Paulo Degering Jr.
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Não adianta buscar uma transformação vazia, sem base, tentando apenas seguir cegamente outros exemplos. É necessário compreender o que se faz e porque se faz. Por isso a importância do Espiritismo.
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Reina, no Movimento Espírita moderno, consideravelmente afastado do Espiritismo, a insistente ideia, quase impositiva, da realização de uma reforma íntima. Prega-se a necessidade de seguir o Evangelho, utilizando-se, para isso, das conhecidas reuniões de leitura familiar de “O evangelho segundo o Espiritismo”, em que, quase sempre, se recomenda abrir aleatoriamente uma obra que deveria ser estudada assim como as demais obras de Allan Kardec.
Não seria, eu, louco o suficiente para dizer que a reforma moral e os ensinamentos morais de Jesus não seriam importantes. Muito pelo contrário: são, e muito e, também, não foram poucas as vezes em que Kardec ou os Espíritos falaram da importante transformação moral suscitada pelo Espiritismo, Doutrina essa capaz de, pelo raciocínio, instigar o ser humano a melhores resoluções. Não, esse não é o problema!
O que venho destacar é que existe uma falsa ideia reinando no Movimento, dentre tantas outras: a de que a Terra, sendo um planeta de provas e expiações, apenas receba Espíritos em expiações, ou seja, Espíritos com pendores passados. Isso não é verdadeiro, como demonstrarei a seguir.
As Provas
Provas são todas as dificuldades que enfrentamos na vida, e que, nem sempre, são resultados de nossas escolhas. Podemos, por exemplo, viver em uma cidade em que, em determinado momento, uma represa próxima estoure, causando uma inundação e levando nossa casa ou nossa vida. Isso é uma prova que não desejávamos, mas que passaremos, porque faz parte das leis da matéria. Podemos, também, passar anos sendo medicados por um remédio que nos cause efeitos adversos e destrua a nossa saúde. Isso também é uma prova, como seria a erupção de um vulcão adormecido, próximo de onde vivemos. Faz parte.
Às vezes, porém, atravessamos provas, as quais resultam das nossas escolhas. Ainda aqui, às vezes, o resultado é indireto ou involuntário: podemos escolher praticar um ato que dê resultados indesejados, nos causando uma prova.
Mas existem as provas que são diretamente frutos de nossas escolhas passadas, na condição de Espíritos que, arrependidos de um dado desvio moral, escolhemos um certo gênero de provas e de oportunidades que nos darão a chance de enfrentar e corrigir esse desvio. Aqui sim caberia o termo “Reforma Íntima”, segundo o entendimento do Espiritismo. E aqui está a chave do problema: nem todos desenvolveram imperfeições no passado, e nem todos, no momento em que vivemos, estão passando por expiações.
Vejamos o que consta de “O livro dos Espíritos”:
“121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?”
“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”
Imperfeições
Imperfeição, segundo o que podemos depreender do estudo do Espiritismo, é tudo aquilo que nasce do livre exercício da vontade, na repetição de um erro, criando uma imperfeição, o que demandará a expiação.
Somos criados todos simples e ignorantes tendo, todos, as mesmas oportunidades de seguir o caminho adiante. Todos, nesse caminho, cometerão erros, porque é impossível não errar quando somos ignorantes. Quantas vezes erramos, tentando acertar? Contudo, nem todos se apegam aos erros, desenvolvendo imperfeições. Alguns aprendem com os erros e rapidamente os superam.
Novamente, vamos ao texto de “O livro dos Espíritos” (grifos nossos):
“133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?”
“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”
“a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?”
“Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”
Note que Kardec entendeu, colocou em questão e não foi desmentido: existem aqueles que desde sempre seguiram o caminho do bem, o que não quer dizer que não erraram, mas apenas que não se apegaram ao erro.
Duvida do que eu digo? Que bom, quer dizer que está raciocinando! Mas, para raciocinar bem, é necessário ter base em algo. Sugiro, portanto, a leitura das questões 114 a 127 de “O livro dos Espíritos”, além dessa exposta. Também não estou tirando tudo isso da minha cabeça, como destaco em outro texto [1].
A Escala Espírita
Ademais, note que a Escala Espírita (100 a 113), que foi apenas um esboço classificatório proposto por Kardec, diz o seguinte dos Espíritos imperfeitos:
“101. Características gerais. – Predominância da matéria sobre o espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes.”
Ignorância, com certeza, posto que não é possível conhecer a lei divina, em realidade, e ainda assim praticar o mal. Isso seria retrogradar, o que o Espírito não faz. Mas note que, junto a isso, estão o orgulho, o egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes – imperfeições desenvolvidas pelo apego àquilo que satisfaz aos desejos materialistas.
Algo mais a destacar: note que Kardec classifica a primeira classe como “Primeira ordem – Espíritos puros”, e não como “Espíritos Perfeitos”. Kardec não aborda uma “dualidade” entre Espíritos perfeitos e imperfeitos. E vimos, acima, que um Espírito pode, ao que tudo indica, ocupar a segunda classe desde o início – e, se você discordar, por favor, vamos dialogar.
