Caracoles! O otimismo geopolítico respirando por aparelhos: e a nossa posição como espíritas nesse admirável mundo novo, por Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 16 minutos

Marcelo Henrique

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Diante da ditadura chavista, tanto quanto em face da espúria e ilegal invasão norte-americana na Venezuela, esperamos ultrapassar, logo, o “tempo” em que subsistam os argumentos “ad hominem”, que conduzem a análises parciais e ideologicamente formatadas, ainda que não se espere, para este quadrante humano, ausência de ideologias. Não é mais tempo dos espíritas sensatos serem surdos! Porque eles precisam tomar a dianteira e contagiar os demais, espíritas ou não, influenciando no progresso.

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“Os bons Espíritos que vos assistem vos dizem todos os dias as mesmas coisas, mas julguei um dever apresentá-las em conjunto, para melhor ressaltar as suas consequências. Venho, pois, em nome deles, lembrar-vos a prática da grande lei de amor e de fraternidade que em breve deverá reger o mundo e nele fazer reinarem a paz e a concórdia, sob o estandarte da caridade para com todos, sem acepção de seitas, de castas, nem de cores”

Allan Kardec

(“Viagem Espírita em 1862”, “Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux”, Item III).

 Introdução

Antes de mais nada, Feliz Ano Novo! Esta expressão, repetida à exaustão no trânsito do calendário humano, de um para outro ano, é a mais vívida e franca expressão da esperança. E é ela, a esperança, a única referência para aqueles que se encontram “no” ou “a” caminho. Esperançar, como disse o educador Paulo Freire, simboliza a ação, a luta e a construção de uma realidade melhor, para todos!

Todavia, muitos dos personagens principais do enredo da vida físico-material, os humanos, parecem não estar dispostos a contribuir nem com um ano novo feliz, nem com a melhoria dos habitantes do planeta azul.

Pois, para quem gosta de acordar cedo no final de semana, o pioneiro sábado de 2026 (dia 3 de janeiro) nos brindou com uma cena que os seres atualmente encarnados nunca viram: os Estados Unidos bombardeando e invadindo um país fronteiriço ao Brasil, a Venezuela.

Crônica de uma “morte” anunciada

Voltando algumas semanas — quiçá meses — no tempo, esta tragédia já tinha sido cantada (verbalizada) pelos invasores, ávidos por “fazer justiça com as próprias mãos” (será?) diante da realidade que alcança todo o mundo nestes tempos sombrios dos dois últimos séculos: a drogadição e a violência correlata. Mas terá sido essa, realmente, a motivação? E ela faz sentido e “autoriza” uma medida extrema como essa? Veremos…

O fato é que a captura, o sequestro e o cárcere imposto ao presidente constitucional da Venezuela (ainda que se conteste, como nós e todos os países democráticos o resultado da controversa e possivelmente fraudulenta eleição de 2024), para seu futuro e consequente julgamento (?) em território estrangeiro (os EUA), não podem ser relativizados, sob qualquer hipótese. Trata-se de uma transgressão perante a ordem internacional, que não encontra qualquer substrato em normas regentes da diplomacia e das relações entre Estados independentes, desde o final da Segunda Grande Guerra (1945).

Também é notório que esta tipologia estadunidense não é inédita, nem na América Latina, nem em outras partes do mundo, e sempre que os EUA resolvem “arregaçar mangas” (ainda que as vestes militares não consagrem a exposição de punhos e antebraços) — leia-se empunhar armas (estas, cada vez mais especializadas, tecnológicas e operadas, inclusive, à distância, como drones). Sempre que há algum “conflito de interesses”, os norte-americanos costumam avocar para si — ilegalmente — a condição de juízes e algozes. Não precisamos listar, aqui, os muitos derramamentos de sangue e as execuções de ditadores ou tiranos de diversos países, nestes quase setenta anos do Acordo de Paris (Tratado de Paz de 1947). Todos eles com “alegações de paz”, mas envolvendo a belicosidade, a sangria violenta e a deposição de representantes locais para nacionais coniventes ou interventores alienígenas, em total revelia aos poderes locais constituídos — que não se resumem aos Chefes de Estado e/ou de Governo, caso a caso. Por detrás de tudo isso, um fundamentalismo político que pode (ou não) estar associado a outro, de cunho religioso [1].

