A não perpetuidade do Espiritismo, por Marcelo Henrique

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A não perpetuidade do Espiritismo 

Marcelo Henrique


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O Espiritismo “acompanhando o movimento progressivo”, deve proporcionar aos espíritas o agir “com prudência e guardar-se de baixar a cabeça aos sonhos das utopias e dos sistemas. É preciso fazê-lo a tempo, nem muito cedo nem muito tarde, e com conhecimento de causa” (Allan Kardec).

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Kardec tinha um alto senso de previsibilidade consciente dos fatos, decorrente de sua formação – na atual e nas existências anteriores. Esse bom senso, como destacou León Denis a respeito do Professor francês se associava às intuições que recebia, em distintos momentos de sua “obra espírita” (tanto a confecção de livros e revistas, quanto a sua atuação como Coordenador-Geral do meio espírita mundial, naqueles doze anos iniciais.

Figura representativo desta característica, a dissertação que ele inseriu na Revue Spirite (Dezembro/1868), praticamente três meses antes de sua desencarnação. A “Constituição Transitória do Espiritismo” apresenta um conteúdo riquíssimo que ainda é oportuno e útil para aqueles que desejam um Espiritismo distante do religiosismo vazio e da hierarquia imposta pelos órgãos que administram as entidades espíritas, seja no Brasil, seja no Exterior (contexto mundial).

O texto é dividido em nove partes, que transcrevemos abaixo. Em uma delas, intitulada “Dos Cismas” (número III), ele assim pontua:

“A verdade absoluta é eterna, e por isto mesmo invariável; mas quem se pode gabar de possuí-la toda inteira? No estado de imperfeição dos nossos conhecimentos, o que hoje nos parece falso, amanhã pode ser reconhecido como verdadeiro, por força da descoberta de novas leis; é assim que as coisas acontecem tanto na ordem moral como na ordem física. É contra esta eventualidade que a doutrina jamais deve achar-se desprevenida. O princípio progressivo, que ela inscreve no seu código, será, como dissemos, a salvaguarda de sua perpetuidade, e sua unidade será mantida precisamente porque não repousa sobre o princípio da imobilidade. A imobilidade, em vez de ser uma força, torna-se a causa de fraqueza e de ruína para quem não segue o movimento geral. Ela rompe a unidade, porque aqueles que querem avançar se separam dos que se obstinam em ficar para trás. Mas, acompanhando o movimento progressivo, é preciso fazê-lo com prudência e guardar-se de baixar a cabeça aos sonhos das utopias e dos sistemas. É preciso fazê-lo a tempo, nem muito cedo nem muito tarde, e com conhecimento de causa”.

Note as palavras que Kardec utiliza: verdade absoluta, eternidade, invariabilidade, imperfeição, conhecimentos, falso, descoberta, novas leis, ordem moral, ordem física, perpetuidade, unidade, imobilidade, princípio progressivo, código, fraqueza, ruína, movimento geral, avançar, ficar pra trás, movimento progressivo, prudência, baixar a cabeça, sonhos, utopias dos sistemas, a tempo, nem cedo nem muito tarde e conhecimento de causa.

Palavras firmes de quem, em relação à missão que assumiu, nunca tergiversou ou abandonou os conselhos de sua intuição e os advindos de Espíritos reconhecidamente superiores, muito além de si.

Há muitos espíritas que sacralizam o conteúdo doutrinário – e, pasmem, não se está falando do conteúdo das 32 obras de Kardec, mas da introdução de conceitos alienígenas, discordantes das balizas principiológicas, por mais de um século, derivadas de uma mediunidade SEM CONTROLE, sem aferição da concordância universal e baseada em gostos, preferências e na “doçura ou eloquência” das palavras e frases, mas, não se limitando a isso, também erigiu à condição de “mestres”, pessoas comuns, com as mesmas limitações de nós outros, ainda que, aqui ou ali, tivessem – não sozinhas, frise-se, porque sozinho ninguém faz nada relevante – administrado projetos de assistência social, nas áreas de educação e saúde, principalmente. Médiuns, em sua maioria, que não conseguiram separar o que era “dos Espíritos”, daquilo que era pensamento SEU, ideia decorrente das visões imperfeitas, incompletas e míopes acerca da natureza, da vida material, da vida espiritual, dos mundos habitados, do porvir após a morte e do Universo.

Ainda que o juízo deva ser tarefa individual – no sentido da aceitação de textos, falas e manifestações sobre distintas temáticas – e, também, pela regra de progressividade (contida na Terceira Parte, de “O livro dos Espíritos”), distintos Espíritos (enquanto encarnados, na Humanidade, com as restrições que a vida física impõe ao conhecimento pleno e amplo do conjunto das encarnações), desejem seguir aquilo que se adequa aos sentimentos e as ideias IMPERFEITAS que ainda possuem, é preciso, como DEVER DIÁRIO, que os espíritas comparem cada documento ou manifestação (expressão oral, ao vivo, ou em áudios e vídeos) com a BASE KARDECIANA.

Assim, evitamos o cometimento das ações e das conjunturas NEGATIVAS, que Kardec listou acima e caminhamos COM SEGURANÇA para uma melhor compreensão do todo e do particular.

Então, para evitar admitir e repetir que “o Espiritismo tem a resposta para TODOS os problemas da Humanidade”, ou “o Espiritismo é mais adequado para o Espírito do que outras ciências e filosofias”, ou “o Espiritismo é a religião de Deus”, ou “tudo o que acontece individual e coletivamente neste e nos outros mundos habitados é resultado da vontade divina”, entre outras falácias e impropriedades, que façamos o que o Professor francês nos recomendou: aprendamos a partir das informações contidas na Filosofia Espírita, para entender distintas realidades, depois coloquemos em prática as virtudes e prescrições ético-morais espirituais-kardecianas, para nos tornarmos melhores do que já formos e para proporcionar a quem caminha conosco, nesta vida, o esclarecimento que consola e a verdade que liberta, sem a pretensão de ser a ÚNICA ou a MAIS PERFEITA verdade, porque, como disse Yeshua, “o vento sopra onde quer”.

Imagem de lil_foot_ por Pixabay

Acesse trecho da Revue Spirite (Dezembro/1868)

CONSTITUIÇÃO TRANSITÓRIA DO ESPIRITISMO

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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