Espíritas sem Evangelho, são espíritas?, por Vladimir Alexei

Tempo de leitura: 8 minutos

Vladimir Alexei

***

O Espiritismo não é para a multidão. Ele é uma filosofia que precisa ser pensada, refletida, sentida, comentada, compartilhada sem fechar questão, sem que se precise ser o “dono da verdade” e muito menos aquele que vai dar a palavra final. O Espiritismo é progressista, o que significa dizer que, tanto nós progredimos a compreensão sobre o Espiritismo ao longo da vida, quanto o próprio Espiritismo vai sendo compreendido por outros prismas naquilo que diz respeito às revelações trazidas pelos Espíritos (ditos) Superiores.

***

O Espiritismo é uma fonte rica de ensinamentos. Muitos se sentem incomodados porque esses ensinamentos conflitam com o comportamento individual. Em alguns casos, muitos preferem tentar mudar o Espiritismo e manter o próprio comportamento; mas, o tempo nos ensina que mudar um comportamento não é tão trivial quanto fazem parecer os “coaches” e os gurus de autoajuda.

Quando Allan Kardec questiona aos Espíritos Superiores qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para servir-lhe de guia e modelo, as Inteligências Invisíveis respondem: “vede Jesus” (Kardec, 2004:223).

A palavrinha “vede”, que não aparece em todas as traduções, têm sido motivo de reflexões, algumas profundas e outras que apenas tentam ser profundas, mas acabam trazendo algum holofote para essa discussão. Sim, ao interpretar o “vede Jesus” muitos espíritas ampliam para “vede Buda”, “vede Confúcio” [1], e assim por diante, como se fossem Espíritos do mesmo nível, de acordo com a Escala Espírita [2]. Ao definirem um (“vede Jesus”), os Espíritos deixam claro que há um maior, embora isto também seja interpretativo e aqueles que pensam diferente, por serem “laicos”, ou por não se considerarem “cristãos”, vão discordar.

Contudo, o que não se “vê”, ou o que se vê pouco, a ponto de normalizar, é a resistência de alguns espíritas em aceitar Jesus. De acordo com o “meme” (de redes sociais), o problema aparece quando envolve o nome de Jesus é o seu “fã-clube”. Jesus tem, portanto, defensores e detratores de todas as ordens e classificações, difíceis até de se enumerar em um artigo.

Os aludidos Espíritos Superiores são claros: “vede Jesus”. É para ver, seguir, compreender, assimilar, orientar-se, conduzir-se, pelo tipo “mais perfeito”. Não há, para mim, dúvida alguma nesse ponto e nem margem para elucubrações. O guia e modelo é Jesus [3].

Ao longo da vida, à medida em que se vai compreendendo os ensinamentos de Jesus, alguns deles vão sendo priorizados, em detrimento de outros. Não se vive, ainda, a plenitude dos ensinamentos de Jesus. Existem exemplos na História que se notabilizaram pela forma como conseguiram colocar em prática os ensinamentos de Jesus. E isso não diz respeito ao “efeito” dos ensinamentos – aquilo que é percebido pela sociedade –, e sim à causa dos ensinamentos – o que eles de fato provocam na intimidade de cada um.

Os efeitos podem ser manifestados de forma “religiosa”, em função de alguns religiosos terem se destacado na sociedade. São Francisco é um exemplo de desprendimento, renúncia e fraternidade que causa espanto até hoje. Dotado de uma mediunidade de efeitos físicos bastante aflorada, relatos de fenômenos diversos permeiam a sua biografia. Outros tantos religiosos se notabilizaram pela maneira como interpretaram os ensinamentos de Jesus e conseguiram praticar os mesmos.

Todavia, de acordo com a interpretação que podemos dar a uma passagem do Evangelho, existem a porta “larga” e a porta “estreita”, simbolizando que nem todo religioso consegue colocar em prática os ensinamentos de Jesus. Seguindo essa lógica, que parece absolutamente plausível, o oposto também acontece. Vejamos…

Aquele que não segue o Evangelho, que não tem Jesus como guia e modelo, não quer dizer que seja uma pessoa melhor. Nem pior. O que temos verificado em alguns é que eles podem até ser mais cultos, versados, falam bem, escrevem bem, expõem com clareza seus pensamentos, mas na hora em que o “calo aperta” – como se diz no interior de Minas –, isto é, na hora em que é para colocar em prática os ensinamentos morais aprendidos na Doutrina Espírita a ponto de transformar seu comportamento, é possível que não se saiam melhor do que aqueles que tem um guia e modelo.