Imagem de André Santana por Pixabay

Se havia, da parte de alguns (ou muitos) uma dúvida se a intervenção americana em terras venezuelanas realmente chegaria às vias de fato, a dúvida virou certeza, mas dela decorre uma outra, ainda maior, e que nos assola e consome, que é aquela derivada das enormes incertezas sobre o futuro nosso continente e do próprio planeta, neste período de (indefinido) “day after” após o (ainda não denominado) ataque a Caracas. As mesmas incertezas em relação ao rechaço estadunidense a essa República Bolivariana podem alcançar outros países da América Latina, como Colômbia e Cuba, por exemplo, uma vez que ambas possuem “requisitos” similares aos que “justificaram” o funesto acontecimento que é sede deste ensaio. Assim, se sucedem várias ações dos EUA no tabuleiro mundial, sem considerar que, do “outro lado” também há peças de xadrez tão (ou mais) relevantes! [2] [3]

Esse é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante!

Entramos, assim, em 2026, diante de um mundo que mais parece um condomínio onde (quase) ninguém se entende e que, dia após dia, tem “tretas” entre moradores, que começam a se estranhar com farpas e piadinhas e os mecanismos mediadores deste condomínio se mostram cada vez mais inócuos e ineficazes.

Daí o refrão de “O Teatro dos Vampiros” (1991), da banda brasiliense “Legião Urbana” ser oportuno e real para identificar a sanha que preside as ações do (até então) maior país do mundo, os Estados Unidos!

Vivemos, pois, um tempo histórico de redesenho de forças, de absoluta falência do multilateralismo e da ascensão de ideais autoritários que indicam o aumento da belicosidade intra e inter nações. Tortuosos caminhos que conduzem a mais guerras, nas mais variadas dimensões que essa se apresenta nos tempos modernos, seguidamente batizada como híbrida, “light” ou denominações similares.

E em sendo guerra, em qualquer de suas modalidades, ela arrasta os contemporâneos cavaleiros do Apocalipse, pois que proliferam a morte, a doença e a fome, ao mesmo tempo em que afastam do cerne das preocupações o ideário de um mundo melhor, mais plural e inclusivo, com a centralidade na promoção da Saúde, da Educação e da Efetiva Qualidade de Vida.

Indignação seletiva? Não, mesmo!

Mas é preciso, ainda, não perder o norte do completo repúdio, não só em relação a esta extemporânea, injustificada e ilegal invasão americana à soberania venezuelana, como a outros fatos — alguns longevos — que caracterizam não só o ambiente latino-americano quanto a própria ambiência planetária. E é essencial que os espíritas, distantes de paixões ideológicas materialistas, enviesadas por preferências de parte a parte, não sejam signatários daquilo que nós, do ECK, chamamos de “indignação seletiva”.

Esta seletividade está marcante no “episódio Venezuela”, quando se levantam vozes APENAS para bradar contra a injusta captura do Chefe de Estado e de Governo da República Bolivariana da Venezuela. Tais bocas (e mentes) têm se mostrado silentes em relação à própria ditatura chavista e, mais particularmente, diante da apontada fraude eleitoral de 2024, quando, diante de um quadro apuratório que, no patamar de 40% (quarenta por cento) dos votos apurados, em 28 de julho de 2024, que consagrava, àquele momento, a acachapante vitória da oposição, com o candidato Edmundo González superando a Nicolás Maduro por 72 (setenta e dois) a 27 (vinte e sete) pontos percentuais. Diante disso, a autoridade eleitoral venezuelana, sob domínio da ditadura chavista declarou que o sistema eleitoral havia sido “hackeado”, originário da Macedônia do Norte! [4]

 O ECK, então, se afasta da tal indignação seletiva para: 1) reiterar seu posicionamento natural, consoante a principiologia espírita, de defesa da democracia como sistema político e forma de governo que mais se aproxima do IDEAL para a ambiência terrena, no âmbito de um mundo de provas e expiações, denunciando toda e qualquer forma de agressão ao mesmo — incluída, aí, a (apontada como fraudulenta) eleição que manteve Maduro como presidente da Venezuela; 2) pugnar pela utilização de canais diplomáticos e de conversação permanente, entre povos e os Estados que os representam, com a necessária participação de interlocutores independentes e o acompanhamento de entes internacionais, como organismos e blocos; 3) rechaçar completamente as ações da gestão norte-americana ou de qualquer outro país, em solo venezuelano, contrárias à independência e soberania daquele país (como de qualquer outro, em situações análogas); e, 4) atuar, material e espiritualmente, pela paz global, pela fraternidade e pelo progresso planetário e espiritual.

