O Espiritismo não disse sua última palavra — mas corre o risco de repetir as anteriores: uma análise, por João Afonso

Tempo de leitura: 5 minutos

João Afonso

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Kardec, por seu método, reafirma o caráter progressivo do Espiritismo e convida à vigilância contra toda forma de dogmatismo.

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Introdução: Afirmações de Kardec

Allan Kardec afirmou que o Espiritismo está longe de haver dito sua última palavra (Kardec, 1993:41), mas logo esclarece que sua base é inabalável, por estar assentada nos fatos [1]. Essa afirmação, longe de autorizar qualquer otimismo exagerado, impõe uma responsabilidade severa ao movimento espírita: a de permanecer fiel ao método, não apenas às conclusões.

Quando Kardec afirma que o Espiritismo não disse sua última palavra, ele não estimula a crença em uma doutrina acabada, perfeita ou imune a revisões. Pelo contrário, reafirma seu caráter progressivo [A] e convida à vigilância contra toda forma de dogmatismo. A imperfeição humana — vivida em um mundo de expiações e provas — não autoriza a cristalização do pensamento, mas exige de nós esforço moral contínuo, progresso intelectual e responsabilidade ética. A certeza que o Espiritismo oferece quanto à sobrevivência da alma não dispensa o exercício da razão nem o compromisso com a transformação interior.

Interpretando os conceitos

Uma doutrina — e o Espiritismo o é — só permanece ativa e fecunda se seus adeptos continuarem pensando, revisando e avançando. O problema se agrava quando o meio espírita passa a utilizar jargões, frases de efeito e repetições automáticas que, embora soem edificantes, não mantêm compromisso real com o progresso moral nem com a transformação social [B].

Nesse contexto, o meio espírita corre o risco de se fechar em uma bolha presunçoso e arrogante, afastando-se das dores reais da sociedade e das questões contemporâneas que exigem reflexão profunda. Uma doutrina que nasceu em diálogo com o seu tempo precisa preservar essa abertura, pois não pode sobreviver isolada da realidade que a questiona.

Kardec afirma que a base do Espiritismo é inabalável porque está assentada nos fatos. Isso exige compreensão adequada. Uma base sólida não dispensa exame; ao contrário, exige verificação contínua, análise crítica e fidelidade ao método.

O próprio Kardec esclarece, na Introdução de “O evangelho segundo o Espiritismo”, no Item II — Autoridade da Doutrina Espírita:

“Não será pela opinião de um homem que se produzirá a união, mas pela unanimidade da voz dos Espíritos. […] É a universalidade dos Espíritos, comunicando-se sobre toda a Terra, por ordem de Deus. Esse é o caráter essencial da doutrina espírita, nisto está a sua força e a sua autoridade” (Kardec, 2003:21).

O meio espírita e suas práticas

Esta orientação, infelizmente, tem sido relativizada ou ignorada por parte do meio espírita. Em seu lugar, observa-se a aceitação acrítica de comunicações mediúnicas, muitas vezes legitimadas mais pela autoridade institucional ou pela figura do médium do que pelo critério doutrinário. O dogmatismo que Kardec tanto combateu reaparece, agora, sob novas formas.

Para sustentar a fidelidade ao método, é necessário, pois, a honestidade intelectual: buscar a verdade acima das próprias crenças, interesses ou conveniências. Esse deveria ser o papel de todo espírita sério e sensato.

No entanto, ideias ultrapassadas tem sido frequentemente mantidas em grupos e instituições espíritas não por sua coerência doutrinária, mas pelo medo de perda de poder, de prestígio ou de controle dentro das entidades associativas espíritas. Conceitos são, então, repetidos sem a devida contextualização histórica, sem qualquer diálogo com a razão e sem abertura à crítica. No fundo, trata-se menos de fidelidade à Doutrina e mais de apego humano, no sentido da resistência à mudança [C].

“O futuro pertence aos espíritas”? Uma leitura responsável

No texto de Kardec [1], lemos que o futuro pertence aos espíritas. Essa afirmação não deve ser compreendida como uma profecia automática ou uma garantia histórica. Kardec jamais defendeu fatalismos.

Kardec desejava e imaginava que o Espiritismo se tornaria crença comum e consultou as Inteligências Invisíveis acerca disso, em “O livro dos Espíritos”, no item 798. Distante dos ufanismos, próprios dos espíritas muito entusiasmados (feliz expressão do Professor Herculano Pires) encontramos uma leitura mais equilibrada: “Haverá, entretanto, grandes lutas a sustentar, mais contra os interesses do que contra a convicção” (Kardec, 2004:268).

O Espiritismo até pode tornar-se uma crença mais amplamente aceita, mas isso somente ocorrerá — se ocorrer — em meio a conflitos, resistências e disputas, inclusive internas. Não há triunfo, pois, sem coerência moral, tampouco progresso sem o enfrentamento das próprias contradições.

