Revisitando o quereres (de Caetano), por Marcelo Henrique

Tempo de leitura: 2 minutos

Por Marcelo Henrique

Onde queres revólver, sou lousa e giz
Onde queres Carlos Ustra, sou Paulo Freire
Onde queres bravata, sou a razão
E onde sou o sim à vida, és descaso
Onde sou empatia, és agressão
E onde dizes querer tudo, tudo perdes
Onde zombas e menosprezas, sou compreensão
E por se sentir acolhido cada um é feliz!

Onde bradas família, é só a tua
Onde evocas o Deus, é só o que crês
E onde desfraldas, como pátria, a bandeira
É onde mais desrespeitas a nossa como as demais nações
Onde deverias estar por último, queres a posição primeira
E onde esqueces o respeito às diferenças de qualquer matiz
Onde fazes piada e pilhéria com a dor alheia
É onde mostras toda a tua miséria e perfídia…

Ah! Dorida flor do querer
Ah! Dorida flor, dorida flor

Onde queres a carne, sou Espírito
E onde queres virilidade, sou amor
Onde queres violência, respiro paz
Onde queres valentia, somos destemor
E onde constróis mentiras, somos luz
Onde impinges o descaso-frio, somos o afeto-calor
Onde impões fracassos, somos reconstrução
E onde fazes terra arrasada, fazemos brotar as flores!

Teria eu que ter, por ti compaixão
Mas, não consigo, por ora, nem te compreender
E se não te odeio, é porque aprendemos todos a ver
Tua iniquidade atual há de levar milênios para a redenção
E a efêmera vida será, para ti, notória descoberta
Do outro lado, onde desaparecem meras honrarias e falsos poderes
E a alma, desnuda, vai de encontro a reais saberes
No trânsito do percurso comum a todos e em hora certa.

E onde constróis ilusórios palácios, sou o chão
Onde queres algazarra sou o silêncio
E onde queres aceno, cruzo os braços
Onde simulas alegria, sou esperança em plenitude
E onde vomitas falácias, entoo meu canto em compassos
Onde queres cercadinho, vivo em comícios
E onde tens sorrisos falsos, transito, eu, entre abraços…

Eu queria perdoar-te, em pleno amor
Ficará para o porvir, antes haverá a sanção penal
Que não é por mim imposta, mas pela Lei Universal
Mais perfeita que a humana, sim senhor!
E se a vida é, sim, real e de viés
Dela nada passa, nem se esconde qualquer ser
Pois isso, até os hoje cegos hão de ver
Porque não te quero pois enxergo o que tu és!

Ah! Dorida flor do querer
Ah! Dorida flor, dorida flor

E no teu epitáfio que se avizinha
Estaremos de braços dados como o vero querer
Livres de ti, ignóbil, insensato, impiedoso e fraco
Um novo país, mais propício a todos, há de se soerguer
Mas, não penses que afastaremos teus ex-seguidores
Pois os arrependidos, haveremos de socorrer
E, no lugar de rancor e ranger de dentes, só amores…

Certo que o quereres levará ao fazeres por fim
Na equidade do respeito aos diferentes
Na compreensão entre todas as gentes
Outros dias, mais claros que estes, enfim
Não serão construção do acaso, nem benesse ou dádiva
Mas flores que adubamos em nosso jardim
No pórtico da verdade, todos se encontram em perspectiva
E o querer que há em você se alinhará ao que há em mim!

* Poesia inspirada na construção literária musicada “O quereres”, de Caetano Veloso. E pontualmente enquadrada para o nosso atual momento no Brasil, nesse setembro de 2022.

Imagem de Syaibatul Hamdi por Pixabay

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3 thoughts on “Revisitando o quereres (de Caetano), por Marcelo Henrique

  1. Marcelo, parabéns!
    Essa música ressoará em meus ouvidos com sua poesia quando eu contar p meu neto a história do Brasil nos tempos duros do Inominável! Obrigada !

  2. Muito bom! A Nação Brasileira urge das vozes, das rimas e das prosas dos poetas e literatos, das músicas, dos cantos dos Sertões, das vilas e das cidades, pra se redimir, pra se purificar, pra drenar e alvejar como na lavação do Bonfim!! Sim, vai ser preciso esse paciente, prudente e cirúrgico Ato!!! Parabéns amigo, e que todos os deuses nos valham, do Arroio ao Chuí, pois que a devastação decretada e executada pelo Genocida e sua vândala Corte, tem a extensão da Pátria inteira e a profundidade do inferno de Dante.

  3. Marcelo Henrique: Muito bons e oportunos os teus versos. Precisamos tirar do poder os seres trevosos e seus seguidores. A poesia é um dos alimentos da alma. Nos redime da dor e da aflição. Viva a arte, a poesia e os poetas. Viva o Brasil e o povo brasileiro.

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