O misticismo quântico, Nelson Santos

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“Avançando com o progresso, o Espiritismo jamais será superado, pois, se novas descobertas demonstrarem estar em erro em um determinado ponto, ele se modificará sobre esse ponto. Se uma nova verdade se revela, ele a aceita.” Allan Kardec, em “A Gênese”, Capítulo 1, Item 55. Tradução de Carlos de Brito Imbassahy. Ed. Feal.

Desde que Max Planck, em suas pesquisas sobre o corpo escuro, tentando compreender a energia irradiada pelo espectro da radiação térmica, chegou a algumas conclusões que balançaram os princípios da física clássica, nascia a física ou mecânica quântica, trazendo novos conceitos, como a não localidade. Teoria essa que seduz por apresentar outra possibilidade de representação do mundo.

A carência espiritual, a busca de um sentido existencial, propiciou, então, um modismo e um mercado que passou a ser adotado por artistas, economistas, médico, psicólogos, advogados, palestrantes e, até mesmo, físicos e personalidades espíritas e espiritualistas. Estes se apropriaram do termo “quântico”, em suas produções literárias, preleções e palestras e, em algumas destas, metaforicamente, mas, ainda assim, indevidas; entretanto há, também, desvios que criando misticismos, buscam uma validação científica, apropriando-se indevidamente de conceitos da teoria quântica para construir uma base de demarcação científica e uma justificação, usando conceitos filosóficos e históricos para suas justificativas discursivas.

A questão do misticismo quântico está de muitas formas ancorada no contexto daquilo que chamamos de representação social do conhecimento científico: uma apropriação cultural, uma transposição do conhecimento científico para outro contexto. As divulgações, científicas ou não, são de uma forma geral transposições de um saber para outro saber. Colocada desta forma, toda transposição é uma apropriação do conhecimento, daquilo que este conhecimento representa para o seu contexto, em níveis distintos e com diferentes propósitos.

Reinterpretações e ressignificações constituem, portanto, um sério problema se não forem devidamente contextualizadas, histórica e filosoficamente. A transposição provoca distorções nas interpretações da chamada teoria científica. Exemplos que encontraremos fartamente em Fritjof Capra, Amit Goswami e Deepak Chopra, autores estes, que se tornaram gurus de uma forma de apropriação e transposição da física quântica entre os místicos, porquanto estabeleceram, com suas atitudes, outras possibilidades de entendimento e interpretação dos fenômenos quânticos.
Eles e muitos outros deslumbram e causam comoções nos incautos e desavisados, porque se utilizam de um embasamento pseudocientífico, descortinando ficcionalmente, um novo saber, uma nova compreensão. Açambarcar de tal forma os que se deixam por isto seduzir, que não há quaisquer contestações. Contudo, suas “teorias” ou “falas” não resistem a uma análise mais profunda e criteriosa. A mítica dos ensinos quânticos espiritualistas é vazia!

Deste modo, temos, na ambiência dita espírita, muitas reinterpretações ou ressignificações da física quântica em suas proposições teóricas. Há fartas exemplificações, em publicações ou artigos como: o bóson de Higgs ou a Partícula de Deus, como ficou erroneamente conhecida, a matéria e o fluido cósmico universal; os mecanismos quânticos na mediunidade; o períspirito e a flutuação do vácuo quântico; o espaço tempo negativo e o mundo espiritual; e assim por diante.

Ainda que os ditos fenômenos quânticos tenham (e ainda têm) causado perplexidade na comunidade científica, por demonstrarem uma verdade ilusória, tal não significa que se esteja admitindo a existência do extrafísico, do imaterial, do transcendental, ou do espiritual; seus estudos estão (e permanecem) apenas no campo da matéria.

Que se louve o esforço em produzir artigos para a ciência espírita. Mas, grande parte dos que têm sido veiculados, carecem de pesquisas e estudos, sejam científicos ou doutrinários, que apontem para conclusões acerca da fenomenologia quântica e de sua aplicação perante o Espiritismo. Eis o que, sempre, devemos observar.

Como bem definiu Kardec, em “O que é o Espiritismo” (Trad. Salvador Gentile, Ed. Ide):

“As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria que se pode manipular à vontade, e os fenômenos que ela produz têm por agentes as forças materiais. Os do Espiritismo têm por agentes inteligências independentes, que têm seu livre-arbítrio e não estão submetidas aos nossos caprichos. Eles escapam, assim, aos nossos procedimentos de laboratório e aos nossos cálculos, e, desde então, não são mais da alçada da Ciência propriamente dita” (Capítulo I, Pequena Conferência Espírita. Segundo Diálogo – O Cético. Oposição da Ciência).

E, ainda:

“Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática consiste nas relações que se podem estabelecer entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem de tais relações” (Preâmbulo).

Portanto, a ciência é teoria da matéria, o Espiritismo é a ciência do Espírito. Devemos, destarte, guardar cautela.

Deixo, à guisa de encerramento, a máxima de Kardec:

“Na ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem prudente” (“O livro dos Espíritos”, Introdução. Item VII – A Ciência e o Espiritismo. Trad. José Herculano Pires. Ed. Lake).

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