Marcelo Henrique
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O Espiritismo precisa prosseguir e assumir seu papel de efetivo agente transformador de consciências, para além das crenças…
O Espiritismo é uma ciência de raciocínio, não de mera credulidade!
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Volta e meia me pego folheando a “Revue Spirite” — o jornal de estudos psicológicos, o primeiro periódico espírita do mundo, publicado em fascículos mensais, de janeiro de 1858 a abril de 1869 [1] —, este inextinguível manancial de conhecimento espírita-espiritual, verdadeiramente o grande “laboratório” das pesquisas de Kardec nos últimos tempos de seu trabalho, tanto de Inventor, Coordenador e Diretor do Espiritismo nascente, quanto como Comunicador (Jornalista) espírita.
Tempos atrás, vislumbrei outra “redescoberta” (porque li e estudei a revista em vários momentos destas quatro décadas e meia em que sou espírita, desde 1981). Ela figura no trecho a seguir, contido no artigo “O livre pensamento e a liberdade de consciência”, publicado na edição de fevereiro de 1867 (nossas marcações):
“O livre pensamento, na sua acepção mais ampla, significa: livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; ele simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; ele não quer mais escravos do pensamento do que escravos do corpo, porque o que caracteriza o livre pensador é que ele pensa por si mesmo e não pelos outros, em outras palavras, que sua opinião lhe pertence particularmente. Pode, pois, haver livres pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre pensamento eleva a dignidade do homem; dele faz um ser ativo, inteligente, em lugar de uma máquina de crer.”
É neste último destaque que centro o meu “poder de fogo” neste ensaio: a premente necessidade dos espíritas assumirem sua condição de livre-pensadores, tornando-se mais dignos, ativos, inteligentes e repelindo a condição pessoal de (apenas) serem “máquinas de crer”.
As tais “máquinas” estão por aí, aos montes… Mesmo admitindo o Espiritismo — como a teoria espírita o faz, baseada num ou noutro texto de Kardec e/ou dos Espíritos que com ele partilharam os escritos da Filosofia Espírita —, a expressão “fé raciocinada” para designar o “tipo” de fé ou crença de que partilhariam os espíritas, expulsando, de pronto, os dogmas e a cegueira da fé pela fé, da crença em fatos sobrenaturais ou “mistérios”, é preciso ter uma enorme cautela para não confundir “alhos com bugalhos”. Explico.
O mais comum é vermos gente (e bota gente nisso!) dizendo-se “crente espírita”, batendo no peito para “assumir-se” religioso, defendendo com unhas e dentes o aspecto (ou caráter) religioso da Doutrina Espírita. E quando assim agem, não é para defender o seu direito de expressão de religiosidade (afinal, cada um de nós, em maioria a tem e a manifesta de maneira muito peculiar, nos mínimos atos e fatos da existência), mas para “reduzir” a proposta espírita para o conteúdo daquilo que os Espíritos “superiores” teriam ditado a Allan Kardec (ou, ainda, chancelam outros Espíritos da chamada “mediunidade à brasileira”, formada por autores e médiuns que não foram submetidos à aferição do que escreveram, em cotejo com os fundamentos da Doutrina Espírita, passando a ser aceitos tacitamente e elevados à categoria de “obras complementares”). Ou seja, transformam os livros espíritas em obras sacralizadas, quase-bíblias!
Assim, para o Espiritismo “tradicional”, o chamado movimento majoritário (“mainstream”), nenhuma linha daquilo que Kardec apresentou — de sua lavra ou contando com a dicção dos desencarnados — está “desatualizado”, “impróprio”, “indevido” ou carece de modificação. Nenhum! Com isso, o conjunto das obras de Kardec (trinta e duas, conforme aponta o ECK [2]) se transformou, com o tempo, em algo estático, inquestionável, irrefutável e dogmático. Consequentemente, quando se afirmam erros ou pontos que ficaram defasados ou desatualizados em face do progresso das Ciências e da Humanidade, tais espíritas “torcem o nariz” e até vociferam contra os que se manifestam neste sentido [3]. Eis aí, fundamentalmente, o maior DOGMA ESPÍRITA.