Embora o texto citado date de fevereiro de 1865, sua atualidade é incontestável. O século mudou, o mundo se transformou e o ser humano se modificou profundamente. Ainda assim, grande parte do meio espírita segue demonstrando profundos receios em atualizar a linguagem, os métodos e as abordagens, confundindo renovação com traição doutrinária.

O resultado é um Espiritismo, muitas vezes, que pode até ser correto em seu conteúdo, mas segue distante da realidade contemporânea: profundo em princípios, porém tímido no diálogo social e intelectual.

Os verdadeiros adversários

Kardec menciona adversários externos, e eles existem! Contudo, é preciso reconhecer que, não raras vezes, os espíritas se tornam seus próprios adversários. Subestimam problemas internos, evitam debates necessários e preferem a unanimidade aparente à maturidade do dissenso.

Além do materialismo, destacado por Kardec como inimigo da religião [2], o Espiritismo enfrenta hoje um inimigo silencioso: o comodismo moral aliado à inércia intelectual. Quando o meio espírita se fecha em si mesmo e abandona o aprofundamento sério das bases doutrinárias, ele não se protege — ele se enfraquece.

O Espírito Erasto, na “Revue Spirite” de Dezembro de 1863, também advertiu sobre a chamada guerra surda” [3], alertando para a formação de grupos dissidentes, o fascínio sobre os médiuns e a exploração das fraquezas humanas. Esse alerta permanece atual e aponta para a necessidade de vigilância, estudo e humildade.

Estudar Kardec não é cultuá-lo como relíquia.

É, de outro modo, compreendê-lo como método, postura intelectual e compromisso ético.

O Espiritismo não disse a sua última palavra, como asseverou Kardec — mas só continuará falando de forma relevante se se aceitar o risco de pensar, revisar seu conteúdo e dialogar com o seu tempo. Caso contrário, continuará repetindo palavras antigas para um mundo que já cambiou.

Notas do Autor:

[1] Afirmação de Kardec na dissertação intitulada “Da Perpetuidade do Espiritismo”, integrante do fascículo de Fevereiro de 1865, da “Revue Spirite”.

[2] Esta afirmação de Kardec foi inserida no seu “Discurso” em Bordeaux, publicado no exemplar de novembro de 1861, da “Revue Spirite”.

[3] Texto de Kardec, sob esse título, encartado na “Revue Spirite” do mês de Dezembro de 1863.

 

Notas do ECK:

[A] Marcelo Henrique, no artigo “Por um Método Comunicativo Espírita: o Dialógico, o Dialético e o Contraditório – caminhos para o real entendimento”, postula: “Na dialética kardeciana, são perfilados, lado a lado, cada argumento ou teoria, inclusive as aparente ou flagrantemente opostas. Observando-se toda a produção literária de Kardec – 32 obras [10], é possível notar que ele alterou convicções pessoais-espirituais sobre determinados temas, inclusive para rever posições, em função do estudo e da experiência, mas, igualmente, de novas informações coletadas da produção mediúnica (psicografias). Isto enaltece o caráter progressivo-progressista do Espiritismo, permitindo a (necessária) oxigenação e continuidade do conhecimento” (Henrique, 2025, grifamos).

[B] A diversidade entre os espíritas nos remete à constatação da existência de três classes de espíritas: os conservadores, os “neutros” e os progressistas, sendo que os primeiros são a maioria. Contrariando esta realidade, Marcelo Henrique, em um artigo no Portal ECK, pontua: “Porque o Espiritismo em essência – calcado sobretudo nas Leis Morais e em face de sua estrutura doutrinário-filosófica – é PROGRESSISTA, já que tende ao progresso espiritual (individual e coletivo), no sentido dos indivíduos, de per si e coletivamente, agirem para a promoção do progresso. E é, também, progressivo porque obedece à marcha do progresso que vige em todos os mundos habitados” (Henrique, 2022).

[C] Em uma entrevista, em 2021, Marcelo Henrique destacou: “O Espiritismo, em essência, é progressista e progressivo. Progressista porque comprometido com as mudanças (individuais e coletivo-sociais), amparado na terceira parte de “O livro dos Espíritos” e voltado à consecução, na Terra (de provas e expiações) de um patamar mais adequado de Justiça Social, combatendo todo tipo de preconceito e violência” (Henrique, 2021).

 

Fontes:

Henrique, M. (2021). Entrevista: Marcelo Henrique. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 20. Dez. 2021. Disponível em: <LINK>. Acesso em 25. Mar. 2026.

Henrique, M. (2022). O que é ser espírita progressista?. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 19. Out. 2022. Disponível em: <LINK>. Acesso em 25. Mar. 2026.

Henrique, M. (2025). Por um Método Comunicativo Espírita: o Dialógico, o Dialético e o Contraditório – caminhos para o real entendimento. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 14. Dez. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 25. Mar. 2026.

Kardec, A. (1993). “Revue Spirite”. Trad. Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. Araras: IDE.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Imagem de Thomas Zbinden por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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