Espiritismo e Democracia: Fascistas não passarão!, Manoel Fernandes Neto e Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 5 minutos

O dia da infâmia. Em defesa do Estado Democrático de Direito.

Manoel Fernandes Neto e Marcelo Henrique

Na foto de @ricardostuckert, o presidente se reúne no STF com ministros da corte, na noite do dia 8, mostrando que a democracia continua viva. 

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“A inteligência nem sempre constitui penhor de moralidade e o homem mais inteligente pode fazer péssimo uso de suas faculdades. Doutro lado, a moralidade, isolada, pode, muita vez, ser incapaz. A reunião dessas duas faculdades, inteligência e moralidade, é, pois, necessária a criar uma preponderância legítima, a que a massa se submeterá cegamente, porque lhe inspirará plena confiança, pelas suas luzes e pela sua justiça”, Allan Kardec (“Obras Póstumas”, A aristocracia intelecto-moral do futuro).
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Homens e suas ideologias passam. Arroubos e paixões são características de homens atrasados. Sociedades atrasadas, moral, intelectual e espiritualmente são substituídas, naturalmente, pela vigência da Lei do Progresso.

A civilização humana prossegue. A Democracia, também. E o Espiritismo deve estar ao lado do Estado Democrático de Direito, independente das preferências políticas ou ideológicas dos homens.

Neste 8 de janeiro de 2023, o mundo inteiro acompanhou, perplexo, as cenas bizarras de vândalos, terroristas e criminosos que atentaram contra os prédios que representam os três pilares da República Federativa do Brasil, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário federais, cujas sedes (edifícios e o que representam) foram vilipendiadas. Nesta data, todos os acontecimentos que foram vistos pelas transmissões de mídias devem ser classificados como terrorismo e tentativa de golpe. E o conjunto de tudo o que se viu ser considerado também como o dia da infâmia.

E os espíritas conscientes, que não se deixam levar pelo “canto de sereia” ou por “arroubos individuais ou coletivos” não podem ter outra atitude senão a de indignação.

Foi desrespeitado o que temos de mais sagrado: nossa convivência democrática como nação.

Seguidores do governo anterior e seu líder – grupo chamado de bolsonaristas – são os que realizaram uma quantidade de atos indignos, espalhando o ódio e destruição, sem qualquer motivo justo, nobre ou espiritual. Apenas a vindita, o revanchismo e a absoluta impossibilidade de respeitarem uma derrota político-eleitoral.

Como sabemos pela doutrina espírita, cada Espírito é o único responsável pelos seus próprios atos. Mesmo que insuflado por outrem, influenciado por discursos em redes sociais ou conduzido gratuitamente por veículos fretados, com alimentação e hospedagem garantidos, os indivíduos que lá estiveram são cúmplices, sem exceção, com a barbárie generalizada que se viu.

Há, em todos esses atos bizarros, as digitais de “cidadãos do bem” que não aceitam uma derrota eleitoral, dentro da lisura de uma eleição constitucionalmente realizada, em dois turnos, com a declaração do resultado final, a diplomação dos eleitos e a posse do Presidente e Vice-Presidente, em 1º de janeiro de 2023.

Mas há outras digitais importantes: a dos homens públicos que ocupam cargos e papéis relevantes nos poderes constituídos, que permitiram os acampamentos em frente a instalações das Forças Armadas, como vimos desde o último trimestre do ano passado. Também parlamentares, eleitos ou reeleitos, que em suas redes sociais e em discursos, na campanha eleitoral e após ela, continuaram sugerindo um golpe de Estado. Mas há uma digital a mais, como tutora de todo esse estado de desordem: a do ex-presidente da República, fomentador de movimentos golpistas e antidemocráticos, e incentivador de violências e ódios, durante os quatro anos de seu lamentável mandato.

