O espírita e a política, por Herculano Pires

Tempo de leitura: 5 minutos

Por J. Herculano Pires (in memoriam)

Pode o espírita ficar alheio a um problema como esse, que afeta a toda a coletividade? Não. O próprio Espiritismo, como dissemos acima, é uma política superior, aplicada não apenas à cidade do mundo, mas também à cidade celeste e às relações entre as duas cidades. O espírita, portanto, é político, no bom e exato sentido da palavra. Mas a sua política não é nem pode ser feita de intrigas, de golpes, de negaças, de manobras. Só pode ser feita de amor, compreensão, fraternidade e luz.

O Espiritismo é a política do amor. Ligando os homens entre si, na Terra, e os homens com os espíritos, entre a Terra e o Espaço, ele realiza a maior e a mais bela política de todos os tempos, para a boa administração das riquezas públicas do espírito. Mas, sempre que possível, o espírita pode e deve dar, à política do mundo, a ajuda divina da política do céu.

A palavra política vem do grego: “polis”, que quer dizer “cidade”, e significa a arte de governar e administrar a cidade. Como sabemos, as cidades gregas eram Estados. Assim, política é a arte de governar o Estado e administrar as riquezas públicas.

Pode o espírita ficar alheio a um problema como esse, que afeta a toda a coletividade? Não. O próprio Espiritismo, como dissemos acima, é uma política superior, aplicada não apenas à cidade do mundo, mas também à cidade celeste e às relações entre as duas cidades. O espírita, portanto, é político, no bom e exato sentido da palavra. Mas a sua política não é nem pode ser feita de intrigas, de golpes, de negaças, de manobras. Só pode ser feita de amor, compreensão, fraternidade e luz.

Por isso, os espíritas, em geral, são estranhos à política do mundo. Detestam o ambiente de mesquinhez interesseira em que se processam as manobras políticas. E não admitem que o Espiritismo seja envolvido na política, com o que fazem muito bem. Os poucos espíritas que se tornam políticos mundanos, se são realmente sinceros e firmes na sua fé, enfrentam duras dificuldades e terríveis sofrimentos. Porque não pode um espírita sincero respirar com naturalidade no ambiente pesado e malsão da política mundana. Os que se adaptam a esse ambiente são dignos de piedade, pois sacrificam a mais bela oportunidade de aperfeiçoamento espiritual que Deus lhes concede, em troca do prato de lentilhas dos interesses mundanos. Breve passa a vida presente desses irmãos, pois breve é a nossa vida na Terra, e ao entrar na vida espiritual eles vão lamentar o tempo perdido e a oportunidade desperdiçada.

Bem disse o Cristo: “O meu reino ainda não é deste mundo.” Porque um dia o será. Quando passar esta época de transição, e a Humanidade entrar na fase de regeneração de que nos falam O livro dos Espíritos e O Evangelho segundo o Espiritismo, o Reino do Cristo começará a firmar-se entre os homens. Uma humanidade que se regenera está a caminho do céu. As leis mundanas começarão a modificar-se, influenciadas pelas leis divinas. Kardec estuda esse problema com a ajuda dos Espíritos, ao tratar da influência do Espiritismo na legislação do mundo.

Quando isso acontecer, os espíritas não mais precisarão abster-se da política, mas, pelo contrário, deverão integrar-se nela, para auxiliá-la a evoluir mais rapidamente.

Até lá, porém, ainda há muito tempo a correr. E os espíritas deverão, por muitos anos ainda, manter-se de atalaia quanto às fascinações e os perigos da política. Devem por, sobretudo, o maior cuidado em evitar as infiltrações políticas nas sociedades espíritas, particularmente nos Centros Espíritas, que devem ser casa de oração e de paz, de amor e fraternidade. Como conciliar essas luzes celestes com os ódios, as intrigas, as disputas mesquinhas da política? Atualmente, os Centros Espíritas que se deixam levar pela política estão preferindo César a Deus. Estão, na verdade, desvirtuando as suas funções, desviando-se dos caminhos árduos do espírito e mergulhando no caminho largo e fácil das comodidades materiais. Infelizes dos irmãos que não percebem isso e se deixam fascinar pelas facilidades ilusórias da política mundana. Bem caro pagarão na vida espiritual.

