Maria Cristina Rivé
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Situações do nosso cotidiano consagram o velho problema, como um esqueleto que fica sempre no armário, mas, vez por outra, se abrem as portas desse móvel, e o colocam na posição central da sala. É o tradicional padrão estrutural da sociedade, marcada pelo patriarcado e que se revela, mais uma vez, em sua voz de preconceito e reducionismo. Injustificável!
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Às vezes, relembramos da nossa infância, que vive conosco em cada passo, em cada ato, nos dando conta de que nossa vida é um emaranhado de vivências que se cruzam e se completam. Não somos somente o hoje; somos o que fizemos, antes, e representamos o resultado dos atos da vida. Os maus e os bons. E é o aprendizado que nos completa e nos sustenta no cotidiano dos tempos que se sucedem.
Meu pai era jogador de futebol; portanto, em nossa família, essa “arte” era sempre presente. Minha mãe, em um jogo no Estádio do Riograndense de Santa Maria (RS), ouviu de meu pai: “- Vou fazer três gols pra ti, morena!”. E ele fez! A ironia é que o time de minha mãe perdeu. Sim, ela torcia pelo Riograndense mas meu pai jogava no clube adversário, o Internacional de Santa Maria (RS). É… Mas foram esses gols o que resultou em uma família, na qual o futebol era presença constante.
Interessante falar que os alicerces da minha família – Mãe e Pai – se constituíam em torcedores fanáticos pelos times de nosso Estado, Internacional e Grêmio, ambos da capital. Cada qual, então, com seu time. Costela, assim era chamado meu pai, nos campos de futebol, tinha em seu coração o time colorado: “meu coração é vermelho”. Assim como o meu e o de meus três irmãos homens, os dos meus primos e minhas primas e, ainda, alguns sobrinhos e sobrinhas.
Em paralelo, como minha mãe era torcedora do Grêmio, minha única irmã acabou sendo e, também, para não fugir à regra, as esposas de meus irmãos eram gremistas e o de minha irmã, colorado. Seus filhos seguem a saga: são gremistas e o marido de minha sobrinha e seu neto, o Lindinho, são colorados. Oh, céus! Quanta contradição! – podem alguns pensar… Não vejo assim, num mundo pleno de diversidade, precisamos viver com o contraditório. As pessoas, portanto, não são boas nem ruins apenas por pensarem de modo diferente de nós.
Aos domingos, todos íamos para a casa da Voca, a nossa amada vó. Em algumas tardes, meu pai, meu padrinho, meu tio iam ao “Estádio da Baixada Melancólica” para assistir ao jogo de outro time, o Internacional de Santa Maria (RS). Com o rádio “grudado” nos ouvidos, torciam e ficavam alegres ou tristes, conforme o resultado das partidas… e sobreviviam: nos dissabores, quando o time perdia; e no êxtase, quando ele vencia.
Por sua vez, aos sábados, sempre à tarde, meu Pai, com seu amigo João, com o amigo “seu” Glênio, meus irmãos e meu primo iam ao Campo do Guarani, e jogavam pelo Independente, um time amador, cujas cores eram branca e verde. Ali, eles se divertiam, mas também se enfureciam.
Todos esses momentos são tão vivos dentro de mim que a simples recordação deles me faz voltar no tempo, para aqueles dias, e revivê-los, com muito afeto e saudade. Aquela saudade boa dos tempos bem vividos e desfrutados.
Mas isto não parava por aí… Vizinhos, uns gremistas e outros, colorados, assim como outros parentes que moravam em Porto Alegre, cada qual tinha o seu time. Meus parentes de Porto Alegre eram ainda mais fanáticos; eram, não, seguem sendo, conforme a “regra” familiar: pai, colorado; mãe, gremista; uma filha, colorada e a outra gremista. É a “velha” tradição: os opostos se atraem!
Naquela época, eu brincava com os guris da Dona Neida, vizinha nossa, e jogávamos futebol, na rua (lomba), em frente à nossa casa. Comumente, havia aquelas brigas da molecada, até sermos “colocados para dentro de casa”. O que era para ser mera brincadeira tinha se transformado em algo insustentável, com a opinião de cada um de que o outro era “ladrão”. Como não havia juiz, naquelas partidas, sempre ficava o dito pelo não dito…
O tempo passou e cá estamos em dois mil e vinte e seis. Os tempos são outros, e a molecada não joga mais bola na rua, nem existem aqueles terrenos baldios onde se improvisavam as traves e os jogos se sucediam. Hoje, no entanto, existem campeonatos organizados em todas as esferas e, muito mais do que ontem, há um rol de profissões em torno do esporte: atletas, técnicos, preparadores físicos, diretores, supervisores, coordenadores, etc. O que, por muito tempo foi uma “exclusividade” masculina foi, pouco a pouco sendo conquistada pelas mulheres. Sim, conquistada! Com muita luta! Ninguém “deu de mão beijada” as oportunidades para as mulheres estarem nesse esporte, em distintas funções e especialidades. As competições foram se tornando, também, negócios muito rentáveis, que movimentam milhões e permitem muitos empregos, com variadas remunerações.
