Marcus Braga e Marcelo Henrique
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Para além da indignação que possa estar sendo dirigida a certo personagem, é necessário entender com uma lente mais perspicaz e adequada ao “zetgeist” vigente numa arena que já se estende por algumas décadas, na política nacional: progressistas versus conservadores. No filme do momento, se destacam o orgulho e o egoísmo, embora, agora, estejam disfarçadas de virtudes puras e moralistas.
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O padre Júlio Lancelotti é uma pessoa que quando contarmos de seus feitos daqui a 20 anos, as pessoas duvidarão se era mesmo verdade. Talvez seja o melhor exemplo vivo de como Jesus de Nazaré seria tratado se nascesse no Século XXI. Já tivemos oportunidade de, no Portal ECK, abordarmos esse importante personagem não só para a cristandade quanto para o humanismo que exorbita dos cenários religiosos [1].
Figura inspiradora, mas, ao mesmo tempo, muito atacada nesses tempos sombrios que atravessamos, onde os fundamentalismos e as ideologias de viés político tentam sobressair sobre os valores, o humanismo e o Espírito. Nesse início de dezembro de 2025, uma notícia espantosa sobre o Padre Júlio reverberou nas mídias e redes sociais: sua remoção da paróquia onde atuava e, ainda, o impedimento de suas atividades e manifestações pela Internet.
Um episódio que não somente ilustra o fenômeno do cancelamento, esta prática abjeta que possui alvos e em que os algozes, quase sempre se ocultam em perfis anônimos ou disfarces, mas que também resulta de uma determinação hierárquica na ordem católica. Esta última, inclusive, surpreende por se basear em uma alegação de estar protegendo o sacerdote, relembrando a música “Proteção” (1986), da Plebe Rude: “Será verdade, será que não / nada do que posso falar / e tudo isso pra sua proteção”.
Debruçando-nos sobre esta temática, para além de um “mero” assunto interno da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), nos interessa esse tema nas linhas da imprensa espírita (sobretudo crítica) no sentido de abordar tudo o que o religioso faz e porque ele desperta, contra si e sua obra, tanto ódio. A necessária análise que realizamos, assim, diz muito mais acerca do espírito do nosso tempo ― “zetgeist” [2] ― do que sobre o próprio religioso em si.
Entendemos necessário um ponto de partida histórico-cultural-ético: a essência da atuação de Lancelotti é, claramente, o amparo, a proteção material-espiritual e a defesa incondicionada dos desvalidos, dos marginalizados, das minorias e daqueles que não têm acesso ao mínimo básico para uma vida com dignidade. Em suma, pode-se dizer que ele vive um cristianismo-raiz e fiel, adaptado às mazelas e iniquidades desse nosso atribulado Século 21, exemplificando ser possível um outro paradigma. É isso, sem tirar nem pôr!

Se, há dois mil anos, a “mídia” era a conversação boca a boca, a divulgação ao pé do ouvido, o “ouvi dizer” e a possibilidade de alteração da mensagem original e/ou dos fatos em face do viés interpretativo dos comunicantes, hoje a disseminação das informações alcançou um patamar de instantaneidade e de alcance jamais vistos e que ampliam consideravelmente o universo daqueles que se encontram diante dos acontecimentos [3].
Mas por que isso (nos) incomoda tanto? Por que, então, Jesus de Nazaré, a seu tempo, igualmente incomodou tanto os poderes da época a ponto de ser condenado à morte na crucificação? Seriam, as motivações, similares? O que esses dois homens faziam/fazem de tão herege a ponto de gerar revoltas tão inflamadas? A resposta, entendemos ser sabida, pois já vimos esse filme várias vezes.