Voltando o olhar para o nosso umbigo, o “meio ou movimento espírita”, devemos lamentar a adesão de muitos espíritas – por suas manifestações e postagens nas redes sociais, assim como por diálogos costumeiros nas instituições espíritas – a este movimento de desordem, anarquia e violência.

Em especial, há de lamentar e registrar, para a História, que todos os órgãos federativos (nacional, estaduais e distrital), assim como as grandes instituições situadas nas capitais e principais cidades brasileiras, jamais se posicionaram de forma pacífica e fraterna, mas contundente, no sentido do reconhecimento dos resultados das eleições, em defesa do processo eleitoral e o reconhecimento do novo Governo do Brasil (presidente e vice). Esta omissão é injustificável e ela representa, indiretamente, a chancela de todos esses atos antidemocráticos.

A pergunta que cabe é: agora, diante deste episódio dantesco e bizarro, sem proporções e similaridade em praticamente 523 anos de nosso país, irão se pronunciar ou manterão o costumeiro silêncio (que é tido, indevidamente, como “prece”)?

Por outro lado, não devemos nos esquecer dos “vultos” espíritas contemporâneos. Sim, eles, dirigentes, médiuns e palestrantes, assim como influenciadores espíritas, os quais têm espalhado seus ódios ideológicos em suas redes sociais, ou, ainda, os que têm mantido um comportamento dúbio, de não envolvimento, com o velho e deteriorado discurso do “afastamento entre Espiritismo e Política”, distantes, ambos, da tolerância, da fraternidade, da caridade e da solidariedade que nos ensina a Filosofia Espírita, diante do fomento ao “quanto pior melhor”, ao golpe e à destruição ora perpetrada por uma seita político-religiosa que vai contra tudo o que acreditamos e professamos.

Não podemos “passar pano”, de outro lado, nas multidões de espíritas espalhados por todo o país e “ativos” nas redes sociais e seus debates e postagens, os quais também possuem suas digitais, fortemente, em relação aos acontecimentos deste 8 de janeiro de 2023, porque alimentaram e continuam alimentando – pasmem, inclusive a partir da divulgação dos vandalismos desta data – discussões messiânicas e escudadas em pseudomensagens mediúnicas, sempre voltadas contra o campo progressista e a democracia, no conjunto de suas costumeiras manifestações em grupos de estudo e contato digital.

Temos um representativo número de espíritas, assim como a totalidade dos que têm fomentado o ódio, a violência e o golpismo, têm se deixado levar, como massa invigilante e que abdica da lógica racional, a seguir esse movimento. Distanciam-se, assim, completamente, estes espíritas, da observação feita por Kardec e que abre este nosso Editorial: não são a massa consciente que, adotando as duas faculdades espirituais, inteligência e moralidade, rechaçam qualquer ideologia de violência e golpe, porque inspirados, com plena confiança, pelas luzes e pela justiça proclamadas pelo Espiritismo.

Espíritas, acordai-vos! Eis o terceiro mandamento, ao lado do amai-vos e instruí-vos (Espírito Verdade)!

Todos os ataques à Democracia, ocorridos neste dia 8, como quaisquer outros, anteriores ou posteriores devem ser exemplarmente responsabilizados, na regência da Constituição e do Código Penal e leis especiais. Mas devem ampliar o espectro de alcance para, além dos seus executores, os financiadores, os instigadores e os apoiadores, inclusive agentes públicos, sem exceção.

Além do dano moral, que é o conjunto de ataques proferidos contra os símbolos nacionais, os edifícios públicos, as sedes dos poderes, além de obras de arte e relíquias históricas, assim como equipamentos, materiais e instalações públicas, custeados, todos, pela sociedade brasileira, a nossa democracia resiste e se torna cada vez mais forte! Resiste bravamente contra todo e qualquer tipo de golpismo por parte de indivíduos (Espíritos milenares reencarnados), que demonstram sua total incapacidade de convivência pacífica e plural. Mesmo responsabilizados pelas instâncias da materialidade, não tenhamos dúvidas de que a Justiça Divina, para qual NADA escapa, dará “a cada um segundo suas obras”.