 Sem este compromisso permanente, que se vincula ao genuíno ideário espírita, que é kardeciano, laico, humanista, progressivo e progressista, livre-pensador e ético, que avalia toda e qualquer ação humana, individual e/ou coletiva, sob qualquer denominação/vinculação ideológica ou político-partidária, de esquerda, de centro ou de direita, não há a necessária independência para a submissão dos fatos às balizas espiritistas. E, portanto, qualquer análise resta comprometida.

O que se espera dos espíritas

É preciso pontuar o que se espera, então, dos espíritas diante deste quadro planetário.

O ECK condena a intervenção político-militar de qualquer país sobre outro, bem como o financiamento bélico-armamentista a qualquer nação, e, por outro lado, e não dissociado disto, também condena a utilização de meios espúrios, injustos e ilegais de desfiguração das eleições, periódicas, democráticas e livres, como consagram a imensa maioria dos Estados terrenos, solidarizando-se com os povos que sofram ou venham a sofrer quaisquer ameaças ou golpes (tentados ou efetivados) contra sua democracia e/ou soberania.

Distanciamo-nos, pois, desta sorte, de qualquer manifestação de espíritas ou não-espíritas que apenas e tão-somente objetivem se opor à invasão americana, seja na Venezuela ou qualquer outro Estado internacional, deixando de lado outras arbitrariedades, já que a genuína Filosofia Espírita não permite partidarismos ou parcialidades interpretativas.

Em outras palavras e conclusivamente: o ECK se posiciona em absoluta oposição à manutenção do governo tirânico e ditatorial de Nicolás Maduro na Venezuela — que segue o mesmo “modus operandi” de seu antecessor Hugo Chávez, ambos atentatórios a direitos humanos fundamentais —, diante das informações que destacam a fraude eleitoral de sua reeleição (2024), tanto quanto à sua retirada da condição de gestor governamental venezuelano (Chefe de Governo e de Estado), devendo serem realizadas ações que visem à realização de novas eleições, totalmente democráticas e fiscalizadas por entes internacionais, para a definição, pelo povo venezuelano, de novos dirigentes políticos de seu país.

Nossa apelação, em nome do ECK, aos cânones e instrumentos de Direito Internacional, portanto, são os mesmos nas duas situações: direcionadas ao repúdio à ditadura chavista de Maduro e ao rechaço à intervenção militar armada estadunidense em território venezuelano. Não é possível silenciar acerca de um ou de outro ato!

Extensivamente, não é possível, também, silenciar – tampouco escudado em qualquer adjetivação espírita – diante da invasão da Rússia na Ucrânia e na permanência, por mais de setenta anos, da ditadura em Cuba. Não há dois pesos e duas medidas! Arbitrariedades, ilegalidades, ditaduras, instrumentos político-militares coercitivos e atentatórios contra a democracia e a soberania de países e seus povos será SEMPRE objeto de repulsa por parte do Coletivo Espiritismo COM Kardec (ECK).

A solidão do ECK

Lamentamos estar solitários, enquanto instituições e grupos espíritas neste cenário, mas seguimos, mesmo sozinhos, em nome da ética, da paz, da fraternidade e do mais absoluto respeito aos direitos humanos fundamentais! Nosso convite, pois, é o de que apliquemos o mesmo metro de medição para todas as ações antijurídicas vigentes em nosso planeta!

O “caso Venezuela”, no entanto, exorbita as questões político-eleitorais, já que, demonstradamente, por vias eletivas não é possível alterar a gestão governamental – que se apoia em armas, violências e imposição de terror e medo (números extraoficiais dão conta de cerca de 16 milhões de pessoas vivendo sob o império do medo e 8 milhões de emigrantes, fugidos do regime chavista). Não é possível invocar, no momento, medidas meramente eleitorais para afastar o regime da gestão político-governamental do país, sem os esforços e as medidas externas, que possam dar segurança ao regime de transição e à convocação de novas eleições ou o reconhecimento do resultado real da eleição passada). Os caminhos, portanto, devem ser estudados e definidos por organismos internacionais, com a participação de atores locais distantes do chavismo, para a busca de uma solução pacífica, aceitável e progressiva para o país.

