A importância de trilhar um caminho totalmente diferente nas eleições de 2022

Tempo de leitura: 5 minutos

E isto se faz urgente e necessário agora e não depois. Que trabalhemos nisto, como espíritas, nestes noventa dias que antecedem a eleição de 2 de outubro de 2022.

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“a força irresistível do Espiritismo será tanto mais bem constatada quanto mais ele tiver de combater.”
Alan Kardec, “Viagem Espírita em 1862”, em “O Espiritismo é uma Ciência Positiva”.
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Fala-se muito, no meio espírita, sobre a não-discussão política. Demonizam-se os temas associados à gestão governamental, às políticas públicas, à forma de condução dos assuntos relacionados à sociedade. Chega a parecer que os espíritas em geral estão mais preocupados com o pós-morte (e o “destino” do Espírito do “outro lado”) do que com a resolutividade das questões individuais e coletivas neste planeta.

Política está no DNA do ser humano. Também está nas digitais da Doutrina dos Espíritos. Kardec lutou politicamente, em pleno Império Napoleônico, para que lhe fosse dada autorização estatal para as reuniões e atividades espíritas. Igualmente enfrentou questões político-sociais com o desdém das ciências materiais acadêmicas para com as ciências metafísicas e o combate das religiões (inclusive com atuação dos poderes estatais – polícia e judiciário, como no episódio do “Auto de Fé de Barcelona”). Kardec se posicionou politicamente, no seio de suas 32 obras, sobre as graves questões do Século XIX, seja pela sua própria pena seja pela transcrição das lições advindas dos Espíritos Superiores. O professor francês também esteve do lado dos miseráveis na grave crise econômico-civil de seu tempo. Criou cursos de educação regular, gratuitos, secundando as ações estatais. Envolveu-se em ações sociais e políticas em favor dos desvalidos. Kardec jamais se omitiu!

Nós, do “Espiritismo COM Kardec – ECK”, tampouco nos omitimos. Em nossas diversas plataformas e mídias sociais, todos os dias, praticamos POLÍTICA SOCIAL ESPÍRITA, na discussão de todo e qualquer tema pertencente ao contexto da atualidade planetária, inclusive os mais graves, aqueles que você não vê costumeiramente em grupos ou canais espíritas. Mas isto não significa, de nenhuma maneira, que o ECK faça propaganda ou apologia para qualquer político, partido ou ideologia.

No entanto, como o momento é grave e na iminência de se tornar ainda mais grave, é necessário aos HOMENS DE BEM (definição de “O evangelho segundo o Espiritismo”) assumirem uma posição clara. Posto que o Espiritismo, sendo uma doutrina alicerçada em princípios universais e permanentes, decorrente dos ensinos dados por vários seres humanos no curso da História, muitos dos quais componentes do ideário de distintas religiões e filosofias, carece de aplicabilidade prática, na compreensão das Leis Espirituais que regem este planeta e o Universo, nas situações concretas de nossa existência. E, para tal, é preciso avançar em termos de compreensão e entendimento do Espiritismo, com a necessária maturidade dos indivíduos (Espíritos encarnados).

Barbárie em tempos sombrios

Vivemos, infelizmente, tempos sombrios. Parece que retrocedemos décadas, talvez séculos, em muitas questões e contextos. A barbárie, as violências de todos os matizes e o fascismo ressurgiram com força e penetração nos ambientes sociais.

Há cerca de seis anos, o Brasil foi envolvido em uma teia insensata de desrespeito a todos os direitos humanos possíveis. A destruição de praticamente todas as conquistas civilizatórias, consagradas na Constituição Federal de 1988 ganhou corpo e justificativas político-estatais, utilizando-se de distintos métodos e estratégias, a ponto de se apresentar como projeto político-governamental.

Assim, a questão de ser contra ou a favor, ou mesmo indiferente ao governo em vigor não figura importante. Não se trata de mera ideologia, portanto. O que existe, de fato, é o cenário real e dentre os atores sociais, todos nós, há aqueles que enxergam um Brasil destruído e esfacelado e os que não são capazes de visualizar isso. Os motivos desta cegueira política e social podem ser variados: navegam pela luta de classes, pela fixação ao neoliberalismo, pela adoção de mitos ou ídolos, ou mesmo aporofobia.

