Bianca Medran Moreira
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Se Jaci estava correto e sua reflexão for considerada com atenção, a grande contribuição do Espiritismo para o século XXI talvez não seja apenas reiterar princípios morais. Talvez seja oferecer evidências cada vez mais consistentes de que a consciência individual sobrevive à morte física. Isso sim mudará tudo. Não apenas para os espíritas, mas para o pensamento humano.
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A última vez que tive a oportunidade de encontrar Jaci Regis [1], em Bento Gonçalves (RS), ouvi ele reafirmar a ideia que parece central para o futuro do Espiritismo. Disse ele:
“Só a prova da imortalidade será a base de renovação social, humana e do pensamento humano e sustentará as teses da reencarnação e da evolução do Espírito.”.
Não era uma frase de efeito. Era uma tese convicta. Se a imortalidade da consciência constitui o fundamento das grandes proposições espíritas, sua demonstração deixa de ser apenas um interesse doutrinário para assumir dimensão civilizatória. Afinal, uma sociedade convencida, sem sombra de dúvida, de que a vida não se extingue com a morte física inevitavelmente reformularia sua compreensão sobre responsabilidade, justiça, educação, solidariedade e sentido da existência.
Jaci disse ainda:
“Terá que dispor de recursos e meios para provar, insofismavelmente, a imortalidade. O que implicará na renovação do exercício e dos objetivos da mediunidade, superando a fase meramente moralista e religiosa em que se situa atualmente.”.
Essa observação merece ser levada a sério. Ao longo das últimas décadas, a mediunidade foi gradativamente confinada nas instituições espíritas. Multiplicaram-se restrições e cautelas, muitas delas, evidentemente, justificáveis. O efeito, porém, foi deslocar o eixo principal. A pesquisa dos fenômenos cedeu espaço quase exclusivamente ao atendimento espiritual e, quando muito, ao estudo da edificação moral.
Não há qualquer demérito nisso. O consolo e a transformação íntima são dimensões essenciais do Espiritismo. A questão é outra: será que elas esgotam sua missão histórica?
Wilson Garcia vem chamando atenção para esse ponto. Em diferentes artigos, o autor sustenta que o movimento espírita perdeu parte de sua vocação investigativa.
De fato, Kardec não organizou apenas um sistema filosófico . Organizou, antes de tudo, um método de observação de importantes fenômenos.
Talvez seja justamente essa disposição investigativa que esteja enfraquecida.
E o paradoxo é evidente. Nunca a humanidade dispôs de tantos recursos para estudar fenômenos complexos com respaldo científico de ponta. Inteligência artificial, bancos de dados, instrumentos de registro de alta precisão, protocolos estatísticos e colaboração científica internacional oferecem possibilidades impensáveis há poucas décadas.
Se conseguirmos somar isso com grupos mediúnicos sérios, produzindo fenômenos consistentes, nunca estaríamos tão próximos de reunir documentação capaz de ampliar o debate e confirmar a sobrevivência da consciência.
Naturalmente, tecnologia não produz fenômenos mediúnicos, nem substitui a qualidade dos médiuns ou dos grupos. Mas pode contribuir muito para documentá-los, analisá-los e submetê-los ao escrutínio da ciência e dos pesquisadores das mais diversas áreas.
Por isso, causa estranheza que, justamente neste momento histórico, a mediunidade pareça cada vez mais recolhida, quando deveria representar as próprias origens do Espiritismo.
A prudência é indispensável. O sensacionalismo e a fraude sempre foram inimigos da pesquisa séria. Mas, prudência não pode significar renunciar totalmente os fenômenos e a investigação.
Se Jaci estava correto e sua reflexão for considerada com atenção, a grande contribuição do Espiritismo para o século XXI talvez não seja apenas reiterar princípios morais. Talvez seja oferecer evidências cada vez mais consistentes de que a consciência individual sobrevive à morte física.
Isso sim mudará tudo. Não apenas para os espíritas, mas para o pensamento humano.
O Espiritismo nasceu propondo uma hipótese ousada e convidando o mundo a examiná-la. Se essa disposição investigativa se perder, permanecerão a ética, o consolo e a espiritualidade. Tudo isso continuará valioso. Mas, talvez fique pelo caminho justamente aquilo que Allan Kardec teve: a coragem de investigar os fatos.
Restam, assim, as inquietações: A mediunidade está quase a desaparecer? E para que exatamente ela existe?
Se sua finalidade maior for contribuir para a demonstração da imortalidade do Espírito, então talvez o verdadeiro desafio do movimento espírita hoje não seja proteger a mediunidade do mundo, mas permitir que ela volte a dialogar com ele.
Nota do ECK:
[1] Jaci Regis (1932-2010), foi dirigente, orador, divulgador do Espiritismo, escritor, jornalista, por décadas dedicou-se à causa espírita, desempenhando inúmeros e relevantes papéis. O ECK republicou em seu Portal (link) sua biografia, assinada por Ademar Arthur Chioro dos Reis, publicada quando de sua desencarnação e, também, um texto assinado por Nelson Santos (link), sobre sua contribuição para um Espiritismo progressista, progressivo, laico, livre-pensador, humanista e genuinamente kardeciano.
Imagem de Vegard Henriksen por Pixabay