Neste sentido, tendo como pano de fundo o discurso do presidente da República do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, na abertura da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, recentemente, afirmamos [5]:

“Eleições vão e vem e é salutar que haja alternância de pessoas e agremiações partidárias (partidos políticos), oxigenando a própria democracia e evitando o totalitarismo de ditaduras. Ideal é que projetos de governo e gestão sejam apresentados e, após o resultado eleitoral e a posse dos vencedores, sejam realizados a fiscalização e oi acompanhamento permanentes, inclusive com o emprego da ferramentas constitucionais e legais para a denúncia de atos irregulares, de improbidade e de corrupção às instâncias competentes”.

Os dias que virão…

De outro modo, entendemos que dormir despreocupadamente após o ataque de Caracas se torna mais difícil e praticamente impossível. Quando se rompem as conversações, negociações e mediações e ascende a truculência e a belicosidade — baseada fundamentalmente no poderio armamentista (inclusive nuclear, de graves proporções) e em fatores de geoeconomia (como embargos, taxações e outras espécies de dominação político-econômica [6]) —, com “senhores” que mandam e disputam, baseando-se na centralidade da gramática da ação militar, alcançamos um estágio demorado de incertezas e receios, já que se sabe como começam os atos mas não podemos prever como eles terminam.

A guerra não é, por certo, nenhuma novidade na história da Humanidade, mas isso não permite, sob qualquer hipótese, a sua naturalização. Intervenções dessa natureza em determinados países abrem perigosos precedentes para ações similares em outros, instaurando um vale-tudo que gera instabilidades nas relações entre Estados e seus povos, assim como endereçam-nos ao rarefeito otimismo em relação ao futuro, estagnando sociedades e coletividades humanas.

É preciso, ainda, que nos direcionemos a um maciço contingente de espiritas que se acostumou (e foi orientado, institucionalmente, para tal) a ocupar uma posição distante da realidade material e dos conflitos inerentes à espécie humana. Em parte, pela crença de que “os Espíritos (Superiores) estariam no comando do planeta”, controlando e “velando” pelas vidas espirituais encarnadas; e, em outro prisma, que devêssemos, no quadrante da vida física, nos importarmos com o “futuro”, isto é, esperar pacientemente a vida no além-túmulo, como “verdadeira morada” e “lócus” da prestação de contas de cada um, enquanto Espíritos em progresso. Para tais, nenhuma das ocorrências terrenas — sobretudo aquelas derivadas de outrem, notadamente de governantes de países e outras autoridades internacionais — seria da “nossa conta” ou “nos importasse”. Ledo engano! Trata-se, isto, de uma mera crença distante das prescrições contidas na Doutrina dos Espíritos, já que ela nos suscita entendermos, cada qual, o nosso (verdadeiro) papel como Espíritos encarnados, inclusive na paulatina e consequente construção do reino de Deus aqui na Terra.

Portanto, este ensaio também se direciona a essa “massa espírita”, anestesiada com o “consolo” espiritual contido nas obras e/ou nas interpretações de palestrantes, médiuns, dirigentes ou articulistas espíritas, sobre um “futuro de salvação espiritual”, já que são, as almas, verdadeiramente imortais. Para os que seguem “achando” tudo isto que ocorre, tanto hoje, quanto antes e quiçá, também, amanhã, como “normal” e “planejado” — ou seja, numa visão caquética e equivocada de “planejamento espiritual” ou “linha de progresso espiritual”, devemos ponderar, como Yeshua, que “muito será cobrado àquele a quem muito for dado” (Lc; 12:48).

A continuação da aceitação de narrativas esdrúxulas para os atos/fatos da atualidade planetária, sem a necessária percepção (espiritual) da gravidade do momento e da escalada de violência e belicosidade que configuram a geopolítica local e mundial simboliza outra figura trazida, também, por Yeshua em uma de suas mais conhecidas narrativas, a dos “cegos guiando cegos ao precipício” (Mt; 15:14). E, com isso, aqui, ali, e acolá, os homens seguem se afastando da paz que ele, Yeshua, disse vir trazer ao mundo: “Deixo a paz a vocês; a minha paz dou a vocês. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem tenham medo” (Jo; 14:27).