No âmbito esportivo, também a arbitragem foi progredindo e, na atualidade, vários recursos de computação e de vídeo tem sido implementados, com ganhos inegáveis para a resolução dos “conflitos” durante o jogo, os chamados “lances duvidosos”. Isso porque onde há seres humanos, há dúvidas… Com a expansão do esporte e a democratização dos gêneros há, também, as árbitras e assistentes de arbitragem. Mulheres.
Como não poderia deixar de ser, homens e mulheres são preparados para estas atividades. Se, antes, só víamos tais profissionais femininas em jogos de mulheres, hoje a generalidade alcança situações em competições locais, regionais, nacionais e, até, internacionais, com trios de arbitragem (considerando que no gramado estão um árbitro e uma dupla de auxiliares) exclusivamente femininos.
Nesta “altura” desse artigo, me permito fazer um parênteses: ser árbitro ou árbitra de futebol é ter, infelizmente, a mãe e a própria sexualidade atacadas. Os xingamentos de torcedores atacam a honra do profissional e suas origens. Em alguns casos, também, infelizmente, há a prática da xenofobia, em relação à naturalidade dos profissionais. No “calor” das paixões, como os indivíduos, homens e mulheres, torcedores, sempre se julgam certos e o trio de arbitragem sempre está errado, sobretudo se marcar algo “contra” o nosso time.
Pois agora me deparo com a notícia de que um determinado jogador profissional, em partida válida por um campeonato estadual em nosso país, teria reclamado da escalação de uma árbitra para uma partida decisiva. Protestou, ele, sobre escalar uma “mulher” para um jogo deste “tamanho”. A declaração, com elevada carga de misoginia repercutiu negativamente. Sites e portais esportivos assim como a mídia em geral censuraram o comportamento do atleta. E não era para ser menos…
Na fala de tais profissionais, assim como em muitas outras situações do cotidiano, o velho problema, como um esqueleto que fica sempre no armário, mas, vez por outra, se abrem as portas desse móvel, e o colocam na posição central da sala. É o tradicional padrão estrutural da sociedade, marcada pelo patriarcado e que se revela, mais uma vez, em sua voz de preconceito e reducionismo. Injustificável!
Acossado pela mídia e, diante de uma punição esportiva, em processo específico, em julgamento futuro, o jogador se apressou a minimizar o caso e dizer que foi “mal entendido”. São os mal entendidos de sempre, as desculpas esfarrapadas e a terceirização da culpa. E, pasmem, em sua verborragia de pretensa defesa, ainda afirmou ter esposa e mãe…
Na verdade, sem a necessidade de aguardar qualquer sanção esportiva da federação responsável pela escala de arbitragem e que regula o comportamento de todos os profissionais envolvidos, a agremiação esportiva – que leva, aliás, o nome de seu patrocinador e “dono”, uma empresa de bebidas que está em vários esportes, do skate à fórmula um – deveria, ela mesma, tomar a dianteira, punindo com multa exemplar tal conduta que é aética e, certamente, representa afronta a vários dispositivos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, documento normativo que é instituído pelo Ministério do Esporte do governo brasileiro [1].
Será que a agressividade de mercado da empresa, que custeia a existência do clube profissional de futebol brasileiro, está sendo “incorporada” por seus empregados, a ponto de interferir, de forma imoral e injustificada no esporte? Fica a pergunta…
Conclusivamente, enquanto espíritas, devemos sempre rechaçar quaisquer condutas que estejam associadas às espécies de preconceito assim como condutas de ódio, desprezo e aversão ao outro. E, nesta qualidade, exigir das autoridades responsáveis, caso a caso, como na questão em tela, que as punições ocorram e de modo exemplar – claro, mediante o contraditório e o amplo direito de defesa, constitucionalmente garantidos.
Nota da Autora:
[1] Referida norma é a Resolução CNE n. 29, de 10 de dezembro de 2009, do Conselho Nacional do Esporte, e está disponível no endereço <LINK>. Acesso em 24. fev. 2026.
Imagem de Daniel Kirsch por Pixabay





Parabéns pelo artigo, Cris!
Leitura instigante e extremamente necessária. A maneira como você apresenta o tema nos faz refletir a respeito de determinadas posturas e agir com mais consciência. Concordo plenamente com seus pontos e fico grata por uma reflexão tão coerente e sensível.
Um texto leve falando de algo que pesa no cotidiano feminino. Mudar o que está enraizado é difícil, seguimos lutando