Expiação
Expiação é algo que está bem definido em “O Céu e o Inferno”, em sua edição não adulterada, publicada pela Editora FEAL. Kardec definiu, como resultado do estudo de longos anos, que ela é o esforço livre e consciente do Espírito que busca, honestamente, reparar um desvio que tenha tomado:
“8º) A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do Espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação – em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem [2].
O Espírito é, assim, sempre o árbitro de seu próprio destino; ele pode prolongar seus sofrimentos por seu endurecimento no mal, aliviá-los ou abreviá-los por seus esforços para fazer o bem.
Uma condenação por um tempo determinado qualquer teria o duplo inconveniente de ou continuar a atingir o espírito que se houvesse aperfeiçoado, ou cessar quando ele ainda estivesse no mal. Deus, que é justo, pune o mal enquanto este existe; e encerra a punição quando o mal não existe mais.
Assim se acha confirmada esta expressão: Eu não quero a morte do pecador, mas que ele viva, e eu o acusarei ATÉ QUE ELE SE ARREPENDA”. [3].
Mundo de Provas e Expiações
Podemos facilmente verificar, enfim, que a Terra, por se tratar de um mundo de provas e de expiações, não é nem um mundo apenas de provas, nem um mundo apenas de expiações. É de um e de outro. Portanto, existem Espíritos encarnados que escolheram expiações e outros que não. Estão apenas passando por provas, que são todas as dificuldades que nos oferecem chance de aprendizado e de avanço.
Quem são aqueles, portanto, que passam por expiações? Será que podemos apontar o dedo e classificá-los? “Este aqui é bonzinho, é apenas uma prova”; “ah, aquele ali é maldoso, egoísta, é uma expiação”. Eu não arrisco. Mas, na verdade, há algo lógico a se tirar daqui: um Espírito encarnado pode estar, neste momento, desenvolvendo uma imperfeição, um apego, algo que antes não tinha. Talvez, antes, estivesse sem apegos. Não está, portanto, expiando, mas expiará.
Essa é a função de um planeta como o nosso: dar, em contato com a matéria bruta, as condições para o burilamento de cada um.
Um Espírito pode estar na faixa de evolução em que a Terra lhe dá condições de aprendizado, sem que para isso ele tenha arrependimentos morais que precise enfrentar.
Reforma Íntima ou Reforma Moral
O Espiritismo oferece um forte subsídio, uma forte alavanca para a reforma moral do nosso mundo, que, encontra-se em situação lastimável, com certeza. Já no âmbito individual, precisamos nos perguntar: carecemos todos de uma reforma? Ou precisamos apenas de aprendizado? Essa é uma pergunta que apenas cada um, com sua própria consciência, pode responder.
O fato é que é necessário cuidado ao adotar cegamente certas ideias. Crer que todos que aqui nascem estão expiando algo, que tudo o que atravessamos é uma expiação e, pior ainda, que a expiação seja pagar dívidas passadas por uma espécie de castigo, nos leva a resultados negativos na forma de proceder ante a vida e aos demais.
Resultados negativos da crença no karma
- Culpa e Autocensura:Indivíduos que acreditam nisso podem carregar um fardo de culpa constante, acreditando que estão pagando por erros passados. Isso pode levar à autocensura e a uma vida cheia de restrições, com medo de cometer novos erros.
- Desencorajamento:A crença de que a vida atual é uma punição por ações passadas pode desencorajar as pessoas a buscarem seus objetivos e sonhos, pois podem acreditar que não merecem sucesso ou felicidade.
- Falta de Empatia:A ideia de que o sofrimento dos outros é resultado de dívidas “kármicas” pode levar à falta de empatia e compaixão pelos que estão em situações difíceis. Isso pode prejudicar a solidariedade e o apoio social. Infelizmente, vemos essa falta de empatia constantemente.
- Resignação negativa:As pessoas podem se tornar resignadas diante das dificuldades, aceitando passivamente o sofrimento como um destino inevitável, em vez de buscar soluções e melhorias em suas vidas [4].
- Injustiça:A crença no karma dessa forma pode justificar ou perpetuar desigualdades sociais e econômicas, pois as pessoas podem acreditar que aqueles que estão em posições privilegiadas merecem isso devido a ações passadas [5].
Em resumo, essa crença pode ter efeitos negativos na saúde mental, no bem-estar e nas relações interpessoais, além de contribuir para a perpetuação de desigualdades e injustiças. É importante lembrar que as crenças sobre karma variam muito entre diferentes sistemas de crenças e culturas, e nem todos interpretam o karma da mesma maneira.
Conclusão
Talvez muitos de nós estejamos, precisemos de reformas, no sentido de termos nos desviado do bem por conta deste ou daquele apego e agora precisarmos nos conduzirmos novamente ao bem. Mas, como mudar o que se sabe?
Não adianta buscar uma transformação vazia, sem base, tentando apenas seguir cegamente outros exemplos. É necessário compreender o que se faz e porque se faz. Por isso a importância do Espiritismo.
