Arlete Braglia
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Continuo acreditando que, mais do que nunca, a educação é o único caminho rumo à evolução de nossa sociedade. E, nessa toada, acredito firmemente que nós, espíritas, de qualquer cor, forma, vertente ou gênero, não podemos nos ausentar de nosso papel de denunciadores, de protetores e de educadores em qualquer meio social em que estejamos atuando.
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No cotidiano da sociedade de consumo em que vivemos, criam-se dias específicos para comemorar determinadas datas, quase sempre com o objetivo de mercantilizar alguma coisa.
Existem algumas boas exceções e o “Dia da Mulher” é uma delas. Porém, é curioso observar que quanto mais se enaltece o tão almejado empoderamento feminino, maior é o grau da violência que nos atinge, na direção contrária.
Os números diários de mulheres que são vítimas de todo tipo de violência, seja sexual, física, psicológica ou patrimonial, são expressivamente alarmantes, sendo que as recentes conquistas sediadas e construídas em nossa sociedade, pro meio da promulgação de leis que deveriam justamente nos proteger, não estão cumprindo com seu objetivo e, tampouco, estão surtindo os desejados efeitos.
Pesquisas recentes, divulgadas entre o final de 2025 e março de 2026, indicam um cenário bastante crítico acerca da violência contra a mulher no Brasil, com recordes sucessivos nos casos de feminicídio e alta prevalência de violência doméstica. Em 2025, o número de feminicídios cresceu 4,7% em relação a 2024, atingindo a aberrante cifra de 1.568 mulheres assassinadas!
Assim sendo, em 2025, o país registrou, em média, quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. Ou seja, as mulheres morrem as pencas apenas porque são mulheres. Será um problema específico das grandes metrópoles? Segundo a pesquisa “Visível e Invisível: A Violência contra a Mulher no Brasil” (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025), metade dos feminicídios em 2025 ocorreu em cidades pequenas, em municípios com até 100 mil habitantes.
Essas mortes são majoritariamente provocadas por parceiros ou ex-parceiros dessas mulheres e estima-se que aproximadamente 13% das vítimas de feminicídio em 2025 já possuíam medida protetiva de urgência quando foram mortas. Ou seja, essas mulheres foram desamparadas pelos mesmos mecanismos da justiça que deveriam protegê-las.
Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 e da pesquisa do Datafolha reafirmam em sua conclusão que a violência contra a mulher no Brasil é estrutural e apresenta um cenário de contínua escalada.
À essa altura da conversa deveríamos nos perguntar, o que raios está acontecendo com nossa sociedade? O que significa dizer que a violência contra a mulher é estrutural? Respondo que essa violência toda é o reflexo do machismo ancestral que está entranhado em nossa sociedade, onde ainda respira uma grande parcela de homens que acredita que podem exercer a supremacia sobre o corpo e a vida das mulheres com quem convivem, apenas porque são homens. Que podem usar seus corpos, matá-los ou violentá-los a seu bel-prazer porque sempre foi assim desde a era das cavernas. É apenas a eterna lei do mais forte se impondo na savana. Mas, cadê a tal da evolução?
Do ponto de vista espírita, fico pensando na hipótese dos que afirmam que a humanidade já está vivendo na era da regeneração. Logo, me pego pensando que a tal regeneração é uma ampla faixa de lutas sangrentas, que labuta no entrechoque de verdadeiras forças tectônicas, que racham o planeta entre os que desejam a evolução moral e intelectual dos seres e os que insistem em permanecer no eterno marasmo do “foi sempre assim” e seus modus operandi troglodita.
Pessoalmente, tenho focado meus esforços na educação dos jovens Espíritos de mulheres e de homens que desejam ver esse “mundo melhor” acontecendo desde agora. Porém, não tem sido fácil esse movimento, porque para cada passinho adiante, tenho encontrado entraves tiranossáuricos pelo caminho. Começando pelo esforço em contrário do discurso misógino veiculado pelos ogros de plantão nas redes sociais, que doutrinam os jovens muito mais rapidamente do que as outras mídias, suas contemporâneas. Sem falar na deseducação promovida dentro das próprias famílias ausentes, desprovidas da vontade de explicar, orientar e se preciso, acudir aos jovens que estão sob sua tutela.
Continuo acreditando que, mais do que nunca, a educação é o único caminho rumo à evolução de nossa sociedade. E, nessa toada, acredito firmemente que nós, espíritas, de qualquer cor, forma, vertente ou gênero, não podemos nos ausentar de nosso papel de denunciadores, de protetores e de educadores em qualquer meio social em que estejamos atuando.
Seja em nossa casa, no seio de nossa família ou no centro espírita ou exercendo nossa influência no trabalho que nos propomos a executar, não podemos fugir de nossa responsabilidade individual e coletiva de ajudar a “regenerar” esse velho e cansado mundo para que um dia, ele possa verdadeiramente receber a abençoada estrelinha evolucional de “regenerado”.
Até lá, mãos à obra companheiros, que a luta permanece árdua e contínua!
Fonte:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2025). “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”. 5. Ed. São Paulo: FBSP – Folha de S. Paulo.
Imagem de ImagineThatStudio por Pixabay
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