E, como tais ocorrências nos direcionam a “outros temores”, maiores e de proporções inimagináveis, vale relembrar os apontamentos que fizemos, em outro artigo [7], sobre as guerras, enunciando, em oito tópicos, como são elas interpretadas e entendidas pela Filosofia Espírita, todos eles secundados em itens da obra pioneira, “O livro dos Espíritos”: 1) compatibilidade com o nível progressivo dos Espíritos terrenos; 2) complacência de tais Espíritos com as situações bélicas; 3) imposição de fanatismos e/ou motivações ideológicas ou religiosas; 4) predominância da natureza animal sobre a espiritual; 5) oportunidade, das mesmas, para conduzir a tempos de liberdade e progresso sociais; 6) responsabilidade dos causadores das guerras e necessária expiação futura; 7) exclusão de culpabilidade dos humanos forçados, por seus superiores, a participar de guerras; e, 8) validade da ação daqueles que visam superar animosidades e a garantia dos direitos humanos.

Todos estão surdos? Opa, não é bem assim!

Como disse Roberto Carlos, na canção “Todos estão surdos” (1971), “Não importam os motivos da guerra, a paz ainda é mais importante que eles”, chegou a hora de nos distanciarmos dos (meros) subterfúgios discursivos e entender que tal escalada bélica precisa cessar e, ouvindo Kardec e os Espíritos que com ele colaboraram, precisamos deixar nossa conhecida e costumeira timidez de lado para, em sendo, efetivamente, bons, agirmos [8].

Não é, senão esta, a advertência fraternal de um dos principais Espíritos expoentes da chamada “Codificação Espírita”, Erasto, em outro texto, contido na “Revue Spirite” [9]:

“A hora é grave e solene. Para trás, pois, todas as mesquinhas discussões, todas as preocupações pueris, todas as questões ociosas e todas as vãs pretensões de preeminência e de amor-próprio. Ocupai-vos dos grandes interesses que estão em vossas mãos e dos quais o Senhor vos pedirá conta. Uni-vos para que o inimigo encontre vossas fileiras compactas e cerradas; tendes uma palavra de união sem equívoco, pedra de toque com ajuda da qual podeis reconhecer os verdadeiros irmãos, porque esta palavra implica a abnegação e o devotamento, e resume todos os deveres do verdadeiro Espírita.

Coragem, pois, e perseverança, meus filhos! Pensai que Deus vos olha e vos julga; lembrai-vos também que vossos guias espirituais não vos abandonarão enquanto vos encontrarem no caminho reto. Aliás, toda essa guerra não terá senão um tempo e se voltará contra aqueles que crerem criar armas contra a Doutrina; o triunfo, e não mais o holocausto sangrento, se irradiará no Gólgota espírita”.

Reiteramos que o Espiritismo (Doutrina dos Espíritos) não se coaduna com qualquer arbitrariedade, violência ou desrespeito aos direitos humanos, individuais ou coletivos, assim como ameaças à democracia e à soberania dos Estados (e seus povos). Porque, diante das

“anomalias presentes em nossa sociedade, fundadas na mais absoluta incapacidade de conviver respeitosamente com os outros, sobretudo com aqueles que pensam (e agem) de modo diferente em relação a si mesmos, tem-se o antagonismo à proposta espírita que é a da caridade, da fraternidade e da solidariedade, tendentes à construção de um panorama de justiça social possível neste mundo físico” (Henrique, 2024a).

Esperamos ultrapassar, logo, o “tempo” em que subsistam os argumentos “ad hominem”, que conduzem a análises parciais e ideologicamente formatadas, ainda que não se espere, para este quadrante humano, ausência de ideologias [10]. Entretanto, não é mais tempo dos espíritas sensatos serem surdos! Porque eles precisam tomar a dianteira e contagiar os demais, espíritas ou não, influenciando no progresso [11].

E, neste particular, para influenciar o progresso efetivo e real, será imprescindível que superemos o discurso para nós mesmos para dialogarmos de fato nos distintos cenários sociais [12] [13].

Será possível?