Parece simplista, mas não é. Aqueles que têm um guia e modelo, de fato, já tem uma referência a seguir. Pensando em termos práticos, para além da vida material. Podem não saber seguir, podem errar o tom e o colorido na hora de seguir, mas já possuem uma referência. Aqueles que não entendem Jesus como guia e modelo, podem, por vezes, se manter apenas na superfície.

Manter-se na superfície, entretanto, não é demérito, por razões óbvias: aqueles que seguem Jesus também se encontram em momento similar. Diversos estudiosos podem conhecer o Antigo e o Novo Testamentos, mas isso não significa dizer que os conhecem além da superfície. E isso inclui aqueles que estudam o Evangelho de forma “detalhada”, porque é somente detalhado na letra, pois que é interpretado conforme a letra, na mera simbologia.

Se ambos, então, apresentam semelhanças, qual a diferença? Ou quais as diferenças? A resposta não é definitiva, mas progressiva. Hoje são meras especulações. Contudo, é possível ter-se uma ideia, pelo que se depreende, por exemplo, na divulgação do Espiritismo: ao nosso ver, os que não seguem Jesus não são melhores do que aqueles que elegeram Jesus. Todavia, talvez os “laicos” sejam melhor articulados, mais cultos e por isso até, menos “chatos” do que o “fã-clube” de Jesus, que insiste em repetir os erros de religiões convencionais.

Talvez – e isso incomoda –, existam aqueles que reconhecem Jesus como guia e modelo, mas também reconhecem, respeitam e se afinizam com o modelo “laico” (em função, é claro, muito mais por causa do “fã-clube” do que pelo entendimento doutrinário). É possível visualizar alguns que procuram se manter fiéis ao processo filosófico de aprendizado, com a liberdade para compreender os movimentos, respeitá-los, e optam por seguir um caminho que procura fugir dos estigmas (“laico” e “religioso”, uma reedição dos “científicos” e “religiosos”, presentes no início do século XX, período em que o Espiritismo chegou ao Brasil). Assim, os que assim agem podem dedicar mais tempo ao estudo do que realmente interessa.

Não sei se os “religiosos” em geral teriam a franqueza ou a transparência de expor o que pensam para os laicos, como tentamos fazer nessa reflexão. Se o fazemos, é porque não temos a mínima pretensão de mudar a forma de pensar de qualquer pessoa. Aliás, é importante que existam esses diferentes pensamentos porque, quando um lado se excede, o outro acusa e assim uns e outros vão caminhando, mais próximos do que se imaginam porque ambos procuram fazer o seu melhor: levar o Espiritismo em sua melhor versão para aqueles que não o conhecem, fazendo com que muitos possam se servir desse banquete espiritual.

Diante do cenário desenhado, resta a dúvida apresentada no título do artigo. Esse aprendiz de escriba não consegue conceber uma interpretação do Espiritismo “completa”, sem Jesus. Participamos por muito tempo dos debates em entidades laicas, sempre de forma reservada, como aprendizes e, eventualmente, emitindo alguma reflexão. Lemos autores laicos, alguns brasileiros, outros de fora do país, sempre respeitando seus pensamentos e tentando compreendê-los. Contudo, a conclusão que chegamos é a de que é mais forte a resistência aos “religiosos” do que ao pensamento de Jesus. Não são, os que assim se portam, contra Jesus. O elemento principal é: eles pensam diferente do “fã-clube”.

O Espiritismo não é, pois, uma religião convencional [4] – veja-se que o Professor francês falou em uma religião em sentido filosófico (Kardec, 1993) [5]. Logo, estudar Jesus pelas lentes do Espiritismo é um convite a enxergar Jesus de forma diferente, aplicando os conhecimentos doutrinários para melhor compreender o que Jesus trouxe de tão relevante [6].

Contudo, o “fã-clube” cheira à “sacristia”, como já ouvi de um Espírita querido, já desencarnado, e que foi um grande divulgador do Espiritismo em Minas Gerais. Tão grande que passou décadas no anonimato, apenas trabalhando no Espiritismo, sem nunca buscar a ribalta, voluntariamente. Quando isso acontecia era por força externa. Os mineiros vão se lembrar de quem falamos. Preferimos, como afirma o dito popular, contar o milagre sem dizer quem foi o santo…

O mesmo erro os espíritas ditos “religiosos” cometem ao estudar obras daqueles que interpretam o Evangelho, como é o caso do Espírito Emmanuel. Tenho visto há anos: as pessoas abrem ao acaso ou até estudam de forma sistemática o pensamento do autor citado; porém, ao invés de tentar entender o que ele teria interpretado sobre os ensinamentos de Jesus, fazem a “interpretação da interpretação”. É a brincadeira do telefone sem fio. Fogem quase sempre da ideia principal que é entender o pensamento daquele que interpretou Jesus.