Voltemos ao texto de “O livro dos Espíritos” (nossos destaques):
“780. O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?”
“Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.” (192–365.)
- a) — Como pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral?
“Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.”
Além disso, a ideia de que estejamos todos expiando desvios passados nos leva a uma pressão externa de nos corrigirmos de coisas que nem sequer entendemos. Isso seria uma correção artificial, que não se sustenta e nos envereda por um caminho complicado: se a mudança não se edifica sobre o real entendimento, de maneira progressiva, nos impomos um passo maior que nossas pernas. Ao tentar dar o salto e, por isso, cairmos, cremos que não somos fortes o suficiente, abandonando por completo as tentativas.
Infelizmente, muitos ainda acrescentam aí a falsa ideia de que essa vida seria a mais importante de todas e que, se não nos corrigirmos, estaríamos fadados a sermos o joio, “exilados” do Planeta Terra – outra falsa ideia, nascida inicialmente do livro “Exilados de Capela”, que não é Doutrinário.
Sim: cada um deve se observar e buscar se corrigir naquilo que entender que faz errado. Mas isso não se faz por pressão, nem seguindo cegamente a algo. É preciso compreender, e a mudança tem que ser feita passo a passo. Não se constrói um edifício de cima para baixo.
O caminho do bem
O indivíduo que busca o caminho do bem, olha para si e se analisa. Julga a si mesmo, observando erros e acertos. Avalia onde pode melhorar e onde pode corrigir, se julgar que tem algo a corrigir. Mais que isso: para trilhar o bem, deve-se fazer o bem, e o conhecimento do Espiritismo permite que esse processo seja mais acertado, porque o bem verdadeiro é útil e, para ser útil, é necessário saber o que se diz e o que se faz.
Muitos, por falta de conhecimento doutrinário (obras de Kardec), são pouco úteis. Enquanto dão pratos de sopa, que saciam momentaneamente a fome do estômago (algo importante e venerável, é claro), não saciam a fome de compreensão e de conhecimento, que definitivamente eleva o Espírito a novos degraus e pode, inclusive, dar a ele novas perspectivas para enfrentar aquela situação e dela sair.
Alguns, enquanto entregam o pão, creem e dizem que a pessoa que sofre de males materiais está passando por isso porque merece. Sim, já ouvi espíritas afirmarem isso. Esse, frequentemente, é o resultado da reforma íntima artificial, que tende a olhar apenas para si, sem buscar conhecimento, esquecendo que se deve ser verdadeiramente útil aos demais [A].
Notas do Autor:
[1] Artigo “Somos todos Espíritos imperfeitos?”, do autor, integrante do Blog do “Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec”, publicado em 2022. Disponível em: <https://www.geolegadodeallankardec.com.br/artigos/estudo-aprofundado-do-espiritismo/somos-todos-imperfeitos/>. Acesso em 5. Nov. 2025.
[2] Didaticamente, podemos interpretar expiação como o aperfeiçoamento sério e efetivo, e reparação como um retorno sincero ao bem. No item 23, Kardec define arrependimento como ‘fato da livre vontade do homem’. Ou seja, o espírito imperfeito primeiro conscientiza-se e escolhe superar sua condição, faz então a escolha das provas como expiação, objetivando seu aperfeiçoamento, retornando assim ao bem, conquistando a felicidade ao desenvolver as faculdades de sua alma (Nota do Editor).
[3] Se o ímpio faz penitência de todos os pecados que cometeu, se ele guarda todos meus preceitos e age segundo a equidade e a justiça, ele certamente viverá e não morrerá – Eu não me lembrarei mais das iniquidades que ele tenha cometido; ele viverá nas obras de justiça que terá feito – Quero eu a morte do ímpio, diz o Senhor Deus? E não quero antes que ele se converta, retire-se do mau caminho e viva? (Ez, 18:21-23; 23:11.) (Nota do Autor).
[4] A resignação pode ser positiva, quando representa a aceitação realista de limitações após esgotar esforços para lidar com uma situação.
[5] A compreensão original de karma liga-se à ideia de que as ações tem suas consequências. Isso enfatiza a responsabilidade pessoal pelas ações e as implicações que elas têm.
Nota do ECK:
[A] Artigo originalmente publicado no Blog do “Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec”, publicado em 2022. Disponível em: <https://www.geolegadodeallankardec.com.br/artigos/assuntos-diversos/reforma-intima-e-espiritismo/>. Acesso em 5. Nov. 2025.
Imagem de Nico Franz por Pixabay





Bom texto, abordando logicamente as questões propostas. Aponto, apenas, no intuito de colaborar, que no meu entendimento nunca cabe a expressão reforma, ainda que substituindo ‘interna’ por ‘moral’, pois me parece que transformação é a expressão adequada e esclarecedora- ninguém ‘demole’ parte de sua personalidade para se melhorar com uma ‘nova estruturação’, mas nos vamos transformando com a adoção paulatina de novos e mais avançados conceitos. Saudaçòes