Notas dos Autores:

[1] Moreira (2022) trata, “en passant”, destas duas tipologias no seu artigo “Os Espíritas perante a Justiça”, disponível no Portal ECK: “um tipo especial de religiosidade está crescendo especialmente nos países do terceiro mundo, com destaque para o Brasil, daqui se espalhando por quase toda a América Latina. Essa religiosidade prega a fé em uma determinada crença – no caso a divindade de Jesus, “único senhor e salvador” – como única garantia de felicidade, aqui e no além. […] São essas seitas responsáveis por um certo retorno, pelo menos em alguns segmentos sociais, da perigosa tese de que só os crentes se salvam, de que só estes têm direito à felicidade. Essa arrogante postura, que é comum a todo o fundamentalismo religioso, não raro, no cristianismo ou em diferentes correntes religiosas, se mancomuna com outro tipo de fundamentalismo, o político. Essa aliança, ainda em nosso tempo, tem sido responsável por guerras e barbáries que dificultam em muito a conquista de um estágio de paz e de justiça neste nosso atribulado mundo”. Para acessar o artigo, consulte, abaixo, as “Fontes”.

[2] Logo após a posse do novo presidente norte-americano, Donald Trump, o ECK se manifestou, editorialmente, no artigo “Em Deus nós acreditamos? Os Estados Unidos como sempre foram”, que é uma espécie de predição dos momentos que tem se sucedido na pauta dos dias em nosso planeta, entre arbitrariedades e intervenções políticas. Recomendamos a leitura do mesmo, consultando-se, abaixo, em “Fontes”.

[3] O ECK, por seus Editores, publicou, em 7 de agosto de 2025, o Editorial “Vozes para Gaza”, protestando, uma vez mais diante da imposição de penúria, fome e dizimação de um povo, sob a conivência de gestores estatais internacionais, incluído o mandatário estadunidense, aí referido como o “Cara de Bronze”. As referências do artigo estão em “Fontes”.

[4] A informação acerca dos “ataques cibernéticos” constou de vários sítios. Escolhemos alguns para contextualizar o fato, conforme descrito em “Fontes”, abaixo.

[5] No artigo “Nações, Líderes, Povos e Progresso”, publicado no Portal ECK (cuja indicação completa está em “Fontes”).

[6] Recentemente, na forma de Editorial, o ECK se pronunciou de forma veemente contra as taxações do governo norte-americano aos produtos brasileiros, no texto “Basta de Colonialismos e Imperialismos!”, cuja leitura pode ser feita acessando-se as indicações, abaixo, em “Fontes”. Destaca-se a frase que encerra o artigo-editorial: “O ECK continua atento a esses ataques à nossa democracia nunca antes vistos em nossa história. É preciso que os organismos internacionais e as nações soberanas deem um decisivo basta aos colonialismos e imperialismos de ocasião, nesta terceira década do século XXI. Pela paz mundial e pelo fortalecimento de cada Estado! Hoje, amanhã e sempre! Sem bravatas, anistias ou condescendências!”.

[7] Trata-se do artigo “Como o Espiritismo interpreta as guerras?”, de Marcelo Henrique, encartado no Portal ECK (referência completa em “Fontes”).

[8] Alusão ao Item 932, de “O livro dos Espíritos”, de autoria de Allan Kardec, que, ao perguntar sobre a grande influência dos maus sobre os bons, no contexto planetário, recebe das Inteligências Invisíveis a seguinte resposta: “Pela fraqueza dos bons. Os maus são intrigantes e audaciosos; os bons são tímidos. Estes, quando quiserem, assumirão a preponderância” (Kardec, 2004:308).

[9] Trata-se do texto assinado pelo citado Espírito, recebido mediunicamente, e inserto na edição de Dezembro de 1863, da referida revista, sob o título “A guerra surda”.

[10] Afirmamos, no artigo “O “X” da questão: entre algaravias, blefes, contendas e ilegalidades, o Estado Constitucional, Democrático e Social de Direito”, ancorados em Kardec que é imperioso “ter cautela na análise de pessoas, instituições e ideologias para não ser presa fácil de ilusões e inverdades”. Ver referência completa em “Fontes”.

[11] Em outro artigo, tratando da missão de influenciar o progresso, que cabe ao Espiritismo (e aos espíritas, logicamente), Marcelo Henrique afirmou (“Vamos ou não influenciar o progresso?”): “Para influenciar o contexto social, duas, então, são as premissas: 1) entronizar os conceitos, na forma direta da qual a ideologia se manifeste em todos os atos do ser; e, 2) inserir-se nos contextos sociais humanos, na vida política, nas instituições e em contato com todos os ambientes, por todos os meios possíveis. Não há outro caminho, nem outra possibilidade. Já raiou, para aqueles que assim o entendem, a Era Espírita!”. As referências deste artigo estão, de modo completo, em “Fontes”.