Podemos listar, dentre os muitos focos de destruição, os seguintes: * o abandono da premissa de um Estado laico, trazendo para o palco institucional e suas posições no Executivo, Legislativo e Judiciário, as igrejas e as crenças e seus destacados representantes clericais, para as políticas governamentais, com a nítida intenção de obtenção de vantagens eleitorais; * o desrespeito às mulheres, à comunidade LGBT+, aos doentes, aos indígenas, aos pobres e miseráveis; * devastação da natureza, seja pela não-fiscalização seja pela adoção de novos parâmetros concessórios para a exploração comercial sem precedentes de áreas de preservação permanente e ecossistemas; negação da utilidade e predominância das ciências em distintas áreas de especialização; * descaso para com a cultura, a educação, o folclore, as raízes nacionais, o turismo, deixando de apresentar qualquer nova política pública e relegando ao abandono estas áreas, quando não submetidas a interesses particulares e ideológicos bem delimitados; * adoção do negacionismo como Política de Estado, sucateando as ciências e realizando uma gestão temerária da pandemia.

Como se não bastassem estas evidências, os motivos dessa destruição são claros como a Luz. O desmonte das ferramentas de controle dos mercados, como os estoques reguladores, acarretando inflação e carestia. O abandono de políticas ambientais e novas leis que beneficiam o agronegócio em detrimento da população em geral. O sucateamento de órgãos de defesa da Amazônia, o que permitiu ao crime organizado dominar terras indígenas, trazendo destruição e morte. As políticas opostas às ações de inclusão social e que realizam o combate estatal à violência, com a liberação de mais armas, acreditando que o cidadão comum possa, por suas mãos, realizar a sua defesa e resistir às ameaças de delinquentes.

Por um caminho diferente

É por isso que, neste segundo semestre de 2022, é necessário que os espíritas assumam uma ATITUDE POLÍTICA diante da conjuntura sociopolítica e, também, em face de uma nova eleição nacional, que renovará o Executivo e o Legislativo do país e dos Estados brasileiros. Deste modo, cabem os seguintes questionamentos: entre o púlpito e o palco, qual é o real papel do ser no espetáculo da vida? Como calar-se diante das injustiças e das mazelas sociais? Como ser espírita, no mundo físico, no cenário social, sem almejar o alcance e concorrer para a efetividade da justiça social? Como não participar?

O espírita “isento”, “neutro”, distante das lutas sociais, dos debates e das ações será apenas um “pregador” com palavras e gestos simplistas e demonstrando não compreender a abrangência dos conceitos caridade, solidariedade e fraternidade. A transformação que o pensamento kardeciano preconiza passa pelo progresso individual, com o conhecimento de si mesmo, mas deve alcançar o locus social, coletivo, traduzindo-se no pensamento social espírita. Lembremos: pela omissão dos bons, a influência dos maus não recrudesce, do contrário, avoluma-se. Impossível, então, NÃO se ter na pauta espírita o debate respeitoso sobre Espiritismo e Sociedade!

Se vivenciamos, hoje, este quadro horroroso, tanto no campo econômico quanto no sociopolítico é porque todos nós somos responsáveis. Seja pelas ações ou pelas omissões; nesta e nas existências anteriores. E o ECK prefere agir e assumir um claro posicionamento ético, ousado, franco e dotado de razoabilidade, em relação aos temas mais importantes de nossa agenda social.

Deste modo, a instrução de Kardec se afigura como pontual e temporalmente oportuna para os dias da atualidade em nosso país, porque o Espiritismo se destina a combater tudo o que represente iniquidade, loucura e fanatismo.

É por isso que fazemos este sóbrio Editorial, defendendo um caminho totalmente diferente do que foi trilhado pelo nosso país, seus representantes políticos, nos últimos anos, totalmente inverso ao que preconiza a Doutrina dos Espíritos. E isto se faz urgente e necessário agora e não depois. Que trabalhemos nisto, como espíritas, nestes noventa dias que antecedem a eleição de 2 de outubro de 2022.

Conselho de Gestão do Grupo “Espiritismo COM Kardec – ECK”.

Photo by Jorge Reyna on Unsplash

Administrador site ECK

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

2 thoughts on “A importância de trilhar um caminho totalmente diferente nas eleições de 2022

  1. Totalmente concordante com o escrito. Todos nós, espíritas ou não, temos uma lúcida visão do que importa refletir, com este luminar texto.

  2. Excelente reflexão sobre a necessidade e importância da atuação dos espíritas num momento tão grave com o que estamos vivendo. Considerar que 33 milhões de pessoas passando fome seja algo normal, e abandonarmos o sentido de ser Cristão. A omissão é concordar com a agressão aos direitos básicos da convivência em sociedade.

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