Um apelo à comunidade espírita, neste Dia da Mulher, por Bianca Medran Moreira

Tempo de leitura: 4 minutos

Bianca Medran Moreira

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O convite é, pois, a uma reflexão ainda mais grave: o problema de quando a cultura que culpa a vítima encontra eco em interpretações distorcidas da Doutrina Espírita.

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Há anos em que o calendário nos entrega o “Dia Internacional da Mulher”, como quem oferece flores. E há anos, como este 2026, em que as flores chegam murchas. Chegam com cheiro de velório.

Porque celebrar a mulher exige mais que homenagens. Exige uma rigorosa análise de consciência com a pergunta: qual tem sido o papel dos espíritas e das instituições espíritas diante da violência contra as mulheres?

Este texto é um apelo direto aos espíritas, às instituições e aos grupos espíritas. Um apelo para que não se tornem, ainda que involuntariamente, espaços de perpetuação da violência. Espaços que revestem o inaceitável com o verniz perigoso de distorcidas interpretações doutrinárias.

O Brasil apresenta índices obscenos de feminicídio. Dados oficiais do Anuário da Segurança Pública indicam: uma mulher é assassinada a cada seis horas. Pelo simples fato de ser mulher. Numa lógica de menosprezo e discriminação. Mortas, majoritariamente, por companheiros ou ex-companheiros. Dentro do espaço que deveria ser o mais seguro: o lar.

E há uma enorme cifra oculta: as subnotificações. Silêncios forçados. Muita violência que não chega ao conhecimento da delegacia, do Estado, da Justiça. Nem da própria comunidade de amigos íntimos ou companheiros espíritas.

Antes do desfecho fatal, há sempre uma escalada. Controle extremo. Humilhação. Invasão de privacidade. Vigilância das roupas. Afastamento da família e dos amigos. Chantagem emocional. Ameaças.

O feminicídio raramente é um ato isolado. Ele é o ponto final. A ponta visível de um longo iceberg de violências física, psicológica, moral e patrimonial. Nesse contexto, homenagens protocolares soam constrangedoras. Celebrar sem refletir beira a alienação. O convite é, pois, a uma reflexão ainda mais grave: o problema de quando a cultura que culpa a vítima encontra eco em interpretações distorcidas da Doutrina Espírita.

Recentemente, o país assistiu, atônito, a um caso que deveria envergonhar a todos. De uma mãe, cujos dois filhos, ainda crianças, foram assassinados pelo ex-companheiro. E ela, na dor indizível do velório, foi constrangida a dele sair. Porque parte da comunidade a responsabilizava, a despeito dos indícios, pela tragédia.

Não bastasse perder os filhos, sofreu o julgamento cruel de quem preferiu perguntar: “o que ela fez para merecer isso?” Em vez de perguntar: “como um homem tem coragem de atirar em seus próprios filhos?”

Esse episódio é um espelho. Ele reflete o perigo da estrutura. E reflete certos discursos que, ainda dentro dos centros espíritas, insistem em sustentar a desigualdade. Allan Kardec, perguntando às Inteligências Invisíveis, no item 818, de “O livro dos Espíritos”, acerca da inferioridade moral da mulher em certas regiões, recebeu, como resposta que tal inferioridade moral resultava “do domínio injusto e cruel que o homem exerceu sobre ela”, como “consequência das instituições sociais e do abuso da força sobre a debilidade”.

Depois, o próprio Professor francês, em uma dissertação contida na “Revue Spirite”, de janeiro de 1866, consignou a análise mais detalhada desta questão (“As mulheres têm alma?”) e alertou os espíritas sobre a raiz disso.

Domínio injusto. Cruel. Abuso da força. Palavras que desmontam qualquer justificativa espiritual para a violência. Desqualificar o debate sobre violência de gênero como “exagero ideológico” também contribui muito para o problema. Porque dilui sua especificidade. O feminicídio não é crime comum. É crime praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. É a expressão extrema de uma desigualdade histórica. Negar essa estrutura não elimina o fenômeno. Apenas enfraquece os instrumentos para enfrentá-lo.

