Por que o espírita deveria ser apolítico?, por Nícia Cunha

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Nícia Cunha

A filosofia espírita é eminentemente política, já que explica a inter-relação dos espíritos encarnados e desencarnados durante sua evolução, neste ou em outros mundos das dimensões física ou espiritual. Portanto, participar e contribuir para a melhoria das condições sociais atuando politicamente, é promover o aperfeiçoamento geral, uma das tarefas da nossa condição de “co-criadores”. Afinal, temos responsabilidade parcial no processo.

“[…] a encarnação tem também outro objetivo que é o de colocar o Espírito em condições de cumprir sua parte na obra da criação […] de tal sorte que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta”.
Allan Kardec.
(“O livro dos Espíritos”, resposta à questão 132).

Esta abordagem decorre de vivências junto a grupos espíritas que, a título de serem isentos, se preservarem de “armadilhas”, ou temerem vinculações por recebimento de verbas assistenciais de governos, argumentam contra o envolvimento de pessoas ou instituições espíritas com questões políticas.

Este posicionamento decorre, em primeiro lugar, de uma interpretação equivocada de neutralidade, que em nosso meio, virou omissão. Segundo, pelo desconhecimento do que realmente é a política e seus nobres objetivos, que devem resultar em corretas atitudes na organização e no exercício do poder. É que, infelizmente, estamos acostumados ao seu lamentável avesso: a politicagem.

O “Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa”, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, define a política como “um ramo das Ciências Sociais que trata da organização e do governo dos Estados; a ciência de governar os povos, a arte de dirigir os negócios públicos e estabelecer relações civilizadas”.

Em “O livro dos Espíritos”, a Questão 132 indaga: “Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?”. Em parte, a resposta é: “[…] a encarnação tem também outro objetivo, que é o de colocar o Espírito em condições de cumprir sua parte na obra da criação […] de tal sorte que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta”.

Somente nos envolvendo em atividades sociais e políticas poderemos transformar a sociedade e por extensão a Terra, elevando seu nível. Hoje, podemos agir politicamente através das várias organizações não-governamentais (ONGs) que procuram realizar o que instituições públicas e especialmente as religiões, sempre tentaram e não conseguiram: justiça social, respeito aos diferentes e à natureza em geral.

As melhores conquistas da humanidade surgiram por conscientização e ação política, não decorreram de meras convicções e discursos. As ideias de igualdade, liberdade e fraternidade, não se originaram em órgãos de governo, nem no seio das igrejas, embora seu permanente discurso e clamor por justiça. Idem, quanto à abolição da escravatura, da censura à segregação racial, da aceitação de minorias estigmatizadas, da preservação do meio ambiente, etc. Sempre foram as ações de cidadania, decorrentes da mobilização dos interessados, que pressionaram as organizações sociais para as mudanças, resultando hoje, no que se define como conceitos e comportamentos “politicamente corretos”.

Apesar desses avanços, a grande maioria dos espíritas defende a ideia de que Espiritismo e Política não se misturam. Contrariando essa interpretação, entendemos que a filosofia espírita é eminentemente política, já que explica a inter-relação dos espíritos encarnados e desencarnados durante sua evolução, neste ou em outros mundos das dimensões física ou espiritual. Portanto, participar e contribuir para a melhoria das condições sociais atuando politicamente, é promover o aperfeiçoamento geral, uma das tarefas da nossa condição de “co-criadores”. Afinal, temos responsabilidade parcial no processo.

Embora deva ser lamentado, é interessante notar que, em geral, espírita não vota em espíritas que se propõem a fazer política partidária. Temos vários exemplos de companheiros que postularam cargos eletivos, contaram com votos dos espíritas e não se elegeram.

Nas cidades brasileiras, existem milhares de seguidores da doutrina; entretanto, são poucos os vereadores, deputados e senadores espíritas. Tão ruim quanto não participar, é boicotar os espíritas que se candidatam a um cargo eletivo, especialmente se o argumento está baseado em um “artigo de fé” que não se sustenta, e em detrimento do melhor resultado que certamente adviria do engajamento de um homem de bem.

Sem entrar no mérito de suas propostas, precisamos aprender algumas lições com os evangélicos, cuja capacidade de mobilização lhes dá expressiva representatividade. O conceito de que “política é coisa suja” está de tal modo arraigado em nosso meio, que nos recusamos a admitir que ela só será limpa quando a participação de honestos e bem-intencionados puder fazer a faxina moral de que ela necessita. A questão 932, de “O livro dos Espíritos”, trata do assunto: “– Por quê, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons?” Resposta: “– Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes, os bons são tímidos. Quando estes quiserem, preponderarão”.

Não devemos defender a ideia de fazer proselitismo através da ação política, nem ter como objetivo difundir a doutrina no âmbito governamental para chegar a um “Estado Espírita”. A separação entre Igreja e Estado é uma conquista que não devemos abandonar, pois seria um retrocesso. É também um equívoco, tentar afirmar social e politicamente uma fé, com propósitos de conversão, visando o intuito macro de formar rebanho de adeptos, por julgar que as pessoas, para serem boas, têm que pertencer a um determinado sistema de pensamento, laico ou religioso. Sobre isso, ousamos dizer que Kardec, por estar demasiadamente envolvido com os ideais espíritas, nos comentários da Questão 798, de “O livro dos Espíritos”, foi ufanista e visionário, ao afirmar que após duas ou três gerações, o espiritismo se firmaria em âmbito mundial, ainda mais rapidamente do que o cristianismo se desenvolveu. Usando as próprias teses e métodos kardecistas, o bom senso evidencia, que o espiritismo não é “a” solução para os problemas humanos; é apenas “um dos” vários e bons caminhos existentes para uma conscientização ética e moral, transformadora dos homens e de seus sistemas sociais.

É, porém, adequado e justo, o propósito de mostrar a excelência dos conceitos espíritas, visando embasar leis e políticas públicas. Assim, se queremos progresso e justiça, devemos mudar o discurso vigente de que “Espiritismo e Política não se misturam” pois não há como falar de cidadania sem incluir ação política e não há como falar de ação política sem comunicação.

Temos que nos comunicar e agir politicamente com a base ética da Doutrina Espírita, atuando coerentemente segundo as convicções humanistas nela adquiridas, em nossa vida comunitária e no âmbito das instituições governamentais; fora ou dentro dos partidos com os quais tenhamos afinidades ideológicas – porém sem propósitos exclusivistas, discriminantes.

Se nos isolarmos nas casas espíritas apenas orando e esperando que Deus e os bons espíritos transformem o mundo em que vivemos, jamais promoveremos mudanças. Nelas, nossa função primordial é a de formar líderes conscientes para atuar em sinergia com todos. E não a de sermos meros consoladores, devido ao insucesso dos governos que geram as desgraças sociais que nos atingem, quase sempre em virtude de nossas próprias omissões.

Imagem: Unplash

Acesse os textos da edição em cada link:

Faz Política quem vai, e quem fica, por Célia Aldegalega

O Espiritismo e a legítima luta por um mundo melhor, por Manoel Fernandes Neto

Por que o espírita deveria ser apolítico? por Nícia Cunha

Devemos participar das políticas públicas?, por Geylson Kaio

A Política em moldes espíritas, por Raimundo de Moura Rêgo Filho

A imersão política na essência ética, por Nelson Santos

Participar para evoluir!, por Leopoldina Xavier

 

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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