O Problema da Verdade como Espelho da Maioria, por Marcio Sales Saraiva

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O ponto central para Allan Kardec era a qualidade da comunicação do médium, a linguagem (mas sem o velho preconceito linguístico do século XIX!), o conteúdo ético-moral que ela nos revela. Se este é o ponto fundamental, então tanto faz se esta mensagem seja concordante com a maioria dos espíritos ou até mesmo se sua origem é um espírito desencarnado, encarnado ou de “personalidades” do inconsciente do próprio medianeiro — podendo ser vidas anteriores, dimensões submersas da psique ou insights do inconsciente coletivo, da alma do mundo. Sendo assim, ao invés de estarmos preocupados com um possível CUEE “revitalizado” ou “resgatado”, desejando um consenso impossível na humanidade (encarnada ou desencarnada, consciente ou inconsciente), poderíamos colocar nossas energias criativas para analisar a pertinência dessas comunicações mediúnicas, suas ideias centrais, sua lógica interna, a riqueza das suas diferenças e o quanto elas agregam de bom ao mundo da vida, o quanto elas fazem bem para as pessoas concretas, aqui e agora.

Na medida em que o prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869) convenceu-se de que os fenômenos paranormais de seu tempo, testemunhados por ele, eram de fato fenômenos espirituais/paranormais legítimos, ou seja, fenômenos produzidos por uma inteligência extracorpórea e humana, nasce aí Allan Kardec.

Gradualmente, Kardec irá ampliar suas investigações não somente para comprovar que o fenômeno da comunicação entre dois mundos existe (encarnados e desencarnados formam uma única humanidade) e não é delírio, nem charlatanismo — ainda que em muitos casos o sejam —, mas também para retirar dessa comunicação alguma sabedoria de vida. O que essas inteligências extracorpóreas (ou espíritos) têm para nos dizer? Querem nos ensinar algo? Têm elas o conhecimento necessário para fazê-lo?

Depois de analisar diversas comunicações mediúnicas de origem diversificada — diversos médiuns em diversas cidades e países da Europa —, Kardec propõe o método comparativo e a busca da verdade através do consenso majoritário. Em outras palavras, se na diversidade de comunicações os espíritos, na sua maioria, dizem que (A = B), isto será uma verdade aceita pelo espiritismo, pois a voz da maioria dos espíritos, através de diversos médiuns em diversos países a confirmam como expressão verdadeira. É isso que veio a ser conhecido como Controle Universal do Ensinamento dos Espíritos ou CUEE (cf. elaboração feita por Kardec em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, item II, “Autoridade da Doutrina Espírita”; também, na “Revista Espírita”, de abril de 1864, citada na sequência).

Kardec dizia que “[…] recebendo as comunicações de perto de mil centros espíritas sérios, disseminados sobre os diversos pontos do globo, somos capazes de ver os princípios sobre os quais essa concordância se estabelece”.

Há um primeiro aspecto problemático nesse método. A sua suposta diversidade é questionável, pois tratava-se basicamente de comunicações feitas por médiuns brancos da Europa do século XIX e forjados numa cultura judaico-cristã europeia de onde erguiam-se esses “mil centros espíritas sérios”. Além disso, tais médiuns eram pessoas com formação escolar razoável e geralmente oriundos do mesmo setor socioeconômico: a classe média (pequena burguesia) ou dos estratos sociais mais aristocráticos e abastados.

Kardec obviamente ignorava estas questões hermenêuticas básicas que ganharam força no século XX — especialmente com filósofo Hans-Georg Gadamer (1900-2002) — e isso fez com que Kardec apostasse tudo na ideia universalista acrítica de que “uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares” (Introdução de “O evangelho segundo o espiritismo”).

Outra questão que me parece consequência desta primeira era o tipo de espírito comunicante. Em geral, profissionais liberais desencarnados, padres, bispos, cientistas e filósofos. Tinha também um judeu, mas nenhum muçulmano, budista ou negro de religiosidade não-cristã, ainda que Kardec se mostrasse aberto a receber na Sociedade Espírita de Paris pessoas de todas as crenças do mundo, tal como lemos em “O que é o espiritismo?”, uma obra fundamental que anda sumida.

Sendo assim, o horizonte cognitivo do espiritismo kardequiano era uma reprodução ideológica dos valores sociais, políticos, econômicos e morais das camadas médias e altas da sociedade europeia “civilizada” e os espíritos comunicantes, talvez por um fenômeno de simpatia, eram da mesma estirpe ou “grandes nomes” do passado como Platão ou Santo Agostinho, já que ambos teriam se convertido ao “espiritismo cristão” ou “o Consolador prometido por Jesus” (estes termos são encontrados em Kardec) depois que deixaram o corpo físico na Terra.

