Evandro Oliva
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A Doutrina Espírita, desde o fim do Século XIX, nos ensina que o Espírito não tem sexo, mas tem escolhas – e o caminho para o progresso espiritual, intelectual e moral, passa necessariamente pelo AMOR.
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Neste exato momento, entre turbulências de um voo num dia quente, escrevo essas breves linhas, ainda profundamente impactado com a peça “Um pequeno incidente” [1], escrita por José Pedro Peter, com direção de Marco Antônio Pâmio, tendo como protagonistas Rafael Primot e José Pedro Peter. que assistimos em São Paulo neste fim de semana.
Sem dar “spoilers”, a peça versa sobre dois homens de personalidades diferentes que se encontram em uma sala de espera de um posto de saúde, aguardando o resultado de um teste de HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana [2]). Durante a espera, um “incidente” inesperado os une e estabelece um forte vínculo entre eles. A peça explora a solidão, o medo e o preconceito associados ao HIV, ao mesmo tempo que promove temas como afeto, empatia e a busca por aceitação em um mundo complexo.
Já vivi muito essa sensação de “faca na garganta” aguardando resultados de testes de HIV, em época que não existia a PrEP (a chamada “Profilaxia Pré-Exposição”, um medicamento que previne a infecção pelo HIV [3]) ou a PEP (a “Profilaxia Pós-Exposição de Risco à Infecção [4]) é uma medida de prevenção de emergência que deve ser utilizada após uma situação de possível exposição ao HIV), e que depois de um longo relacionamento de nove anos também havia descoberto traições em série – exatamente como um dos personagens.
A trama se confunde com minha experiência, porque, também eu havia, num certo período da minha vida, ficado tão desestruturado emocionalmente como o outro personagem, numa insaciável busca desenfreada por encontros, cada dia com uma pessoa diferente e, “quase sempre”, me protegendo de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
Devo dizer, então, que me senti profundamente tocado pelo enredo, tanto que me vi representado em ambos as personagens.
HIV e Sida no Brasil
Penso, por isso, nos incontáveis dramas vividos por pessoas, de todos os gêneros (cis ou trans) ou até os agêneros, de todas as condições sexuais (hétero, bi, homo, etc.), que enfrentam as incertezas angustiantes de estarem ou não com o temido HIV, e/ou de terem desenvolvido a SIDA – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – “Acquired Immunodeficiency Syndrome” (AIDS).
É necessário dizer que os homens constituem o principal grupo afetado pela infecção do HIV no Brasil, inclusive com tendência de crescimento nos últimos dez anos. Nos dados oficiais, conforme um artigo de 2020 [5], os homens heterossexuais representam 49% dos casos, os homossexuais 38% e os bissexuais 9,1%. Também está disponíveis as estatísticas sobre HIV/AIDS, em dados do Ministério da Saúde [6].
Um parênteses se torna necessário, neste ensaio: HIV é o vírus e AIDS é o conjunto de doenças (a chamada síndrome), ou seja, o que o vírus causa. Quem tem AIDS tem HIV, mas quem tem HIV pode ou não ter AIDS (e se tomar a medicação, nunca terá).
Hoje, com apenas um único medicamento diário, fornecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é possível conviver com o vírus em cargas tão baixas que fica indetectável nos testes. Isso significa que, portadores de HIV não transmitem o vírus mesmo fazendo sexo sem proteção. Mas, atenção: outras ISTs sim, são transmitidas, o que não dispensa jamais o uso de preservativos!
Profilaxias
Os avanços medicamentosos permitiram a existência das PrEPs e PEPs, que são métodos de prevenção do HIV, mas com finalidades distintas: a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é para quem está em risco contínuo e deve ser usada antes do possível contato com o vírus; a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) é uma medida de emergência para ser iniciada após uma exposição de risco e tem o prazo máximo de 72 (setenta e duas) horas para começar. Ambas protegem contra o HIV, mas não contra outras ISTs, e são oferecidas gratuitamente pelo SUS.
Mas, repetindo: outras ISTs continuam se proliferando. Como geralmente não são fatais e tratáveis, as pessoas costumam se arriscar – somente os preservativos protegem realmente contra todas as iSTs.
A realidade como ela é
Vivemos tempos marcados por menos preconceitos com aqueles que têm HIV – ainda existente no cenário da vida física em face da ausência de políticas e ações de educação sexual nas escolas e nas comunidades, inclusive por campanhas governamentais amplas, além, é claro, de estigmas religiosos.
Informalmente, todavia, é de se destacar a contribuição prestada por muitos influenciadores nas redes sociais que, portadores do HIV, não se escondem e “dão a cara pra bater”, em canais mantidos no YouTube, no Instagram e no TikTok. Prestam, assim, uma importante contribuição para o esclarecimento público, ao tratarem das situações do cotidiano, em linguagem acessível a todos. Ao final, deixo alguns links que podem ser acessados e/ou divulgados [7].
Com isso, o horror vivido nas décadas de 80 e 90 vai ficando tão-somente como um distante pesadelo.