Deste modo, o Grupo “Espiritismo COM Kardec – ECK” vem a público condenar veementemente os atos ocorridos em Brasília neste domingo, dia 8 de janeiro de 2023.

O Grupo ECK se orgulha em não se omitir em relação a nenhum debate político e social, com a convicção de que a Doutrina dos Espíritos representa, no curso progressivo da Humanidade, importante arcabouço racional e laico para o desenvolvimento do raciocínio lógico que se endereça à plena compreensão do mundo atual, com suas conquistas e reveses.

Reitera, assim e acima de tudo, que estaremos, enquanto coletivo espírita, nas trincheiras de defesa do Estado Democrático de Direito, contra todos e quaisquer arroubos golpistas.

“Democracia sempre” é e será sempre o nosso constante chamamento!

Brasil, 9 de janeiro de 2023.
Espiritismo COM Kardec.

 

Foto:

Administrador site ECK

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

9 thoughts on “Espiritismo e Democracia: Fascistas não passarão!, Manoel Fernandes Neto e Marcelo Henrique

  1. Perfeito posicionamento. Não há neutralidade em nossas ações. Oi agimos ou nos omitimos e a omissão é campo para essa barbárie bolsonarista. Espiritismo é Paz, Construção Coletiva e Democracia.

  2. Esses espíritas, se é que o são, devem estar sendo orientados por desencarnados das trevas, espíritos inteligentes, mas, sem moral alguma, que desejo apenas o mal para a humanidade. Estão distantes de Cristo e do que pregou. Deveriam se lembrar que soba boa árvore produz bons frutos. O que vemos nestes últimos anos são péssimos frutos, amargos, duros, podres…

  3. Excelente pronunciamento e clareza quanto a ser cristão espírita. Vamos cada dia mais nos fortalecer!

  4. Realmente como espírita vejo com muita preocupação pessoas que usam as tribunas dos centros espíritas para falar de amor, fraternidade, etc. e apoiam esta barbaridade que se assemelha aos clérigos da época de Jesus que o acusaram de subverter o povo de sua região pregando uma outra forma de enxergar a vida, exortando a todos pelo verdadeiro caminho em busca da felicidade… Sabemos o final da história de Jesus aqui na terra, sendo julgado e incriminado por se contrapor aos representantes do clero de sua época. Vergonhoso a posição destes espíritas que admitem a violência como meio de se chegar aos objetivos…

  5. Cabe aos espíritas que desejam participar do processo de construção de um mundo mais justo e equanime, a dedicação e a busca de valorização da democracia participativa e popular.
    Não podemos aceitar o armamento da população como alternativa para a auto defesa;
    Não podemos aceitar o estado paralelo mantido por milicianos;
    Não podemos aceitar um Estado que ao contrário do que propugna a base do espiritismo, ignore e desrespeite a ciência.
    Pelo estimulo à evolução dos habitantes do planeta, defendemos as práticas que respeitem a Democracia Participativa e Popular. Respeite-se a Constituição de nosso Pais; Respeite-se os poderes eleitos pelos votos dos cidadãos.
    Que tais poderes estejam dispostos a construir um país de paz com justiça.

  6. Realmente é de indignação o sentimento diante do 08 de janeiro e de tudo que vimos e ouvimos por quatro anos, por tanto, tenho pensado muito no “ Amar aos vossos inimigos” …. como olhar tudo isto, refletir e entender como se chegou a este ponto? Como evitar os sentimentos negativos de raiva, repúdio e intolerância em mim mesma? Até que ponto eu mesma, sem ter total consciência, colaborei com esta ordem das coisas? Deixo esta minha reflexão e uma observação….
    O trecho de Obras Póstumas de A Kardec, ao menos na minha edição , não contém o termo
    “cegamente”….
    Obrigada

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