Atualização científica na divulgação do Espiritismo, por Ricardo A. Terini

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Ricardo A. Terini

Estamos divulgando a Doutrina pari-passo com a Ciência, como preconizava Kardec? Que imagem estamos deixando: de um Espiritismo moderno e atual ou de uma doutrina ultrapassada?

“O Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto.” [Kardec, A., A Gênese, cap. I, item 55]

Na formulação do Espiritismo como ciência de observação, Allan Kardec sempre se preocupou em apresentar os conceitos doutrinários associados às ideias científicas vigentes na sua época, com o objetivo de integrá-lo à cultura vigente. Fez isso nas várias obras espíritas que publicou, com referência aos campos contemporâneos da astronomia, da química, da física, da geologia, da paleontologia, da biologia, não para congelar essas noções científicas no corpo da Doutrina, mas, ao contrário, para demonstrar que “fé inabalável é aquela que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade”.

Atualmente, mais de 160 anos depois desse início, os estudiosos e divulgadores do Espiritismo nem sempre se dão conta dessa relativização e, ao invés de aprender com a coragem de Kardec e cotejar os conceitos espíritas com as ciências da época (no caso, a nossa!), tratam, às vezes, os conceitos científicos daquela época (século XIX) como se fossem os mesmos ainda hoje. Resultado: contaminam os conceitos atualíssimos da Doutrina Espírita com um anacronismo e um dogmatismo científico injustificável. Neste artigo, focamos particularmente a questão da classificação das espécies da Natureza, relacionada ao caráter evolucionista do Espiritismo.

No 4º. capítulo do livro 1º. de O livro dos Espíritos, Allan Kardec se propõe a abordar os seres vivos, sua variedade e a causa de sua vitalidade. Após a questão 71, Kardec conceitua:

“Podemos fazer a seguinte distinção: 1º. – os seres inanimados, formados somente de matéria, sem vitalidade nem inteligência: são os corpos brutos; 2º. – os seres animados não pensantes, formados de matéria e dotados de vitalidade, mas desprovidos de inteligência; 3º. – os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade e tendo ainda um princípio inteligente que lhes dá a faculdade de pensar.”

Nessa definição inicial, a preocupação foi apenas diferenciar os seres que tem vida (pensantes e não-pensantes) daqueles que são inertes (hoje citados mais como objetos, componentes, energias etc., do que como seres).

Mais tarde, no capítulo XI da 2ª. parte de “O Livro dos Espíritos”, Kardec ensaiaria uma classificação dos seres da Natureza, que analisamos a seguir (grifos nossos).

“585. Que pensais da divisão da Natureza em três reinos, ou melhor, em duas classes: a dos seres orgânicos e a dos inorgânicos? Segundo alguns, a espécie humana forma uma quarta classe. Qual destas divisões é preferível?

Todas são boas, conforme o ponto de vista. Do ponto de vista material, apenas há seres orgânicos e inorgânicos. Do ponto de vista moral, há evidentemente quatro graus.

(Comentário de Kardec) Esses quatro graus apresentam, com efeito, caracteres determinados, muito embora pareçam se confundir nos seus limites extremos. (…)
Note-se primeiro que as qualificações orgânico e inorgânico, nesses textos, não se referem necessariamente às definições de compostos orgânicos e inorgânicos da Química atual, já que tanto os seres animados (vivos) quanto os inanimados (inertes) podem ser compostos de substâncias orgânicas ou inorgânicas. Ex.: Nossas células (vivas) contêm compostos inorgânicos (sais minerais, água) e orgânicos (proteínas, vitaminas, lipídeos); por outro lado, uma taça de vinho (inerte) contém álcool, uma substância orgânica.
A divisão da Natureza mencionada por Kardec nesse capítulo XI seria, então:

A. Sob o ponto de vista material: seres orgânicos e seres inorgânicos
B. Sob o ponto de vista moral: reinos mineral, vegetal, animal e (?) hominal.

Mas essa é a divisão da Natureza proposta em 1735 pelo botânico, zoólogo e médico sueco Carl von Linné (1707-1778), na sua obra de vários volumes Systema naturae, que era ainda aceita e ensinada no século XIX. Linné (ou Linnaeus, como foi latinizado, ou apenas Lineu), em sua classificação, baseou-se nas diferenças morfológicas externas das várias espécies conhecidas dos seres da Criação (menos de 20.000). Orgulhoso do seu trabalho, afirmava que “Deus criou, Lineu organizou”.

