Marcelo Henrique e Marcus Braga
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A dominante influência católica no Espiritismo, motivada por diversas questões, motivações, construções e justificativas, faz a comunidade espírita adotar essas datas, justamente com esses mesmos significados, acalentando o “espírito” da crença sem raciocínio e baseada nas tradições, efetivamente distantes da “fé raciocinada”, que seria inabalável justamente por ser a fé que encara a razão, permanentemente.
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Chegamos a mais uma Sexta-Feira Santa. Feriado relevante, que antecede o domingo de Páscoa. Enquanto o segundo se caracteriza pelo comércio de chocolates, a primeira é forte no consumo de pescados, sendo negada a carne vermelha. Tradição fortíssima, no Brasil e em muitos países onde o Catolicismo possui relevância ou proeminência. Neste sentido, vivenciando a Semana Santa, em vários lugares do nosso país é encenada a “Paixão de Cristo”, revivendo os dias da prisão, do julgamento e da condenação e morte pela crucificação. Ainda, pela fé católica, tudo isso precede a ressurreição, que é celebrada no domingo – apesar de, consoante a liturgia bíblica da cristandade, o “subir aos Céus”, com corpo e alma teria acontecido após uma quarentena de permanência do “Filho de Deus” ainda neste planeta.
Nesse ano de 2026, em especial (posto que começou conturbado, com o fantasma da guerra ocupando as pautas, sem deixar espaço para Copa do Mundo, Carnaval ou, mesmo, chocolates), vemos Jesus – que, aqui no ECK é tratado frequentemente como Yeshua (seu nome original), ou carinhosamente como Magrão –, sendo diariamente crucificado! E não, apenas, na Sexta-Feira da Paixão.
Segue, pois, o nosso sublime personagem, sendo cotidianamente cravejado no madeiro infamante, enquanto a sua mensagem prossegue sendo rasgada, deturpada, vilipendiada e, também, usada como argumento para uma série de atrocidades que são contrárias à essência de sua mensagem. Morre Jesus, então, pelas mãos dos homens, a cada vez que vemos a guerra, a violência, o preconceito, o desrespeito serem incentivados, sobretudo por aqueles que trazem nas vestes e nos pescoços, símbolos cristãos, como a cruz que representa a figura tradicional do Nazareno.
O respeito às tradições, como a carne que não pode ser consumida no dia da Paixão, assim como os ritos de procissões, vigílias, ou terços, em memória ao crucificado, seguem fortes e disputam espaço com a mensagem que está contida nos Evangelhos, relativa aos feitos (milagres), às pregações e aos diálogos instrutivos por ele trazidos. Vale dizer que tal mensagem se situa totalmente distante dos bens materiais e não estimula qualquer comércio. Em verdade, as exterioridades, os rituais e a materialidade comercial não apaziguam as consciências, mas acabam servindo como revestimento dourado para aqueles túmulos caiados (alvos por fora e podres e fétidos por dentro) que o Mestre teria dito. Esse cenário, com os atores reais seguem fazendo do Jesus redivivo, Espírito imortal, um dos “modelos e guias” para a Humanidade, algo caricato, artificial, postiço, formal…
E, outrossim, a costumeira, conveniente e inconsistente interpretação de que o Galileu teria morrido na cruz para “nos salvar”, reforça uma ideia muito distante de tudo o que ele pregou. Pois serve de escudo para o erro, como se o Deus quisesse um sacrifício intercambiável – a morte de um homem bom para anular os “pecados” (erros e hesitações) de toda a Humanidade. Litúrgica e ideologicamente uma visão teológica de poder, fundada sobre o tripé temor-culpa-salvação, não sem muita dor e sofrimento.
É assim que sobreviveu e vai sobrevivendo Jesus, nesses mais de 2000 anos… Seria, talvez, melhor que ele e sua trajetória tivessem sido esquecidos. Mas, esse grau de modificações intrínsecas em relação à sua mensagem não configura, na prática, um esquecimento? Não foi essa imagem construída de Jesus a que sustentou o advento de guerras, torturas, perseguições, regimes violentos, despóticos, ditatoriais, renovando-se todas as vezes em que se crucificava o Jesus simbólico para crucificar o Jesus real, século após século? Tudo isso para que o primeiro pudesse validar uma série de práticas, atos e discursos, totalmente distantes da “paz do mundo”, da “boa vontade”, do “amar aos inimigos, fazer o bem aos que nos perseguem e nos caluniam”…
E os espíritas? A dominante influência católica no Espiritismo, motivada por diversas questões, motivações, construções e justificativas, faz a comunidade espírita adotar essas datas, justamente com esses mesmos significados, acalentando o “espírito” da crença sem raciocínio e baseada nas tradições, efetivamente distantes da “fé raciocinada”, que seria inabalável justamente por ser a fé que encara a razão, permanentemente. Então, como os espíritas se distancia(ra)m da verdadeira visão de Jesus (trazida por Allan Kardec, em “O evangelho segundo o Espiritismo”, a fé cega segue inspirando os espiritistas a proclamar o “Jesus Salvador”, nos perfis pessoais e nas redes sociais adjetivadas como espíritas. E, também, utilizando esse mito artificial como sustentação de teses estranhas, acomodando interesses, crendices e mistificações sob alegorias como “o consolador prometido”, “o evangelho redivivo”, “o futuro das religiões” e o “Brasil, coração do mundo e pátria do Evangelho”. Espelhando a própria história da Igreja Romana, baluarte do Cristianismo Oficial, seguimos como “religião cristã”, numa formatação de um catolicismo que crê na reencarnação e que, por isso, se considera superior aos “outros cristianismos”.
É bem verdade que a vivência prática e cotidiana do evangelho seja algo de fato muito complexo, porque não conseguimos, ainda, no curso de nosso próprio progresso pessoal, entronizar e materializar, na forma da tríade pensamento-palavra-ação. Restam-nos, assim, com frequência (ainda que tentemos disso nos livrar), os subterfúgios da tradição, das meias verdades e das piruetas interpretativas (para ajustar o que deveria ser, ao que é). E, assim, seguimos vivendo à base de reformas íntimas, artificiais porque expressas tão-somente na aparência (“o que se faz quando todo mundo está vendo”), da adaptação de Jesus às nossas próprias conveniências, e do uso conivente de trechos de mensagens a ele atribuídas como bandeira e justificação para causas eticamente reprováveis (como “Deus, pátria e família” ou “bandido bom é bandido morto”). Uma etiqueta que dá credencial para falar em “nome do Cristo”.
Não precisamos dessa “roupagem”. Necessitamos é de viver o Yeshua-Magrão, o verdadeiro Jesus!
Imagem de Chil Vera por Pixabay




