Vania Maria Teixeira de Souza
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Compreender a mulher na dimensão espírita significa olhar além das construções sociais de gênero e reconhecer a igualdade espiritual, moral e evolutiva entre homens e mulheres, dentro do grande processo de aperfeiçoamento da humanidade.
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A reflexão sobre o papel da mulher na sociedade tem atravessado séculos, entre debates filosóficos, religiosos e sociais. Durante longos períodos da história humana, a mulher foi submetida a estruturas culturais que limitaram a sua plena participação na vida social, política e espiritual.
No entanto, a Doutrina Espírita apresenta uma perspectiva profundamente transformadora sobre essa questão. Ao afirmar a natureza espiritual e imortal do ser humano, o Espiritismo relativiza as diferenças biológicas e destaca a igualdade essencial entre todos os Espíritos.
Assim, compreender a mulher na dimensão espírita significa olhar além das construções sociais de gênero e reconhecer a igualdade espiritual, moral e evolutiva entre homens e mulheres, dentro do grande processo de aperfeiçoamento da humanidade.
Estudando a Doutrina Espírita, aprendemos que o sexo pertence ao corpo físico e não à essência espiritual. O Espírito, sendo imaterial, não possui características biológicas masculinas ou femininas. Conscientemente, temos a convicção que ao longo das múltiplas encarnações, o Espírito pode renascer:
- ora em corpo masculino;
- ora em corpo feminino.
Estas experiências fazem parte do processo progressivo, permitindo ao Espírito desenvolver diferentes aspectos de sua sensibilidade, inteligência e moralidade.
Assim, as características tradicionalmente associadas ao masculino e ao feminino representam expressões transitórias da experiência do progresso espiritual, e não condições permanentes da alma.
Todo o aprendizado de que desfrutamos até hoje nos conduz a compreender profundas consequências éticas e sociais:
- não há superioridade espiritual entre homens e mulheres;
- ambos possuem as mesmas potencialidades evolutivas; e,
- qualquer discriminação é fruto de construções sociais e culturais.
Historicamente, a mulher enfrentou inúmeros processos de exclusão e discriminação.
Durante muitos séculos:
- seu papel social foi reduzido;
- sua participação pública foi limitada; e,
- sua autonomia foi restringida por normas culturais e jurídicas.
Muitos pensamentos antigos revelam claramente essa visão depreciativa, como demonstram algumas citações históricas presentes na apresentação original de livros, reportagens ou discursos.
A partir da visão do saudoso Jaci Régis sobre a mulher na dimensão espírita, destacamos que as concepções sobre o papel da mulher não derivam da natureza espiritual do ser humano, mas sim de estruturas sociais criadas ao longo da história, muitas vezes baseadas na força física, no poder político ou em interpretações religiosas limitadas.
O Espiritismo, ao afirmar a igualdade essencial dos Espíritos, contribui para desmontar essas concepções discriminatórias. Faço uso das indagações conduzidas por Allan Kardec, em “O livro dos Espíritos”, quando, no item 817, questiona diretamente os Espíritos se o homem e a mulher são iguais perante Deus e têm os mesmos direitos? Como resposta, elucidam as Inteligências Invisíveis que Deus concedeu, a ambos, a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir. A igualdade moral e espiritual entre os sexos, então, estabelece um princípio fundamental: quando existem desigualdades sociais ou culturais, elas não são determinadas pela natureza espiritual, mas por condições históricas das sociedades humanas.
São os próprios Espíritos que atenderam aos questionamentos do Professor Francês (1857-1869), aqueles que afirmam que a inferioridade atribuída à mulher em certas culturas resulta do domínio injusto do homem, de instituições sociais baseadas na força e do atraso moral de determinadas sociedades (item 818, de “O livro dos Espíritos”).
Assim, o objetivo não deve ser a competição entre os distintos sexos, mas a cooperação fraterna entre eles.
Na perspectiva espírita, assim, o progresso moral da humanidade está intimamente ligado à valorização da mulher. O avanço dos direitos femininos representa um destacado sinal de civilização e progresso social, fortalecendo a identidade feminina e a conquista de um espaço legítimo de sua participação na sociedade.
A verdadeira emancipação feminina não consiste, pois, em reproduzir modelos de poder historicamente associados ao masculino, mas em afirmar plenamente:
- a dignidade da mulher;
- sua autonomia moral; e,
- sua contribuição singular para a construção de uma sociedade mais justa.
Ademais, dentro da perspectiva espírita, a família constitui uma das mais importantes instituições de evolução espiritual. Nesse contexto, a mulher historicamente tem desempenhado um papel essencial:
- na educação moral dos filhos;
- na formação de valores; e,
- na construção de ambientes de afeto e solidariedade.
Contudo, essa responsabilidade não deve ser vista como uma exclusividade feminina. O progresso social aponta, em síntese e em essência, para uma responsabilidade compartilhada entre homens e mulheres na formação da família. O lar é, então, entendido como um espaço de aprendizado espiritual, onde Espíritos que possuem, entre si, laços de afinidade ou necessidades de reajuste, convivem proximamente para o desiderato de crescerem moralmente (espiritualmente).
Fontes:
Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
Regis, J. (1989). “A Mulher na Dimensão Espírita”. Santos: Dicesp.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay
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Sempre bom falar e lembrar da igualdade em todos sentidos. Obrigada