Parece então que a ralé, o proletariado, não existia no mundo dos espíritos ou estaria internado em “zonas umbralinas”, de baixo “padrão vibratório”, por isso não participou das mensagens centrais do espiritismo francês. É esquisito, no mínimo. E ainda hoje, no Brasil, o padrão não mudou muito. Salvo raras exceções, as comunicações são de médicos e advogados, políticos e grandes empresários, padres e freiras, mas não lembro de uma mensagem psicografada por um espírito que foi negro, pobre e sindicalista na sua última encarnação e que hoje, evoluído e luminoso, depois de comer o pão que o diabo amassou em terras brasileiras, se encontraria dirigindo do “plano astral” um centro espírita kardequiano, tendo conquistado o papel de mentor. Por que não vemos essas coisas?

O terceiro problema é que Allan Kardec não era meramente um coordenador que ajuntava diversas mensagens mediúnicas dos “diversos pontos do globo”. Ao contrário disso, ele interferia, dialogava, questionava e buscava sínteses e consensos, portanto, ele tinha um papel ativo neste processo e nada imparcial. Não por acaso, ele é o criador do neologismo espiritismo e fundador desta doutrina, sendo, portanto, legítimo chamá-la de kardecismo, ainda que ele mesmo, Kardec, protestasse contra este vínculo pessoal, dado que ele gostaria de dar ao espiritismo um caráter universalista e impessoal, uma filosofia oriunda das vozes de todos os espíritos do mundo, mas sabemos que nem tudo é como Kardec gostaria que fosse. Ele assim se expressa:
“O Espiritismo não é mais a obra de um único Espírito como não é a de um único homem; é a obra dos Espíritos em geral. Segue-se que a opinião de um Espírito sobre um princípio qualquer não é considerada pelos Espíritos senão como uma opinião individual, que pode ser justa ou falsa, e não tem valor senão quando é sancionada pelo ensino da maioria, dado sobre os diversos pontos do globo. Foi esse ensino universal que fez o que ele é, e que fará o que será. Diante desse poderoso critério caem necessariamente todas as teorias particulares que sejam o produto de ideias sistemáticas, seja de um homem, seja de um Espírito isolado. Uma ideia falsa pode, sem dúvida, agrupar ao seu redor alguns partidários, mas não prevalecerá jamais contra aquela que é ensinada por toda a parte” (KARDEC, A. “Revista Espírita”, outubro, 1865).

Bem, depois do nazismo e vivendo em tempos de pós-verdade, sabemos que uma ideia falsa pode prevalecer “por toda a parte”, ao contrário do que imaginava o iluminismo kardequiano.

Quando falamos em kardecismo, quero dar um exemplo desse papel ativo do próprio Allan Kardec: a eliminação de mensagens mediúnicas que discordavam da existência de reencarnação. Tais espíritos comunicantes eram postos na categoria de “ignorantes”, pois a “maioria” dizia que a reencarnação era um fato, Kardec chega a chamar de “um dogma” (“Revista Espírita”, março, 1862; questão 222, de “O livro dos espíritos”, etc.), ainda que Herculano Pires argumente que se tratava de um “dogma da razão”, seja lá o que isso quer dizer. O fato é que a reencarnação é um axioma do espiritismo de Allan Kardec, ou seja, não crer na teoria da reencarnação é não ser espírita, é deixar de lado um pilar fundamental de todo o edifício argumentativo do kardecismo. Simples assim.

Para citar um exemplo do que estou argumentando aqui neste ensaio, Stainton Moses, o Kardec inglês, recebeu mensagens do espírito Kabilla e Imperator que eram contrárias a reencarnação, de igual forma, os médiuns Daniel Douglas Home e o líder espiritualista Guilherme Howitt se mostraram contrários a este princípio de vidas progressivas e até mesmo no Congresso Internacional Espírita de 1923, em Liège, a reencarnação não foi consenso. Quando aconteceu o Congresso Internacional de 1934, esta divergência foi admitida publicamente quando os delegados da Inglaterra, Irlanda, Holanda e África do Sul se manifestaram contrários ao reencarnacionismo aceito mais fortemente nos países de tradição latina (cf. “Reencarnação” de Boaventura Kloppenburg, Vozes, 1998).