Kardec era um pesquisador e professor do século XIX, atualizado com as ciências naturais… de sua época. E não podia ser diferente. Isso quer dizer que ele esteja ultrapassado? Não, porque ele estava em dia com as descobertas e já não admitia o que a Ciência havia desmentido (ex.: a Terra como Centro do universo; a Criação em seis dias etc.). A divisão de Lineu era a noção aceita cientificamente, do ponto de vista da natureza material. Os Espíritos que assessoraram Kardec na elaboração do Espiritismo, cientes disso, afirmaram, referindo-se às classificações da natureza, que “Todas são boas, conforme o ponto de vista”.

Muita coisa progrediu nos instrumentos e na visão da Ciência, desde então. Já em 1866, o naturalista alemão E. Haeckel propunha os reinos Protista (bactérias, algas, fungos e protozoários), Plantae e Animalia como componentes da Natureza, descartando a matéria bruta (minerais). No meio do século XX, H. Copeland introduziria um quarto reino, o Monera (≡ formas primitivas), para as bactérias, que têm uma organização celular sem núcleo, enquanto os outros três reinos são formados por organismos eucarióticos (com núcleo). Em 1969, Robert Whittaker incluiu os fungos numa nova classificação dos organismos em cinco reinos, ainda ensinada em algumas escolas brasileiras. Esses reinos, que se diferenciam pelo tipo de nutrição do ser vivo e pela organização de suas células, são: (unicelulares) Monera e Protista, e (multicelulares) Fungi, Plantae e Animalia.

No final do século XX, quando se consolidou a aceitação de que toda vida na Terra tinha uma origem comum, surgiu a necessidade de agrupar os reinos até então reconhecidos num patamar mais abrangente: o domínio. Em 1990, Carl Woese propôs o agrupamento dos diferentes reinos em três grandes domínios: Bacteria, Archaea e Eukarya, que refletem a aceitação das diferenças fundamentais do genoma dos seres vivos, devidas a relações evolutivas entre eles. Mais recentemente, mas com grande aceitação, está o sistema dos dois domínios e seis reinos proposto por T. Cavalier-Smith: Protista, Archaebacteria, Eubacteria, Fungi, Plantae, Animalia.

A Fig. 1 esquematiza didaticamente a sequência cronológica dos sistemas de classificação dos seres vivos propostos após Lineu, em que os mais recentes incluem os domínios e os reinos.
(Adaptado de WIKIPEDIA: Domínio (Biologia))

Essa evolução da Ciência só vem reforçar a visão evolucionista da Doutrina Espírita. O próprio Kardec, de sólida formação científica e pedagógica, tinha clareza sobre o fato da evolução dos conhecimentos científicos. Na própria A Gênese, os Espíritos mostram que divisam mais claramente a natureza, embora deixem sempre ao homem o trabalho da pesquisa que lhe cabe desenvolver:

“Cada criatura mineral, vegetal, animal ou qualquer outra — uma vez que existem muitos outros reinos naturais, de cuja existência sequer suspeitamos — sabe, em virtude desse princípio vital universal, adequar as condições de sua existência e de sua duração.” [Kardec, A., A Gênese, cap. VI, item 18, grifo nosso]

É importante que os espíritas tenham consciência disso, o quanto possível, e que não repitam apenas, em cursos e palestras, os textos doutrinários sem análise crítica e razoável atualização científica, sob pena de comprometer a credibilidade pública da Doutrina na própria sociedade.

O movimento espírita não pode ignorar o progresso sério das ciências, sob o risco de repetir o que ocorreu com a Igreja cristã que, até há pouco tempo, teimava que os métodos anticoncepcionais eram de inspiração diabólica, sendo atropelada pelo progresso e reduzindo seu protagonismo na sociedade. Se queremos que a Doutrina Espírita, monumento de coerência e luz para a humanidade, não seja guardado apenas nas estantes, como obra histórica, é necessário lembrar o alerta de Allan Kardec, no cap. I, item 16, de A Gênese:

“O Espiritismo e a Ciência se completam um ao outro: a Ciência, sem o Espiritismo, se encontra impotente para explicar certos fenômenos somente pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltaria o apoio e o controle.”

Referências:
KARDEC, A. O livro dos Espíritos. Trad. J. Herculano Pires. 69. ed. São Paulo: LAKE, 2012.
KARDEC, A. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Trad. João Teixeira de Paula. 25. ed. São Paulo: LAKE, 2014.
TERINI, R.A. Espiritismo e evolução do princípio inteligente: três reinos? Jornal de Estudos Espíritas. N. 8, 010205 (2020).

 

Ricardo Andrade Terini
Universidade de São Paulo (USP). Instituto de Física (IF).  Possui graduação em Física (Bacharelado, 1980; Licenciatura, 1983) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; mestrado em Física (1986) e doutorado em Fisica Nuclear Experimental pela PUC-SP (1991).   Saiba mais.

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