Dizem os “federados” espíritas [4] que, caso – repito caso, no sentido de, para eles, ser uma “possibilidade distante ou remota” — haja algo que precise receber uma “melhor definição” ou “complementação”, os próprios Espíritos “superiores” tratarão de encaminhar a resolução, já que a “obra” não caberia aos “pobres mortais”, aos encarnados, mas, tão-somente a um “missionário” do “calibre” do próprio Kardec. E falam isso com uma assustadora naturalidade que mais parece um desdém em relação ao papel de cada uma das inteligências (nós!) que, por afinidade e despertamento, têm se aglutinado em torno da proposta espiritista — isoladamente ou mediante a participação em entidades associativas de distintos matizes —, todas adjetivadamente espíritas, como a creditar única e exclusivamente aos desencarnados qualquer papel na construção de um mundo melhor.
Ou, então, eles mesmos, os adeptos “desse” Espiritismo, é que definem quais os “missionários” que eles acreditam ter sido designados pelo “Plano Espiritual” para, com novas obras psicografadas, serem os continuadores ou complementadores da obra kardeciana. A “titulação”, neste caso, é tanto para os Espíritos comunicantes quanto para os médiuns, razão pela qual, de pronto, se tem uma definição de superioridade moral indiscutível, a infalibilidade da pessoa e dos seus escritos e o reconhecimento tácito de todos os demais espíritas, acerca dessa condição de “emissário do Alto”.
Tudo isto bem distante do método de Kardec!
Curioso é que estes mesmos companheiros têm se levantado para repetir uma outra afirmação, agora de León Denis, considerado o principal seguidor-continuador de Kardec na França da Doutrina nascente. Denis afirmou que “o Espiritismo será o que os homens dele fizerem”. Esta frase não pode ser interpretada apenas no sentido usual, de tais espíritas, no sentido de desacreditar a atuação humana, de encarnados, perante o Espiritismo. Opostamente a isso, ela é, verdadeiramente, um chamado para a participação efetiva dos espíritas no processo de consolidação das idéias espiritistas em nosso orbe. Eis, aí, então, uma marcante contradição! Porque, para eles somente alguns “eleitos” podem realizar a tarefa. Nós, do contrário, entendemos que a tarefa é de todos aqueles que se dediquem a estudar, continuar dialogando com as Inteligências Invisíveis, apresentar teses, realizar debates em verdadeiros congressos e materializar a progressividade dos conceitos espíritas, como desejou e orientou Allan Kardec.
Para romper com este cenário e esta rotina, faz-se necessário que os espíritas não sejam “máquinas de crer”, despindo-se de preconceitos e ideias — muitas delas semeadas e plantadas no movimento, à feição de uma neo-seita cristã — observando e praticando a lógica racional que foi apresentada por Kardec e por ele executada naqueles doze anos de direção do Espiritismo nascente.
O percurso dos espíritas contemporâneos inclui evitar considerar como infalível e definitivo o conteúdo das obras fundamentais de Kardec, uma vez que, ao contrário do que muitos dos ditos espíritas entendem, exceto no que tange aos princípios fundamentais [5], se lhe atribuem os espíritas desavisados, estaria submetido à maturidade temporal, à evolutividade dos conceitos e à necessidade de adequação de linguagem, contexto e proposta aos “novos tempos”, que sucederiam os antigos, na marcha inexorável da vida.
Eu, sinceramente, quero distância da chamada e decantada crendice espírita! Ela até pode ser útil às pessoas que, recém-ingressas, ainda guardam uma série de condicionamentos e posturas derivadas de outras religiões e seitas, mas que, aos poucos, isto vai cedendo lugar à conscientização de que o conteúdo doutrinário e a religiosidade interior sublimam e suplantam as exterioridades das manifestações materiais da fé. O Centro Espírita deve ser um lugar de produção espiritista, de discussão, de debate, de revisão do próprio pensamento espírita — o original, que tem a “marca” do homem Rivail em tudo e por tudo, como o subsequente, passando pelos “clássicos”, os cientistas, os filósofos, os médiuns, até chegar aos estudiosos de nosso tempo. Ou seja, toda a produção espiritista do início do século XX para cá, que deve ser colocada em cotejo com a obra originária (Kardec), sob constante avaliação e mediante investigação comparativa e prospectiva. Nada escapa da análise, da perscrutação objetiva, da crítica construtiva, num trabalho (até hercúleo, mas) necessário dos espíritas deste e dos tempos vindouros.
Precisamos, enfim, fazer a parte que nos cabe! Precisamos parar de deixar “para os outros” as tarefas que nos competem e, ainda assim, carecemos de nos libertar das peias, das amarras, dos condicionamentos que alguns “líderes” do passado e do presente provocaram em nós: a aceitação de pseudoverdades que eles acalentaram, pela limitação que compete e é particular a cada alma, a de conceber o mundo conforme seus olhos, estabelecendo verdades absolutas. É preciso dar o próximo passo, para descobrir a existência de outras abordagens, outros pontos de vista, outras constatações, talvez — e, muitas vezes — mais conformes, lógicas e úteis.
