O voto feminino, sua importância e os referenciais humanísticos e espíritas, por Maria Cristina Rivé

Tempo de leitura: 5 minutos

Maria Cristina Rivé

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Algumas agendas atuais revelam uma circulação internacional de discursos conservadores que procuram responder e se contrapor às profundas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas. Defender não só o voto feminino mas a efetiva participação das mulheres na vida político-social não significa apenas preservar uma conquista histórica do feminino, mas reafirmar um princípio universal de justiça que o Espiritismo consagra.

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Ao longo da história das democracias modernas, o sufrágio universal consolidou-se como uma das maiores conquistas da cidadania. A possibilidade de todos os cidadãos participarem das decisões políticas tornou-se um princípio estruturante das sociedades democráticas. Contudo, como demonstram as historiadoras Lilia Schwarcz e Mary Del Priore em suas reflexões sobre a formação da sociedade brasileira e a trajetória histórica das mulheres, direitos conquistados nunca permanecem definitivamente garantidos. Eles convivem permanentemente com movimentos de resistência e tentativas de retrocesso.

A recente declaração de Paulo Figueiredo, jornalista e influencer brasileiro que reside nos Estados Unidos, afirmando que mulheres, em especial as solteiras, “não sabem votar”, ultrapassa o campo da mera provocação política. Ela revela a permanência de uma tradição histórica profundamente enraizada na sociedade brasileira: a desconfiança generalizada diante da autonomia feminina.

Mary Del Priore demonstra, em diversos estudos sobre a história das mulheres no Brasil que, durante séculos, a mulher foi definida prioritariamente pelos papéis de esposa, mãe e cuidadora. Sua presença na esfera pública era limitada, enquanto sua identidade social era construída quase exclusivamente a partir da família. Mulheres solteiras, viúvas ou economicamente independentes, frequentemente, despertavam suspeitas justamente porque escapavam do modelo considerado ideal.

Essa lógica histórica dialoga diretamente com o momento político atual. Ao sugerir que determinadas mulheres possuem menor capacidade de decidir eleitoralmente, o discurso não questiona apenas preferências partidárias; questiona a própria legitimidade da autonomia feminina.

Lilia Schwarcz, por sua vez, argumenta que o Brasil foi constituído sobre profundas hierarquias sociais, marcadas por desigualdades de raça, gênero e classe. Essas hierarquias, embora transformadas ao longo do tempo, continuam influenciando as relações políticas contemporâneas. Quando determinados grupos passam a ser considerados menos aptos para participar da vida pública, reproduz-se uma tradição histórica de exclusão incompatível com os fundamentos democráticos.

Pesquisas recentes revelam que mulheres, especialmente aquelas com maior escolaridade e independência econômica, apresentam comportamento eleitoral distinto dos homens. Esse fenômeno, conhecido internacionalmente como “gender gap” (disparidade de gênero), não representa uma distorção democrática, mas uma consequência natural da ampliação da autonomia feminina.

Como observa Schwarcz, a democracia pressupõe pluralidade. Em sociedades diversas, homens e mulheres podem construir ou vivenciar experiências distintas e, consequentemente, realizar escolhas políticas diferentes. A divergência eleitoral não constitui ameaça à democracia; ela é justamentea sua expressão mais legítima.

Os movimentos populistas contemporâneos frequentemente reivindicam o papel de representação do “verdadeiro povo”. Entretanto, conforme mostram diversos estudos sobre autoritarismo, toda definição rígida de quem representa esse “verdadeiro povo” tende a excluir aqueles que não subscrevem determinada identidade política. Mulheres, jovens, minorias étnicas e grupos historicamente marginalizados tornam-se, então, alvo de desconfiança.

Nesse contexto, a autonomia feminina assume centralidade. Judith Butler interpreta esse fenômeno como parte de uma reação internacional às transformações nas relações de gênero. Mary Del Priore acrescenta que a tentativa de restringir o protagonismo feminino não constitui novidade histórica; trata-se da permanência de uma longa tradição patriarcal que buscou controlar os espaços ocupados pelas mulheres.

No cenário brasileiro, a trajetória política de Michelle Bolsonaro ilustra uma dimensão importante desse processo. Sua atuação demonstra que setores conservadores não rejeitam necessariamente a presença feminina na política, desde que ela permaneça vinculada aos valores tradicionais da família, da maternidade e da religiosidade. Sua legitimidade política é construída justamente a partir desses referenciais.

Esse modelo diferencia-se das concepções feministas centradas na autonomia individual. Em vez de ampliar os papéis sociais das mulheres, procura reafirmar funções historicamente associadas ao universo doméstico, transferindo-as para o espaço público.

