permitem entender que as posições dos membros da família das gerações de hoje, eram trocadas em vidas passadas. E ainda se inverterão em vidas futuras. Em termos educacionais, a geração mais velha de hoje foi a mais nova de ontem, e será também a mais nova de amanhã. Os papeis vão então, se invertendo propositadamente nas vidas sucessivas, visando o intercâmbio salutar de experiências, vivências e conhecimentos, que levam o espírito eterno para sua ascensão evolutiva.

Assim, cuidar e zelar do nosso idoso de hoje é de extrema importância e torna-se muito mais do que uma simples obrigação moral, é na realidade, um preparo precavido, inteligente e educativo, da maneira que você quer ser tratado no seu futuro reencarne, quando, da posição de pai ou mãe; avô ou avó, se tornar filho ou filha ou ainda neto ou neta.

Esse conceito me faz lembrar de uma frase de uma música de Renato Russo que diz o seguinte: – “Você culpa seus pais por tudo, e isso é um absurdo!! São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer!!”
Outra questão interessante sobre o tema, a qual convido você a refletir, é que na verdade, todos nós estamos aprendendo a ser velhos, pois não faz muito tempo que a expectativa de vida do ser humano girava em torno dos 40 anos de idade e era uma minoria os que chegavam aos 60 , 70 anos. Então, eram poucos os que envelheciam.

São bem recentes os avanços médicos, científicos e tecnológicos que estão proporcionando uma vida mais longa ao ser humano, tornando a população do planeta mais velha e duradoura. Isso tem ocasionado serias mudanças na sociedade como um todo. Não só nas questões da longevidade das condições de trabalho e aposentadoria, como também nas relações sociais e culturais (veja a necessidade da reforma da previdência). Para aqueles mais atentos que entendem o que está acontecendo, percebem que há uma grande mudança na forma de enxergar a velhice. Para estes, a velhice de hoje é mais valorizada, tanto pelos mais jovens, quanto pelos próprios idosos, o que faz com que mais pessoas de 60, 70 e até mais idade, realizem aspirações e sonhos que não puderam ser realizados antes devido a questões pessoais, familiares ou profissionais.

Estas mudanças culturais, aliado ao recente acesso à tecnologia, possibilitam que a atual velhice seja melhor vivenciada do que a de nossos antepassados. Aliado a pseudo “obrigação” de cuidar e divertir os netos, os idosos de hoje estão deixando de lado os crochês ou tricôs e os jogos de dama, baralho ou bocha. Estão se mantendo por mais tempo nas atividades profissionais; muitos inclusive voltando a estudar; estão interagindo ativamente na Internet, nas diversas redes sociais (Facebook, WhatsApp Twitter, etc.), e participam de grupos sociais e culturais, além de atividades esportivas e artísticas.

Do ponto de vista da espiritualidade, se considerarmos que, nas inúmeras reencarnações pelas quais já passamos anteriormente dificilmente conseguimos envelhecer, provavelmente, nesta vida, estamos vivendo ou viveremos a nossa primeira experiência da velhice, assim sendo, chegar a este estágio de vida deve ser considerado uma benção. Afinal, quantos terão a oportunidade de vivenciar esta experiência, num planeta tão conturbado e instável quanto o nosso? Pense nisso!

Para espiritualizar-se é muito importante refletir sobre o que a velhice pode contribuir para o espírito, pois o que de fato levaremos dessa vida? Lembre-se que existe um ditado popular que diz que o caixão não tem gavetas!
Acredite!! Para o espírito encarnado a oportunidade de vivenciar a velhice do corpo físico é essencial, principalmente considerando todo o seu prévio planejamento reencarnatório, que visa, acima de tudo, a sua evolução espiritual.

Assim sendo, a velhice é a etapa da existência mais propícia ao exercício de alguns valores nobres da alma, como a religiosidade, a tolerância, o desapego, a paciência, a bondade, a benevolência, a gratidão e principalmente, o perdão. É também a importante fase que, pela diminuição da influência do vigor físico permite ao espírito um certo desprendimento da matéria, possibilitando, com isso, um preparo adequado para o seu regresso equilibrado ao plano espiritual, sem apegos, paixões e distrações materiais. Por isso é importante ao espírito encarnado envelhecer fisicamente de forma saudável, aproveitando ao máximo as lições que a vida lhe proporciona, sem se deixar influenciar pela perda do vigor físico, pois se o corpo enfraquece, o espirito não. Pelo contrário, fica mais desprendido, vivo e ativo do que nunca.

Encerro este artigo convidando você a ouvir a música “Envelhecer” de Arnaldo Antunes, refletindo sobre seu significado. Tenho certeza que você, que envelheceu mantendo seu espirito jovem, vai gostar!
Por fim, desejo a você que envelheça sim, mas que mantenha o seu espírito jovem, pois isso independente do estado do seu corpo físico. Feliz velhice!!

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