Então, é hora de bradar: Espíritas, parem de ser meras máquinas de crer! Transformem-se, como exorta o inesquecível Mestre Rivail, na roupagem de Kardec, em individualidades dignas, ativas e inteligentes. O Espiritismo precisa prosseguir e assumir seu papel de efetivo agente transformador de consciências, para além das crenças… Ou, como o próprio Codificador afiançou, com a autoridade que possuía, não por títulos ou por posições terrenas, mas pela execução direta do trabalho espírita: O Espiritismo é uma ciência de raciocínio, não de mera credulidade!
Notas do Autor:
[1] A revista foi publicada por Kardec entre janeiro de 1858 e abril de 1869. Este último fascículo foi entregue, pelo Professor francês à editora, no mês anterior (março). Estava pronto e seria lançado no dia primeiro de abril. Lamentavelmente, Kardec desencarnou em 31 de março de 1869 e os seus continuadores lançaram o exemplar de abril e, depois, outros colaboradores da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas assumiram o encargo, com Pierre-Gaëtan Leymarie, na condição de redator-chefe e diretor. Lamentavelmente, este personagem foi um dos responsáveis (senão o maior) pela interpolação de ideias estranhas e contraditórias em relação à principiologia espírita, como pode ser observado em artigo publicado neste Portal (vide referência completa, abaixo): “A publicação de matérias teosóficas e o contato com autores como Annie Besant criaram a percepção de que o Espiritismo estava sendo misturado a correntes espiritualistas de forte caráter místico e esotérico, incompatíveis com o método racional e observacional proposto por Kardec. […] Pierre-Gaëtan Leymarie ocupa um lugar ambíguo na história do Espiritismo. Não se pode negar seu esforço inicial para dar continuidade ao trabalho de Allan Kardec, preservando documentos, mantendo a “Revue Spirite” ativa e promovendo a divulgação internacional da Doutrina. Por outro lado, seus desvios doutrinários, equívocos administrativos e o envolvimento involuntário — mas desastroso — em “O Processo dos Espíritas”, produziram consequências graves. A exposição pública de Amélie Gabrielle Boudet trouxe ainda maior repercussão negativa e simbolizou a fragilidade institucional do movimento francês” (Mollo, 2025).
[2] Para conhecer quais são as 32 obras de Allan Kardec, acesse o documento ECK, disponível em: <https://www.comkardec.net.br/as-32-publicacoes-de-allan-kardec-arquivo/>. Acesso em 31. Jan. 2026.
[3] Curioso é que o próprio Kardec enunciou e recomendou aos espíritas que lhe seguissem, a atenção em relação aos avanços científicos, conforme escreveu em “A Gênese”, Capítulo I, Item 55, “in verbis”: “Avançando com o progresso, o Espiritismo jamais será superado, pois, se novas descobertas demonstrarem estar em erro em um determinado ponto, ele se modificará sobre esse ponto. Se uma nova verdade se revela, ele a aceita” (Kardec, 2018:71).
[4] Neologismo de minha autoria. Federados representam aqueles espíritas vinculados a instituições espíritas que são filiadas às federativas estaduais, as quais, por sua vez, integram o Conselho Federativo Nacional (CFN) da Federação Espírita Brasileira (FEB). A expressão pode ser ampliada para alcançar, também, espíritas ligados a entes associativos que não estejam vinculados às federativas, assim como espíritas “independentes”, isto é, que não participem de centros espíritas.
[5] A par de muitas classificações existentes, quanto aos princípios fundamentais do Espiritismo, o ECK também delimita, na principiologia espírita, em número de sete, os seguintes: 1) Divindade (Deus), 2) Espiritualidade (Espírito), 3) Transcontinuidade (Reencarnação), 4) Transmutabilidade (Progresso), Pluralidade 5) das Existências e 6) dos Mundos Habitados); e, 7) Transcomunicabilidade (comunicação entre os Espíritos, encarnados e desencarnados).
Fontes:
Kardec, A. (1993). “Revue Spirite”. Trad. Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. Araras: IDE.
Mollo, E. Um obscuro personagem: Pierre-Gaëtan Leymarie – Entre a continuidade e as controvérsias do Espiritismo na França pós-Kardec. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 24. Nov. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 31. Jan. 2026.
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