O argumento principal dos espíritas fascinados pela política é o de que não podemos entregar aos maus a direção da vida pública. Mas quem lhes deu o direito de se julgarem melhores do que os outros? O simples fato de haverem aceitado o Espiritismo não lhes confere esse direito. O Espiritismo é o remédio para os males do mundo. Quantas vezes nós, os espíritas, nada mais somos do que as partes enfermas do mundo, submetidas à medicação do Espiritismo? O espírita deve ser suficientemente humilde para não se acreditar capaz de reformar o mundo e transformar a sociedade, pela sua simples participação na vida política. Se não o for, estará sujeito a muitos enganos, e principalmente estará exposto à influência mistificadora de espíritos perversos, que sempre se aproveitam das nossas pretensões vaidosas, para nos transformarem em seus instrumentos. Tomemos o nosso remédio espírita, curando-nos primeiro, para depois auxiliarmos os outros a se curarem. E que Deus nos permita uma cura rápida, apesar de nossos muitos males, às vezes crônicos, velhos de muitas encarnações.

Nem por isso, entretanto, o espírita deve abster-se dos seus deveres políticos. Muito pelo contrário, esses deveres devem ser cumpridos escrupulosamente pelos espíritas. Lavar as mãos na bacia de Pilatos não é a atitude a assumir. Mas cumprir os deveres políticos é coisa bem diferente de entregar-se à vida política. Para cumprir aqueles, basta-nos observar as leis, comparecer aos pleitos eleitorais, votando com pensamento elevado e sem paixões, apoiar, com bons argumentos, e quando possível com ajuda prática, as boas causas, defender os oprimidos, livrar-se sempre de apoiar as causas más, injustas, prejudiciais à coletividade, e livrar-se principalmente de compromissos com os crimes políticos, seja em benefício próprio ou de outros, e mais ainda com a pretensão absurda de beneficiar o Espiritismo ou instituições espíritas. Para entregar-se à vida política, é necessário envolver-se em todas as suas complicações, em todas as suas mazelas atuais.

A política do mundo é feita, ainda, da paixão pelas coisas mundanas, particularmente a paixão do poder, que embriaga a vaidade humana. O espírita tem outra política a executar: a da humildade, que identifica o homem com os infelizes, os sofredores do mundo, e não o leva para as altas posições terrenas, mas para os postos de socorro da caridade cristã. No meu Reino, disse o Cristo, os maiores são os que servem. O primeiro dever político do espírita é servir. E para servir ele não precisa de cargos em partidos políticos, de cargos ou postos na administração pública. Basta-lhe o senso espírita da caridade, em todas as suas formas, segundo ensina o Espiritismo. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”: que melhor política pode existir do que essa? Pois é essa a política espírita e, portanto, a política de todo espírita sincero.

Jesus não precisou da política romana ou da política judaica, para cumprir a mais bela e mais eficaz de todas as missões políticas já realizadas no planeta. Kardec não precisou da política francesa, para implantar na França e no mundo a política de amor do Espiritismo.

O espírita, quando levado à vida pública por circunstâncias independentes da sua vontade pessoal, não deve esquivar-se ao cumprimento dos seus deveres. Mas deve estar no cargo como um administrador consciente de bens alheios, empenhado na prática do amor e da justiça. Nunca deve empenhar-se em disputas políticas que dividem as criaturas e semeiam o ódio.

Nem deve admitir, para agradar ao partido ou à administração que foi levado a servir, nenhum ato de injustiça para os que pertençam a facções contrárias.

Concluindo:

  • O espírita, desde o momento em que aceitou conscientemente o Espiritismo, alistou-se na política do amor universal;
  • seu único partido é o do Reino de Deus, e sua plataforma política é o Sermão da Montanha;
  • caso seja levado a cargos públicos, chamado a qualquer atividade política do mundo, não deve esquecer a sua qualidade de espírita, e tudo há de fazer para que a luz que nele há não sejam trevas;
  • amor e caridade devem constituir as suas armas políticas, mesmo que isso lhe custe a oposição dos próprios companheiros, pois é melhor estar só com a Verdade do que estar acompanhado pela mentira.

Referências:

Texto extraído da segunda parte da obra O tesouro dos espíritas: guia prático para a vida espírita, de Miguel Vives, assinada por Herculano Pires, Ed. Edicel.

Imagem de Franz Bachinger por Pixabay

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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