[12] É esta a conclusão do nosso artigo “Uma nova guerra… E quantas mais, ainda, serão “necessárias”?, no Portal ECK, cuja referência está abaixo, em “Fontes”.

[13] O convite a esse diálogo, na construção de uma efetiva justiça social no planeta também está encartado no artigo “Que Sede? A de Justiça Social”, de nossa autoria, também inserto no Portal ECK, conforme “Fontes”, adiante.

 

Fontes:

Agências Internacionais. (2024). MP da Venezuela abre investigação sobre suposto ataque hacker ao sistema eleitoral e acusa María Corina e outros opositores. “O Globo”. Mundo. 29. Jul. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Almeida. (2025). “Bíblia on line”. Disponível em <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Dias, A. M. (2024). Ataque hacker às urnas venezuelanas tem cheiro de fake news. “Folha de S.Paulo”. Opinião. 6. Ago. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Editores ECK. (2025). Em Deus nós acreditamos? Os Estados Unidos como sempre foram. “Espiritismo COM Kardec”. 21. Jan. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Editores ECK. (2025). Vozes para Gaza. “Espiritismo COM Kardec”. 7. Ago. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Editores ECK. (2025). Basta de Colonialismos e Imperialismos! “Espiritismo COM Kardec”. 19. Jul. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

France Presse. (2024). Centro Carter apresenta atas eleitorais da Venezuela à OEA e diz que Edmundo González venceu Maduro nas eleições. “G1”. Mundo. 02. Out. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Henrique, M. (2022). Como o Espiritismo interpreta as guerras?. “Espiritismo COM Kardec”. 9. Mai. 2022. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Henrique, M. (2022). Que Sede? A de Justiça Social. “Espiritismo COM Kardec”. 22. Out. 2022. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Henrique, M. (2023). Uma nova guerra… E quantas mais, ainda, serão “necessárias”?. “Espiritismo COM Kardec”. 9. Out. 2023. Disponível em: <LINK/>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Henrique, M. (2024). Doutrina Espírita não combina… “Espiritismo COM Kardec”. 16. Mar. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Henrique, M. (2024). O “X” da questão: entre algaravias, blefes, contendas e ilegalidades, o Estado Constitucional, Democrático e Social de Direito. “Espiritismo COM Kardec”. 2. Set. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Henrique, M. (2025). Vamos ou não influenciar o progresso?. “Espiritismo COM Kardec”. 17. Mar. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Henrique, M. (2025). Nações, Líderes, Povos e Progresso. “Espiritismo COM Kardec”. 28. Set. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (1993). “Revue Spirite”. Trad. Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. Araras: IDE.

Kardec, A. (2002). “Viagem Espírita em 1862”, Trad. Wallace Leal V. Rodrigues. São Paulo: O Clarim.

León, L. P. (2024). Com reeleição contestada, Maduro faz eleição para comunas na Venezuela: comunas são novas formas de organização social baseada na autogestão. “AgênciaBrasil”. 23. Ago. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Lucas, J. (2024). Centro Carter descarta ataque hacker na Venezuela e confirma que González venceu Maduro. “Gazeta do Povo”. Mundo. 08. Ago. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Moreira, M. M. (2022). Os Espíritas perante a Justiça. “Espiritismo COM Kardec”. 22. Out. 2022. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Russo, R.; Villa-Lobos, D.; Bonfá, M. (1991). O Teatro dos Vampiros. Legião Urbana. “Letras”. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

Santiago, L. (2024). Governo da Venezuela diz que sistema eleitoral sofreu 30 milhões de ataques hacker por minuto durante eleições. “Brasil de Fato”. 12. Ago. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 03. Jan. 2026.

 

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One thought on “Caracoles! O otimismo geopolítico respirando por aparelhos: e a nossa posição como espíritas nesse admirável mundo novo, por Marcelo Henrique

  1. Muito bom e representativo. Importa-nos destacar a gravidade da invasão norte-americana, sem ignorar os problemas internos da Venezuela, reforçando a necessidade de uma postura espírita lúcida e livre de paixões ideológicas.