E D I T O R I A L: Filosofia Espírita: Para revisitar certezas e dúvidas.

Tempo de leitura: 4 minutos

Leopoldina Xavier e Manoel Fernandes Neto

Uma edição para discutir a filosofia espírita em profundidade só poderia vir mesmo a partir da reputação de uma publicação ousada intelectualmente como a Revista Harmonia.

A revista jamais teme os meandros insofismáveis do saber, com suas visões múltiplas, dos questionamentos complexos ou comuns; do onde viemos, do que estamos a fazer aqui e qual o objetivo dessa caminhada. Crentes, racionais, agnósticos e ateus elaboram respostas. O filósofo Herculano Pires falou da profundidade de “O livro dos Espíritos” como filosofia: “Todo um vasto sistema, sem as exigências opressoras ou os prejuízos do espírito de sistema, numa estrutura livre e dinâmica, em que os problemas são postos em debate” (*).

É com essa inspiração que trazemos esta nova edição.

Nossa viagem começa com a abordagem histórica de Maurice Herbert Jones, em seu artigo “A síntese kardequiana”. Cautelosamente ele trafega pela evolução do pensamento e oferece à filosofia a sua dimensão no processo. Para ele, o “chão da filosofia” é o pensar que indaga, que reflete, que busca resposta não encontrada em laboratório, dando a dimensão desse perseguir com a chegada do Espiritismo Kardequiano que responde a questões como o princípio da reencarnação e do evolucionismo fundamentado na justiça social e humana. Apresenta Kardec como o pedagogo que andou entre a ciência e a filosofia, um inovador ao criar a base filosófica do Espiritismo na educação e no amor. Um homem do seu tempo, que viveu num período de ebulição das ideias como a Revolução Francesa, o Renascimento, a Reforma Luterana, o Iluminismo e o Marxismo.

Mas os questionamentos continuam. A abstração filosófica e a materialidade científica podem coexistir? No artigo “A interdependência entre filosofia e ciência”, Lawrence Sklar postula enfrentar e responder a pergunta. Mostra que a ciência se estabelece na especulação, na experiência, nos testes, nas observações, enquanto que a filosofia penetra na ciência e vigia sua prática, seus métodos, propondo ao pensamento indutivo regras que vão além da experiência. Ao filósofo da ciência cabe a tarefa de especular o método que se utilizou para o resultado científico, quer no campo ontológico, quer na utilização dos meios, na sua natureza, nas descobertas, para, na abstração do pensamento conceder à ciência o conteúdo de valores e princípios naturais e humanos.

Mas qual a gênese da inovação filosófica? No texto “A filosofia da ciência”, de Mesquita Filho, a primeira afirmação é que as “Novas Ideias” surgem do livre pensar que, quando expostas no campo do debate, vão se purificando até ganhar aceitação ou rejeição, mas sempre privilegiando que um conceito não pode se opor à experimentação comprovada e desde que esta experimentação não seja superada por outra devidamente comprovada. Ele cita como exemplo que “os princípios fundamentais da ciência são universais”, sustentando que este princípio se firmou no decorrer do tempo e apoiado na experimentação.

Inevitável discutir como a filosofia se relaciona com os outros pilares da Doutrina. Carlos de Brito Imbassahy começa em seu artigo “Ciência, Filosofia e Religião?” a demonstrar que a ciência se encontra em permanente evolução, exemplifica com o conceito de fluido de Newton que, no processo do tempo, evoluiu até hoje com a descoberta das emissões quânticas. Da mesma forma, a linguagem evolui junto com os novos conhecimentos.

Imbassahy discorre sobre a filosofia grega, que admite que outras áreas da ciência como a física, a biologia, a química, tenham espaço e mesmo que subliminarmente, haja vista compreender que estas não modificam a natureza humana. Por sua vez, a ciência como vista hoje abrange todas as áreas do conhecimento humano, ou seja, em sua total amplitude, independente da Escola formuladora, respeitando sempre a comprovação. A religião se fixa no estudo de Deus, esta divindade recebe nomes diversos e a depender do local. Na religião os conceitos e dogmas variam a depender da denominação da seita, enquanto que na ciência após comprovação seu conceito é universal e único.