Com os avanços das pesquisas clínicas, já existem até casos de remissão completa do vírus em muitos pacientes ao redor do mundo, o que caminha para a condição de uma futura (esperamos, breve) cura para o HIV. Assim como ocorre em tratamentos para doenças crônicas (como diabetes, colesterol, pressão alta, etc.), que (ainda) não têm cura, mas em que já há o controle dos efeitos negativos, o mesmo acontece com os portadores do vírus HIV, com os indivíduos convivendo com ele inativo no corpo, desde que se tome a medicação diária e se faça acompanhamento periódico, com médicos.
Uma outra cura necessária
Se já se avizinha a cura para o HIV, não existe cura para o preconceito, egresso de gente infeliz e julgadora, que se acha melhor que os outros. Muitas, geralmente, do alto de seus púlpitos religiosos ou não, apontam o dedo para pessoas (geralmente LGBTQIAPN+), os chamando de “sodomitas” (em alusão ao texto bíblico contido no Gênesis: 19). Demonstram, assim, uma clara ignorância acerca da verdadeira interpretação da passagem bíblica, que se refere à crueldade de pessoas de mau caráter, que viviam em Sodoma e Gomorra, portadoras de baixíssimos valores morais.
O que a Doutrina Espírita, desde o fim do Século XIX, nos ensina é que o Espírito não tem sexo, mas tem escolhas – e o caminho para o progresso espiritual, intelectual e moral, passa necessariamente pelo AMOR.
Assim, desejamos que nossas irmãs e irmãos, hoje portadores do HIV, possam ser sempre acolhidos, sem julgamentos, e amados em plenitude: como todos devemos e merecemos! Mesmo diante de pequenos ou grandes incidentes, mas com acolhimento e empatia!
Notas do Autor:
[1] Maiores informações sobre a peça, disponíveis em: 1) <https://www.instagram.com/umpequenoincidente?igsh=MzRlZnk1azdrejgz>; e, 2) <https://infoteatro.com.br/peca/um-pequeno-incidente/ >. Acesso em 01. Dez. 2025.
[2] Informações detalhadas sobre o HIV-AIDS são disponibilizadas no sítio do Ministério da Saúde, em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/aids-hiv>. Acesso em 01. Dez. 2025.
[3] O Ministério da Saúde disponibiliza informações a esse respeito em: <https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/prep-profilaxia-pre-exposicao/prep-profilaxia-pre-exposicao>. Acesso em 01. Dez. 2025.
[4] Informações do Ministério da Saúde do Governo Federal podem ser encontradas em: <https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/pep-profilaxia-pos-exposicao-ao-hiv>. Acesso em 01. Dez. 2025.
[5] Artigo da “Scimago Institutions Ranking”, disponível em: <https://www.scielo.br/j/csp/a/xDFFhtkF89JM65GDhWwTHPj/?format=html&lang=pt>. Acesso em 01. Dez. 2025.
[6] Informações das Nações Unidas, com dados do Ministério da Saúde são sempre atualizadas no endereço: <https://unaids.org.br/estatisticas/>. Acesso em 01. Dez. 2025.
[7] Canais dos Influenciadores: 1) Evandro Manchini (<https://youtube.com/@evandromanchini?si=8QW1vHUjcWRp3KBn> e <https://www.instagram.com/evandromanchini?igsh=dWw1aTU3dGU5c3Zi>);
2) David Oliveira (<https://youtu.be/pb764oMwEQE?si=BUkJoOvtVrOXrxrE> e <https://youtu.be/eAYixtWGfeA?si=Cnz_RzaT7AhdTgQF>); 3) Vitor Ramos
(<https://youtu.be/hFFcWXM6H9M?si=q7R2W9Tpj9Upxb-L> e <https://www.instagram.com/_xramos?igsh=MXBka2kyNnZnbDRyeg==>); 4) Jéssica Mattar (<https://www.instagram.com/jess.mattar?igsh=MTlva21uZzByemVkeg==>); 5) Vanessa Campos (<https://youtu.be/4RtXgnmKrAE?si=9QUMWuNJSdR4DX3o>); 6) Thaís Renovatto (<https://youtu.be/5SDzBHjKNNg?si=GDrsQya-06U6Y3Yv> e <https://www.instagram.com/thaisrenovatto?igsh=MW1peTdiYm5tOWs2Yg==>); 7) Histórias de ter.a.pia (<https://youtu.be/ac9ir_CmjA4?si=UKuSvUzpCFdqc1Al>); e, 8) Agencia de notícias de AIDS (<https://www.instagram.com/agenciaaids?igsh=MWtkYjVheHlxZmFlYg==>).





Que texto esclarecedor e emocionado. Informações importantes e uma realidade que nos acompanha desde a década de 80, onde vi muitos irem embora diante de nós e não conseguíamos fazer nada, exceto amparar. Infelizmente o que perdura é o preconceito e a ignorância, arrastados por um conservadorismo tacanho.