Já em “O livro dos Médiuns” (capítulo 27, questão 8), Kardec admite que os espíritos não são unânimes sobre a reencarnação, mas em “O livro dos Espíritos” o fundador é mais realista, admitindo que ele, pessoalmente, estava convencido sobre a lógica da reencarnação, independente do que a maioria dos espíritos diziam: “Temos raciocinado, abstraindo, como dissemos, de qualquer ensinamento espírita, que, para certas pessoas, carece de autoridade. Não é somente porque veio dos Espíritos que nós e tantos outros nos fizemos adeptos da pluralidade das existências. É porque essa doutrina nos pareceu a mais lógica e porque só ela resolve questões até então insolúveis. Ainda quando fosse da autoria de um simples mortal, tê-la-íamos igualmente adotado e não teríamos hesitado um segundo mais em renunciar às ideias que esposávamos”.

Além do peso das decisões de Kardec no processo de confecção do espiritismo, não temos nenhum registro do controle estatístico e qualitativo feito por ele na construção dos seus livros. Sabemos que três jovens médiuns — as irmãs Julie e Caroline Baudin e Ruth Japhet — foram muito usadas como fonte, talvez mais do que as mensagens que vieram de “mais de mil centros espíritas sérios”. O que complica ainda mais o suposto método de CUEE, pois demonstra a preferência de Allan Kardec pelas mensagens dessas três jovens, pessoas de máxima confiança do fundador do espiritismo. Mas seriam essas belas jovens, do ponto de vista da comunicação mediúnica, infalíveis, perfeitas, sem nenhuma sombra de dúvida? É preciso sermos prudentes aqui e evitarmos qualquer adesão fanática.

Mas há também um quarto problema no uso do CUEE, supondo que ela tenha sido usado de forma ampla, variadíssima e buscando somente aquilo que seria o consenso majoritário entre os espíritos comunicantes que, pela linguagem e conteúdo — mais do que pelos nomes famosos ou respeitáveis que usavam — demonstravam sua “evolução”. Trata-se da falácia da maioria. O que é isso?

A falácia de maioria é conhecida classicamente como “argumentum ad populum” (argumento ou apelo ao povo, em latim). Na tentativa de ganhar a adesão, apela-se para as paixões para ganhar maioria e na medida em que se torna maioria, constrange-se aquele que não aderiu a concordar com a maioria, pois “a voz do povo é a voz de Deus”. E isso traz identidade, segurança, confiabilidade. Dizer que “todos os espíritos de luz defendem a reencarnação” é um apelo fortíssimo para que qualquer crente diga “amém, eu também acredito nisso”, como no efeito manada. Se você não crê no que a maioria acredita, você está fora, é alguém “atrasado”. Se você não acredita na “revelação da maioria dos espíritos”, então você é alguém sem luz, burro, “involuído”, como diria Pietro Ubaldi. E mais ainda. Se você não crê na maioria dos “espíritos de luz” é porque você não é uma pessoa especial, afinal, “o espiritismo não é para qualquer um”. Convenhamos, é um argumento falacioso e horroroso, mas muito usado por aí, além das falácias de generalização precipitada, omissão de dados e amostra limitada, mas deixo este assunto para outro momento.

A questão básica aqui é desmascarar esta falácia, pois onde está provado empiricamente que por ser o pensamento da maioria o mesmo está correto e é bom? Onde há provas de que a maioria é que detém um conhecimento melhor e mais avançado? Onde está a ciência que demonstre que as crenças majoritárias são o sintoma de uma “verdade especial”? Ao longo da história humana, as maiorias cometeram inúmeros desatinos e empolgaram-se com discursos de ódio, embaladas por lideranças inescrupulosas e doentias.

Não estou aqui debatendo se a reencarnação existe ou não existe, se creio ou não nisso. Penso que há fortes evidências sobre reencarnação e, nesse sentido, o pensamento kardequiano me parece correto, os argumentos pela reencarnação são muito bons. Mas a questão aqui é outra. Simplesmente a maioria não pode ser critério de verdade e Allan Kardec embarcou nessa canoa furada, mas compreensível este seu gesto, se pensarmos que se tratava de um homem do século XIX. E nós, século XXI, permaneceremos ainda hoje nisso?

Pense com calma. Se a maioria dos espíritos comunicantes dizem que Galileu Galilei foi a reencarnação de São Pedro, então, esta é uma verdade? É assim que o espiritismo pretende encontrar as “verdades mais verdadeiras” sobre tudo? Não, claro que não. Porque sabemos que a maioria pode estar equivocada, que as mensagens mediúnicas podem não ser legítimas e, quem sabe?, a reencarnação pode ser até uma crença da maioria dos espíritos que se comunicaram na Europa do século XIX dentro da sistematização deita por Kardec, mas talvez não seja esta a crença da maioria dos espíritos que se comunicaram e ainda se comunicam nos Estados Unidos, por exemplo. E quem será o juiz da questão?