Da mesma forma, romantizar o abuso é veneno. Romantizar a hierarquia, como segurança. Tratar o ciúme como prova de amor. Chamar controle de “cuidado”. Justificar agressividade como “temperamento forte”. Tudo isso normaliza os sinais da escalada violenta. A agressividade recorrente não é traço de virilidade. É sinal de desequilíbrio moral. Ponto.

Quando a sociedade transfere o foco do agressor para a vítima, a responsabilidade se desloca. A culpa se impõe. A vergonha se instala. A vergonha cala. E tudo isso protege e fortalece quem agride.

Um grupo espírita, ao oferecer atendimento fraterno, não pode, sob nenhum pretexto, reproduzir discursos que reforcem desigualdades ou culpabilizem vítimas. Não em 2026! Acreditar na imortalidade da alma não nos exonera da responsabilidade histórica. A lei de causa e efeito jamais pode ser manipulada para justificar agressões ou naturalizar sofrimentos evitáveis.

Há um equívoco antigo que precisa ser enfrentado com serenidade e firmeza: o de transformar violência em “provação”. Não! Nenhuma mulher nasce para apanhar. Nenhuma reencarna para ser humilhada. Nenhuma Lei Divina exige que alguém suporte o que lhe fere a dignidade e ameaça a vida.

Dizer a uma mulher violentada “é seu carma” beira o assédio moral. Recomendar “paciência”, diante da brutalidade, é confundir resignação com cumplicidade. Sugerir que ela “faça mais preces pelo marido”, enquanto ele a ameaça, é espiritualizar o medo. É espiritualizar o medo, é perpetuar a violência com verniz espiritual!

O Espiritismo racional não infantiliza Deus. Não sacraliza o sofrimento. O Espiritismo nunca pode ser álibi para a omissão humana.

Aqui se impõe, portanto, o apelo definitivo!

Se você ou seu grupo ou sua instituição, instado, quiser ser fiel à sua vocação ética e aos princípios espíritas, precisa ir além do consolo abstrato e não reforçar uma cultura que mata.

É preciso, pois:

  • Capacitarseus voluntários para reconhecer sinais de violência.
  • Promoverestudos sobre o tema, convidando profissionais da área jurídica e psicológica para orientar a comunidade. Principalmente falar aos homens.
  • Organizare ter ostensivamente visível uma rede de referência com contatos atualizados de delegacias especializadas, defensorias públicas e serviços de acolhimento.
  • Oferecerescuta reservada. Escuta responsável. Escuta que acolhe sem julgamento.

Se uma mulher relata ameaças, a resposta nunca pode ser apenas: “vamos fazer uma prece”.

A prece conforta, mas é preciso, também, dizer com clareza:

VOCÊ ESTÁ EM PERIGO!

A CULPA NÃO É SUA!

ISSO É VIOLÊNCIA!

VOCÊ PRECISA BUSCAR PROTEÇÃO!

É possível encaminhá-la, sem medo, à rede pública. Auxiliá-la na busca por medidas protetivas. Mobilizar apoio material e emergencial quando necessário.

Caridade é presença efetiva diante do sofrimento concreto.

Conceitos sublimes não podem ser utilizados para normalizar o inaceitável.

Que a lei de causa e efeito não seja transformada em sentença de resignação diante do abuso. Que a violência não seja vestida com a roupagem enganosa de aprendizado espiritual.

O Espiritismo nasceu para dialogar com a razão, não para adormecê-la. É preciso coragem para enfrentar, dentro de nossas casas e corações, as estruturas que ainda sustentam cumplicidades com a desigualdade.

Neste Dia da Mulher, que nossa homenagem não seja ornamento. Que seja compromisso!

Compromisso com a igualdade, que é lei natural. Compromisso com a justiça, que é equilíbrio. Compromisso com a vida, que é, obviamente, sagrada.

Porque nenhuma espiritualidade é legítima quando convive com a violência! A lei maior não está escrita em céus distantes, está gravada na consciência de em quem escolhe agir…

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Acesse aqui os conteúdos do Especial Dia da Mulher, textos produzidos por conselheiras do ECK 

 

 

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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One thought on “Um apelo à comunidade espírita, neste Dia da Mulher, por Bianca Medran Moreira

  1. Excelente. É preciso reforçar o que verdadeiramente deve ser feito dentro dos centros. Acolher não é acusar.