A pobreza que emudece e amedronta: entendendo a Aporofobia, por Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 5 minutos

Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique

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Aporofobia é um neologismo (derivado do grego, na junção das palavras á-poros (pobres) e fobos (medo), significando o sentimento de aversão, medo ou desprezo aos pobres ou aos financeiramente desfavorecidos.

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As revoluções sociais ocorrem sempre. Mas há ciclos. Neles, períodos de atraso se contrapõem aos de avanço. Este último está ligado tanto ao progresso moral, quanto ao progresso intelectual. Pontuaram os Espíritos Superiores que o intelectual precede o moral. Isto porque, encarnando e desencarnando, os Espíritos voltam à Terra – no nosso caso e contexto planetário – trazendo suas concepções, suas inteligências e suas moralidades, todas individuais. O objetivo sempre é e será o de progredir, mas o processo é lento, visto o Espírito dever ter, antes, a necessidade de despertar, o que pode levar tempo. O despertamento interior é algo autônomo, como melhor se diz. Não há pecados ou salvamentos. Há o processo de despertamento, ante a Lei do Progresso.

O conhecimento, então, é algo que precisa ser despertado nas lutas, nos debates e, inclusive, nas animosidades observadas na sociedade – diríamos, até, mais necessariamente nestas, já que a “calmaria” nunca é palco para crescimentos. Nem para as necessárias revoluções. Neste percurso, o Espírito vai percebendo com esse entendimento que o mal é temporário. Importante dizer que a contribuição, o amparo ou o auxílio que o indivíduo recebe remete, inexoravelmente, ao que o emprega. É, de fato, uma parceria. E, mesmo nos mais ácidos debates (e embates), percebe-se que a volúpia, o rigor, a intransigência, a belicosidade passam a arrefecer à medida em que o ser desperta para outros entendimentos. E sem saltos.

Muitos de nós nos debatemos, cotidianamente, com as lutas contra os vícios morais (espirituais) a que nos curvamos por anos, décadas, encarnações… Todavia, da mesma forma como o sol, que se levanta todos os dias e, mesmo com as nuvens a escondê-lo, ele lá está. Os vícios, então, podem ser, por certo tempo, escondidos, ou negados, quando nos recusamos a ver nossa realidade. Mas eles ali estão, à espera do nosso esforço de superação (transformação moral, como disseram os Espíritos Superiores a Kardec, nos esforços para vencer as nossas limitações ou más inclinações).

Assim é o Ser. É preciso querer o sol, que é o conhecimento, a fim de que sua companheira, a vida, brote e se tenha a possibilidade (real) de transformação. Cabe aqui uma paráfrase de Paulo Freire: a educação não muda a sociedade, mas transforma pessoas, as quais mudam seus valores, e estes se refletem na sociedade.

Em seu livro, “Aporofobia”, Adela Cortina sugere que, antes do ódio à(s) etnia(s) vem o ódio à pobreza. Neste contexto, os “sem-lugar” recebem em geral a ojeriza da sociedade, pois para os que assim procedem, a sociedade é de troca e, como tal, os valores são econômicos. Então, elas se perguntam (ou nos perguntam): – teriam, essas criaturas, algo a oferecer? Este questionamento é de simples resposta para quem estuda a Doutrina Espírita: “O forte deve trabalhar para o fraco” (item 685, “a”, de “O livro dos Espíritos”).

O Brasil, nestes últimos anos, possui um representante singular dessa teoria, a do horror ao pobre, presente ao longo de décadas nos discursos de sua vida pública. O personagem sempre se posicionou contrário às políticas sociais, num discurso transverso de “meritocracia”, acusando os que estivessem em condição desfavorável como “vagabundos”, “Incompetentes” ou “indignos”, bem como a favor do armamento da população. Além disso, em vários outros contextos, seu discurso sempre foi todo “fóbico”, contra as distintas minorias presentes no país.

Com o curso das vidas (e experiências) sucessivas, mas não necessariamente atrelado à Lei do Progresso, alguns especialistas constatam que o cérebro de muitos indivíduos pode desenvolver uma rejeição ao pobre. Não há respostas definitivas, o que nos direciona a observar e a refletir. Ao nosso derredor, nas ruas, mercados, escolas a miséria da população é cada vez mais perceptível.

Os noticiários do Brasil destacam a procura dos brasileiros por ossos, peles e outros subalimentos, revelando toda a sordidez e a ausência de solidariedade para com os mais necessitados. As disputadas carcaças trazem às consciências dos que já despertaram a fome, muita fome. Fome de habitação, fome de alimento saudável, fome de respeito, fome de tolerância, fome de identidade. Fome, enfim, de humanização, da parte dos que se encontram tão covardemente desumanizados.

Neste contexto, é preciso lembrar que as religiões em geral – e, também, a “religião espírita” –, incutem no ser a ideia de pecado e de castigo, em que o sofrimento seria intrínseco ao processo de progresso. Então, nesta cátedra, à espera dos (poucos) eleitos, Deus corrobora com essa situação, distribuindo benesses que são terceirizadas pela fé. Assim, a sociedade embora continue envolta em desacertos de ordem moral, se acalma, aguardando a “distribuição da justiça” nos moldes religiosos. É uma calma fugaz, porque não é verdadeira.