Façamos um pequeno exercício. Imagine se alguém, empolgado com o CUEE, dissesse que não se vacinar contra a Covid-19 é a melhor escolha porque a maioria das mensagens mediúnicas dos centros espíritas brasileiros confirmaram isso? Supondo que este alguém fez um levantamento em diversos centros kardecistas do país. Primeiro, não importa se o tal alguém encontrou essa “maioria de respostas”, pois sabemos pela ciência que isso é mentira. Segundo, essa maioria pode ser estatisticamente pouco significativa (há quantos centros espíritas no Brasil e quantos foram pesquisados?). Terceiro, essa maioria pode ser de obsessores ou espíritos inferiores, como dizia Kardec, e não de espíritos esclarecidos e lúcidos.

Estou aqui fazendo um pequeno exercício imaginativo usando os termos kardequianos para repensarmos essa coisa do CUEE, esse mito sobre a origem universal das ideias espíritas. O controle universal dos ensinamentos dos espíritos é como um sonho kardequiano ou, em termos junguianos, uma fantasia de Allan Kardec que ele mesmo alimentou e acreditou com toda a sinceridade de sua alma de pesquisador e crente. E não vejo fantasia como um demérito, ainda que para os mais apegados ao racionalismo cartesiano poderá parecer um xingamento ao mestre de Lion.

Sei que para o fundamentalismo espírita eu posso parecer ofensivo, mas acalme-se. Fantasiar faz muito bem para a nossa saúde psíquica, não precisamos brigar por isso. Lembre-se de Kardec: […] É, pois, um dever para todos os Espíritas sinceros e devotados repudiar e desaprovar abertamente, em seu nome, os abusos de todos os gêneros que poderiam comprometê-la, a fim de não assumir-lhes a responsabilidade; pactuar com esses abusos seria tornar-se cúmplice deles, e fornecer armas aos nossos adversários. (KARDEC, A. Revista Espírita, junho, 1865.

Feita tais anotações, na forma deste ensaio despretensioso e sem apelar para inúmeras citações já conhecidas pela comunidade espírita — a destinatária dessas minhas linhas mal alinhavadas —, esta é a minha hipótese sobre o CUEE, portanto, se eu não acredito nele (em termos realistas/cartesianos) nem mesmo nos tempos de Allan Kardec, não poderei utilizá-lo hoje como critério de verdade do espiritismo. Entendo, portanto, que todas as comunicações mediúnicas são parciais, pessoais e ideológicas, devem, portanto, serem situadas no contexto histórico, socioeconômico, político e cultural do médium ou do grupo de médiuns em questão.

No fundo, as comunicações mediúnicas são mediações humanas, embebecidas de crenças e valores dos médiuns que dão tais “comunicações do além” — até mesmo por lei de afinidade entre os espíritos, caso não queria usar a tese de animismo ou, mais grave, charlatanismo. E esta dimensão além, espiritual, astral, como queiram — e aqui levanto outra questão-problema — poderá trazer a mensagem de uma inteligência extracorpórea (espírito desencarnado), de um espírito ainda encarnado que está desdobrado ou de camadas do inconsciente do médium que é povoado por arquétipos e informações do inconsciente coletivo, da alma do mundo. Quem irá saber? Quem poderá julgar?

O ponto central para Allan Kardec era a qualidade da comunicação do médium, a linguagem (mas sem o velho preconceito linguístico do século XIX!), o conteúdo ético-moral que ela nos revela. Se este é o ponto fundamental, então tanto faz se esta mensagem seja concordante com a maioria dos espíritos ou até mesmo se sua origem é um espírito desencarnado, encarnado ou de “personalidades” do inconsciente do próprio medianeiro — podendo ser vidas anteriores, dimensões submersas da psique ou insights do inconsciente coletivo, da alma do mundo. Sendo assim, ao invés de estarmos preocupados com um possível CUEE “revitalizado” ou “resgatado”, desejando um consenso impossível na humanidade (encarnada ou desencarnada, consciente ou inconsciente), poderíamos colocar nossas energias criativas para analisar a pertinência dessas comunicações mediúnicas, suas ideias centrais, sua lógica interna, a riqueza das suas diferenças e o quanto elas agregam de bom ao mundo da vida, o quanto elas fazem bem para as pessoas concretas, aqui e agora.

Este poderia ser o ponto central, pois, caso contrário, se tais comunicações mediúnicas fazem mal ao mundo, ampliam a neurose e a paranoia, negam os valores da vida, do prazer e dos processos de libertação e emancipação humana, tais mensagens devem ser descartadas, pois não estão à serviço da humanidade planetária, não estão em sintonia com uma concepção amorosa/erótica da Divindade.

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