Para além da indignação que, entendemos, esteja sendo dirigida a uma autoridade eclesiástica superior ao pároco, em razão de medidas administrativas da cúria em relação à (costumeira) atuação daquele, é necessário entender com uma lente mais perspicaz e adequada ao “zetgeist” vigente numa arena que já se estende por algumas décadas, na política nacional: progressistas versus conservadores. Senão, vejamos…
Pode ser que a limitação das atividades de Júlio, na verdade, sejam uma forma de blindá-lo diante de uma perseguição implacável que não data da atual denúncia à Santa Fé ― e que tem rendido ao segmento político conservador os “dividendos” do momento. Trata-se, como o ECK já abordou em outras situações, de um combate sistemático a quem adota um cristianismo de base e se devota ao atendimento das mesmas classes populares que, desde o programa Bolsa Família, atende este numeroso contingente de brasileiros e, também, às políticas inclusivas à comunidade LGBTQIAPN+, que, felizmente, são realidade em nosso país, atendendo-se claramente aos pressupostos constitucionais e às linhas jurisprudenciais do Supremo Tribunal Federal.
Entendemos, nós, que a preservação do ministério juliano, neste caso, é o essencial ― assim como o de outros religiosos (e não-religiosos) que se dediquem às causas (verdadeiramente) sociais e consagrem o exercício da fraternidade como premissa inafastável. Lancelotti, neste caso, pode estar enquadrado naquele personagem da parábola de Yeshua (Jesus), que “estava nu e alguém o vestiu”. E a vestimenta, protetiva, salvaguardadora e valorativa da essência do clérigo, pode ser confundida com uma pretensa atitude de mordaça. Quando pode não ser.
De outra sorte, também pode ser aventada a preservação da instituição secular, diante do bombardeio diário motivado pelas ideologias (políticas e religiosas, marcadamente), que não deve servir a dois senhores ― isto é, não se destina a apoiar ou rechaçar candidatos, partidos ou ideologias sociomateriais, porque se ancora em ideais superiores, de fé e religiosidade ou espiritualidade ― circunstância que, dada a limitação e inferioridade dos humanos (nós) nem sempre se verifica. Daí a necessidade dos freios e contrapesos, como acontece no cenário jurídico-político-social.
Voltando ao filme sempre visto ― e é aí que entra o Espiritismo ― o enredo e a performance dos personagens demonstram claramente o atraso evolutivo em que nos encontramos. No elenco, as estrelas são o orgulho e o egoísmo, as antigas mazelas já consagradas pela crítica especializada, mas que, agora, se acham disfarçadas de virtudes puras e moralistas, para lograrem o Oscar desse momento. Foram elas, repetidas vezes, as balizas que subsidiaram ideologicamente cruzadas, inquisição, escravidão e chacinas ao longo da história da humanidade. E que agora, revisitadas, podem ser chamadas de cancelamentos…
Notas dos Autores:
[1] São os artigos “Lancelotti: ícone de solidariedade num mundo árido” e “Apreciações espíritas sobre a fome: a fome num país de farturas ― as lições de Helder, Betinho, Boff, Lancellotti, Herculano, Chico… e quanto a nós?”, que figuraram no Portal ECK, cujas referências completas estão em “Fontes”, abaixo.
[2] termo alemão que significa o “espírito do tempo”, ou o clima intelectual, moral e cultural de uma determinada época, derivado do conjunto de ideias, tendências e valores de uma geração, úteis para o entendimento do comportamento humano naquele recorte temporal.
[3] Segundo a BBC Brasil, Julio Lancelotti possui mais de 2,3 milhões de seguidores no Instagram, sendo um dos maiores influenciadores do catolicismo brasileiro.
Fontes:
Henrique, M. Lancelotti: ícone de solidariedade num mundo árido. 4. Jam; 2024. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. Disponível em: <LINK>. Acesso em 17. Dez. 2025.
Henrique, M. Apreciações espíritas sobre a fome: a fome num país de farturas – as lições de Helder, Betinho, Boff, Lancellotti, Herculano, Chico… e quanto a nós? 26. Jul. 2025. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. Disponível em: <LINK>. Acesso em 17. Dez. 2025.
Veiga, E. Padre Júlio Lancellotti proibido de fazer lives: quando e como a Igreja censura seus religiosos. “BBC Brasil”. 17. Dez. 2025. Disponível em: <LINK>. Acesso em 17. Dez. 2025.
Foto Rovena Rosa – Agência Brasil





Pois é, senhores: este é um alerta contra o orgulho e o egoísmo, travestidos de virtude, que continuam ditando as regras do jogo social. O cancelamento atual é apenas uma versão moderna das antigas estratégias de exclusão.