A criatura precisa mesmo é do Bem – porque o mal é sempre transitório – que o levará à felicidade. Mas não uma felicidade egoísta, individualizada, porque a felicidade real ocorre em conjunto – “é impossível ser feliz sozinho”, diz o refrão da canção bossa nova de João Gilberto. Portanto há que se entender a epopeia do retirante a sair de sua terra, pois esta não mais produz. Porque a seca de incentivos e de oportunidades produz a dor – física e moral – e, sem a educação formal e regular, a humanidade não desperta. Ainda que as escolas em geral tentem superar a falta de recursos e enfrentar as facilidades que o tráfico de vidas proporciona, é difícil lutar contra a maré, que é quando as crianças e os adolescentes apenas reproduzem o que vivem: violência, exclusão e falta, falta de tudo.

Voltando aos ensinamentos das Individualidades Esclarecidas (a Kardec), o mal se estabelece, porque os bons não o impedem. E qual seria o motivo da omissão ou da apatia? É difícil enfrentar a manutenção dos privilégios que impera. E, em grande parte, os indivíduos não objetivam se dedicar àquilo que não seja relativo ao seu próprio viver – o que, não raro, envolve desafios e dificuldades inerentes à experiência na carne. Mas, não olhar para o lado, para outrem, significa que não se entendeu a importância do conjunto e de cada uma das individualidades. Para estes, a noção da busca pela renovação espiritual ainda não ocorreu. E, neste universo, considerando a ampla maioria dos espíritas, estes ainda não entenderam o propósito e o sentido da reencarnação – que nada mais é do que a oportunidade de aprendizado. Continuam, os espíritas em geral, com a percepção de pecado (erros pretéritos) e de pagamento (expiação) em detrimento da compreensão do próprio processo em si. Preferem repetir, para os outros e para si mesmos, que aquele que sofre “tem o que merece”, porque é a “justiça divina operando”.

Contudo, é impossível continuar assim. Numa Filosofia (Espírita) baseada no entendimento de situações e contextos, individuais e coletivos, de (produção de) conhecimento, ou seja, de vida, de valores, de inclusão, de compromisso, de humanização, enfim, de paz é inviável conviver com a incitação à violência – presente no discurso armamentista. Ademais, enquadrando o horror da fome, tem-se a justificação equivocada de que se trata de uma oportunidade decorrente do processo da Lei do Progresso, quase sempre “explicado” pelo pagamento (com o mal) dos erros de vidas anteriores. Em consequência, nesta lógica canhestra, morar na rua é uma escolha! A leitura desavisada e precária olvida as causas reais das situações presentes: filhos de pais ausentes ou em ambientes inóspitos, insalubres, violentos… Por outro lado, como é comum ouvir destes mesmos espíritas: – está desempregado? É porque não quer trabalhar!

Por fim, há que se mencionar, também, a precariedade e a mentira dos discursos “comprados”, fáceis contra uma ameaça surreal, inexistente, fictícia: o comunismo, e sua cor representativa, o vermelho. Vermelho de bandeiras de países que foram ditaduras, distorcendo os conceitos de comunismo e de socialismo. Comunismo, aliás, quer dizer comunidade, vivência em comum. E comunidade deve ser o Bem e o Belo para todos. A ação de uns agregando outros e outros agregando todos. Um movimento de verdadeira inclusão, a partir de uma Revolução necessária – a da educação e dos valores sociais que devem estar presentes na sociedade.

Neste sentido, viveremos o axioma: nenhum a menos. Assim, o Espírito precisa entender a necessidade de viver o presente, deixando de lado o passado e seus equívocos – ou, talvez, encarando as ações pregressas como régua, nunca como regra – e, deste modo, no contexto atual, se colocar como elemento transformador, longe dessa atual passividade assustadora, de um conformismo derivado de que “os Espíritos proverão as nossas necessidades”.

Enfim, entender Kardec, porque se analisou Kardec. E poder dizer, diante dos desafios e das conquistas do Espírito: vim, vi e venci a mim mesmo!

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

2 thoughts on “A pobreza que emudece e amedronta: entendendo a Aporofobia, por Maria Cristina Rivé e Marcelo Henrique

  1. “Comunidade deve ser o Bem e o Belo para todos. A ação de uns agregando outros e outros agregando todos. Um movimento de verdadeira inclusão, a partir de uma Revolução necessária – a da educação e dos valores sociais que devem estar presentes na sociedade.” Parabéns pelo texto. Eu, particularmente, mulher espírita, só vejo sentido no espiritismo atrelado ao social, na revolução pela educação que liberta. O bem comum é a premissa que Kardec apontou no arcabouço da filosofia espírita que nos legou. Vamos juntos e juntas construir a sociedade que queremos, fraterna, justa e solidária.

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