Mesmo assim, os conflitos internos vividos por Michelle dentro do próprio campo conservador revelam que a estrutura patriarcal continua estabelecendo limites ao protagonismo feminino, inclusive entre as mulheres alinhadas à direita política. Tal situação reforça a análise de Mary Del Priore de que a conquista dos espaços públicos pelas mulheres sempre ocorreu de forma gradual, marcada por disputas, resistências e constantes tentativas de contenção.

O debate brasileiro acompanha fenômeno semelhante observado em outras democracias, especialmente nos Estados Unidos, onde discussões sobre voto feminino, direitos reprodutivos e papéis tradicionais de gênero voltaram ao centro das disputas políticas. Mais do que coincidências nacionais, essas agendas revelam uma circulação internacional de discursos conservadores que procuram responder e se contrapor às profundas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas.

Lilia Schwarcz frequentemente lembra que a democracia não se fortalece pela uniformidade, mas pela capacidade de incluir diferentes sujeitos históricos em igualdade de condições. Questionar a legitimidade política das mulheres, portanto, significa enfraquecer esse princípio fundamental.

A história do sufrágio feminino nunca foi apenas a conquista do direito formal ao voto. Como mostram tanto Mary Del Priore quanto Lilia Schwarcz em suas obras, ela representa uma etapa de um processo muito mais amplo: a lenta construção da cidadania feminina, da autonomia econômica, da participação política e do reconhecimento das mulheres como sujeitos plenos de direitos.

É justamente essa autonomia que continua sendo objeto de disputa. Quando determinados discursos procuram desacreditar a capacidade política das mulheres, não se restringem ao debate eleitoral. Reativam antigas estruturas de desigualdade que a história brasileira demonstra serem persistentes. Defender a igualdade política entre homens e mulheres significa, portanto, preservar um dos pilares essenciais da democracia contemporânea e reconhecer que cidadania plena somente existe quando todos os indivíduos podem participar da vida pública em condições de igualdade.

O sufrágio feminino representou, histórica e culturalmente, muito mais do que a conquista de um direito político. Simbolizou o reconhecimento de que as mulheres são sujeitos plenos da vida pública, capazes de decidir, deliberar e participar da construção dos destinos coletivos em igualdade de condições com os homens. Toda tentativa de desqualificar essa autonomia não atinge apenas um grupo específico, mas enfraquece um dos fundamentos essenciais da democracia: a igualdade política entre os cidadãos.

Sob a perspectiva do Espiritismo, essa reflexão ganha uma dimensão ainda mais profunda. Allan Kardec, em “O livro dos Espíritos”, ensina que o Espírito não possui um determinado sexo de forma permanente e que homens e mulheres são criados por Deus com a mesma capacidade de progredir moral e intelectualmente. As diferenças corporais pertencem à existência material; a dignidade, a inteligência e a responsabilidade pertencem ao Espírito, que ora reencarna como homem, ora como mulher, conforme suas necessidades e oportunidades progressivas.

Se todos os Espíritos são igualmente chamados ao aperfeiçoamento, não há fundamento moral para atribuir maior ou menor valor à consciência política de homens ou de mulheres. O exercício do voto constitui uma expressão da liberdade, da responsabilidade e do livre-arbítrio, princípios inseparáveis do progresso espiritual. Respeitar a escolha do outro, ainda que dela discordemos, é reconhecer a autonomia da consciência e confiar na capacidade humana de aprender, corrigir-se e progredir.

Assim, defender não só o voto feminino mas a efetiva participação das mulheres na vida político-social não significa apenas preservar uma conquista histórica do feminino, mas reafirmar um princípio universal de justiça: todos os seres humanos, independentemente de seu sexo, possuem igual dignidade perante Deus e isonômico direito de participar da construção da sociedade. Em uma democracia madura, e também sob a ótica espírita, não existem votos mais ou menos legítimos; existem consciências livres, igualmente responsáveis por suas escolhas e igualmente chamadas ao aperfeiçoamento moral.

Fontes:

Butler, J. (2022). “Desfazendo gênero”. Trad. Carla Rodrigues (coord.), Aléxia Bretas, Ana Luiza Gussen, Beatriz Zampieri, Gabriel Lisboa Ponciano, Luís Felipe Teixeira, Nathan Teixeira, Petra Bastone e Victor Galdino. São Paulo: Editora Unesp.

Del Priore, M. (2020). “Sobreviventes e guerreiras: Uma breve história da mulher no Brasil de 1500 a 2000”. Planeta. Edição do Kindle.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Schwarcz, L. (2011). “Sobre o Autoritarismo Brasileiro”. Companhia das Letras. Edição do Kindle.

Imagem de Franz Bachinger por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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