Mas o que é fé raciocinada? Nas reflexões de Luiz Signates em “A filosofia espírita e a fé raciocinada”, a “fé raciocinada” diverge da “fé religiosa”, haja vista que a “fé religiosa “ é a “fé cega” incontestável, enquanto que a “fé raciocinada” se embasa na razão, na “fé fundamentada”. Na “fé raciocinada”, entre os conceitos de “fé e razão”, se torna possível a decisão, o raciocínio dialético que privilegia a argumentação e, logo, a dúvida, permitindo no pensar modificações, alterações, obrigando pelo estudo e conhecimento da ciência uma evolução permanente.

Em “A confusão entre a filosofia de Jesus e o Cristianismo”, a autora Nícia Cunha procura criar limites entre o espiritismo da mensagem de Jesus, trazida por seus apóstolos, o que ela chama de “Jesusismo”. O resultado é um saboroso e ousado estudo que reúne plurais aspectos que os unem e os diferenciam: instituições, políticas, os significados, as reflexões sobre religiões, judaísmo, simbologias, as armadilhas do que ela chama de “revivescência da idolatria” que explica como agimos nos dias de hoje, ou como ela diz: “Por isso é tão arraigada no homem terreno, essa necessidade ritual e litúrgica. Acostumado à pompa e circunstância no trato com os poderosos da terra e atribuindo caráter humano à divindade, imagina ser necessário comunicar-se com ela, por essa via infantil.”

Marcelo Henrique fecha esta instigante edição com o texto “O futuro da filosofia espírita”, em que indaga sobre o futuro do Espiritismo filosófico: Será que há futuro? Será mesmo? E quando seria (será) esse futuro? A partir do entendimento de que a filosofia é a racionalidade aplicada aos fatores existenciais, as suas teses resistem ao tempo, portanto, são consideradas Leis Universais. No segmento das experiências espíritas e anímicas os resultados justificam suas teses sobre “a essência humana (espírito), a razão da essência material (vida física), a longevidade espiritual (reencarnação)”.

O autor pontua que o princípio egocêntrico (a terra como centro do universo) com o princípio da unicidade da vida formam crenças quer na religião, quer na ciência, que somente as mentes progressistas podem romper e por agirem com a razão, com o conhecimento formado na racionalidade para contradizer esses postulados, dando mobilidade aos movimentos sociais e humanos, anulando os dogmas religiosos.

Nesta edição de setembro da Revista Harmonia, não faltam questionamentos, reflexões e caminhos. Esperamos que você aprecie, com novas indagações. Ou como diz Herculano Pires, quando diferencia o Espiritismo do Cristianismo:

“Podemos dizer que o Espiritismo tem sobre ele uma vantagem, no tocante ao problema filosófico. A simplicidade de “O Livro dos Espíritos” não chega ao ponto de nos obrigar a adaptar sistemas antigos aos nossos princípios, como aconteceu com Santo Agostinho e São Tomás, em relação a Platão e Aristóteles, para a criação da chamada filosofia cristã. O Espiritismo já tem o seu próprio sistema, na forma ideal que o futuro consagrará.” (*)

Boa leitura e muitas outras reflexões.

(*) Citações feitas por Herculano Pires, na introdução de sua tradução de “O livro dos Espíritos”.

Acesse cada texto:

A síntese kardequiana, por Maurice Herbert Jones

A interdependência entre filosofia e ciência, por Lawrence Sklar

A filosofia da ciência, por Alberto Mesquita Filho

Ciência, Filosofia e Religião?, por Carlos de Brito Imbassahy

A filosofia espírita da fé raciocinada, por Luiz Signates

A confusão entre a Filosofia de Jesus e o Cristianismo, por Nícia Cunha

O futuro da filosofia espírita, por Marcelo Henrique

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