Maria Cristina Rivé e Martha Novis
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O patriarcado estrutural em que estamos inseridos não legitima apenas a violência física contra as mulheres; ele sustenta, com igual força, a violência psicológica cotidiana que molda subjetividades e aprisiona consciências. Somos criadas para sermos “belas, recatadas e do lar”, e esse comando simbólico é tão profundamente enraizado que, quando ousamos escapar dele, somos invadidas por um sentimento persistente de culpa, uma culpa que pode nos acompanhar por toda a existência.
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A história de Gisèle Pelicot não é apenas um caso criminal extremo que chocou a França; ela constitui um documento sociológico privilegiado da persistência estrutural da violência patriarcal no século XXI. À luz do debate desenvolvido neste artigo, seu testemunho permite refinar a compreensão de como o patriarcado opera não somente por meio da coerção física direta, mas sobretudo através da normalização cultural da disponibilidade do corpo feminino [1].
O que emerge do chamado “julgamento da covardia” é precisamente aquilo que a teoria feminista materialista, especialmente em “Calibã e a Bruxa”, de Silvia Federici, identifica como núcleo histórico do patriarcado moderno: a construção de dispositivos sociais que autorizam, explícita ou implicitamente, a apropriação dos corpos das mulheres. No caso da francesa, essa lógica aparece em forma quase laboratorial: o ex-marido não apenas violentou; ele organizou, catalogou e sistematizou a violência, convertendo o corpo da esposa em território de uso coletivo masculino.
Essa dimensão organizacional é teoricamente decisiva. Ela desloca o caso do campo da “monstruosidade individual” para o da racionalidade patriarcal administrada. Como demonstra Federici, o controle sobre o corpo feminino historicamente dependeu de processos de disciplinarização que combinam violência, legitimação simbólica e cumplicidades difusas. A prática sistemática observada no caso francês evidencia que o patriarcado contemporâneo pode operar por meio de redes de autorização masculina informal, mesmo em sociedades formalmente igualitárias.
Sob a lente de Gerda Lerner, em “A Criação do Patriarcado”, tal dinâmica não pode ser lida como uma aberração isolada. Trata-se da atualização de uma estrutura histórica que, por séculos, ensinou que a sexualidade feminina podia ser mediada pela autoridade masculina. O elemento mais perturbador — e teoricamente revelador — é a alegação de parte dos agressores de que não teriam percebido o estupro porque o marido estava presente e consentia.
Aqui se manifesta, em estado quase puro, a gramática patriarcal clássica descrita por Lerner: quando a autoridade masculina é reconhecida como mediadora legítima, o consentimento da mulher tende a ser simbolicamente eclipsado. O caso revela, portanto, não apenas a violência extrema, mas uma falha estrutural na pedagogia social do consentimento.
Mas o patriarcado estrutural em que estamos inseridos não legitima apenas a violência física contra as mulheres; ele sustenta, com igual força, a violência psicológica cotidiana que molda subjetividades e aprisiona consciências. Somos criadas para sermos “belas, recatadas e do lar”, e esse comando simbólico é tão profundamente enraizado que, quando ousamos escapar dele, somos invadidas por um sentimento persistente de culpa, uma culpa que pode nos acompanhar por toda a existência.
Ao contrário do que nos ensina o Espiritismo, ao afirmar que os Espíritos foram criados simples e ignorantes, ora habitando corpos femininos, ora masculinos, portanto sem sexo definido em sua essência, a ditadura patriarcal, cruelmente vigente até hoje, insiste em fixar destinos e hierarquias sobre corpos que deveriam ser apenas moradas transitórias do Espírito.
Tratada historicamente como objeto de desejo, a mulher é empurrada para uma vigilância permanente de si mesma. Deve corresponder ao padrão de beleza vigente não para si, mas para satisfazer expectativas externas. Cuida-se para caber no olhar alheio. Molda-se para não ser descartada. Vive-se, muitas vezes, encarcerada dentro de si, tentando recompor, com esforço doloroso, a imagem que o tempo inevitavelmente transforma.
E quando a juventude se vai, porque o tempo é lei para todos, o que resta para ela, segundo a lógica patriarcal? Resta a culpa. Culpa pelas marcas no rosto. Culpa pelos cabelos embranquecidos. Culpa por um corpo que já não responde como antes. O patriarcado não apenas explora o corpo feminino; ele pune o seu envelhecimento.
Por isso não é episódico, mas estrutural, que, em pleno século XXI, acordemos com a notícia de uma idosa violentada dentro de um ônibus no Rio de Janeiro pelo próprio motorista do veículo. E é devastador que a frase mais impactante da vítima tenha sido: “Eu sempre ando de calças compridas; justo hoje, estava de vestido”.
Essa afirmação é uma radiografia brutal da pedagogia da culpa! Mesmo diante da violência sofrida, a mulher é socialmente treinada para procurar em si mesma a causa da agressão. O patriarcado opera com tamanha eficácia que a vítima se interroga antes mesmo que a sociedade a interrogue.
Isso dói na alma de cada uma de nós, porque sabemos que essa violência não é exceção. Ela é cotidiana, difusa, estrutural. Não queremos apenas o “Dia Internacional da Mulher” como gesto simbólico vazio. Queremos a ruptura concreta com a lógica que nos transforma em propriedade, em vitrine, em território disponível.
Não queremos tutela. Não queremos donos. Não queremos padrões que nos aprisionem nem culpas que nos silenciem. Queremos, simplesmente, e radicalmente dentro de sua etimologia RAIZ: o direito de existir em nossos próprios termos!
Hoje e sempre!
Notas do ECK:
[1] Para conhecer um pouco mais sobre a vida e a história real da personagem, acessar as referências abaixo.
Fontes:
Derbyshire, V. (2026). Gisèle Pelicot fala sobre ter encontrado amor após condenação do ex-marido e de 50 homens que a estupraram: ‘A vida sempre reserva belas surpresas’. “BBC News Brasil”. 16. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar. 2026.
Federici, S. (2017). “Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva”. Trad. Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante.
Lerner, G. (2019). “A Criação do Patriarcado: História de Opressão das Mulheres pelos Homens”. Trad. Luiza Celler
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Um caso terrível e importante de ser lembrado. A luta é grande