Talvez por isso o “fã-clube” seja de lascar: a interpretação da interpretação, faz com que conhecimentos relevantes do ponto de vista filosófico sejam perdidos e, com isso, se descaracteriza o pensamento do intérprete. Se tivéssemos a simplicidade para estudar, tentaríamos, primeiro, compreender o pensamento do intérprete. Traduzi-lo, assimilá-lo. Depois, aí sim, elaborar novas informações. Na prática o que se vê é: Emmanuel interpreta uma passagem do Evangelho, as pessoas leem o que o autor escreveu e comentam outra coisa completamente diferente, sem conexão com o intérprete e muito menos com o Evangelho. Isso não é “estudo aprofundado” nem aqui e nem em lugar nenhum!

Dessa forma, jornadeiros espíritas, não é difícil compreender porque muitos se afastam das casas espíritas e do “fã-clube”. Seja o indivíduo laico ou religioso, todos estão se esforçando para divulgar o Espiritismo. Cabe lembrar que o Espiritismo não é para a multidão. O Espiritismo é uma filosofia que precisa ser pensada, refletida, sentida, comentada, compartilhada sem fechar questão, sem que se precise ser o “dono da verdade” e muito menos aquele que vai dar a palavra final. O Espiritismo é progressista, o que significa dizer que, tanto nós progredimos a compreensão sobre o Espiritismo ao longo da vida, quanto o próprio Espiritismo vai sendo compreendido por outros prismas naquilo que diz respeito às revelações trazidas pelos Espíritos (ditos) Superiores.

Ainda assim, nossa singela interpretação é no sentido de que os “espíritas com o Evangelho” precisam repensar a forma como estudam, assim como aqueles que estudam o Espiritismo mas ignoram a importância do Evangelho, fazem uma ginástica tremenda para não esbarrar no pensamento de Jesus que permeia toda a obra de Allan Kardec (atente: o pensamento de Jesus e não do seu “fã-clube”). Todos são espíritas, sem dúvida! Mas, entendo que tudo poderia ser diferente… E você, o que pensa disso?

Fontes:

Barros, B. F. (2024). O verdadeiro significado de religião para Kardec. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 25. Mai. 2024. Disponível em: <LINK>. Acesso em 27. Jan. 2026.

Henrique, M. (2023). O Espiritismo fortalece a Religião sem ser Religião. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 27. Jul. 2023. Disponível em: <LINK>. Acesso em 27. Jan. 2026.

Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (1993). “Revue Spirite”. Trad. Salvador Gentile. Revisão de Elias Barbosa. Araras: IDE.

Maurício, S. (2021) Uma religião espírita? “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 11. Out. 2021. Disponível em: <LINK>. Acesso em 27. Jan. 2026.

 

Notas do ECK:

[1] Os citados personagens da História da Humanidade – Buda, Confúcio e tantos outros, não referidos – simbolizam seres com nível progressivo espiritual amplamente superior ao nosso padrão, tanto o da época de Kardec quando na contemporaneidade.

[2] Entendemos que a Escala Espírita é enunciativa e não definitiva. Ela apresenta os caracteres de uma hipotética classificação elaborada com Kardec, a partir das informações (mediúnicas) existentes e conforme um critério pessoal do Professor francês.

[3] Estima-se que cerca de um terço da atual população do planeta se identifique com o Cristianismo, seguindo o padrão cristão que reconhece em Jesus o papel principal. Todavia, dois terços – a maioria – da Humanidade terrena não o é. E há um sem-número de pessoas que sequer ouviram falar do personagem da cristandade. Então, a afirmação do articulista “O guia e modelo é Jesus” somente faz sentido para quem reconheça Yeshua como tal referência e não tenha qualquer significado, mesmo que simbólico, para os demais. Daí, entendermos que a obra espírita, possuindo vinculação com o pensamento de Jesus assim como com a doutrina de Sócrates e Platão (vide “Introdução” de “O evangelho segundo o Espiritismo”), apresente a centralidade nos ditos e feitos daquele Carpinteiro.

[4] Para entender de forma mais detalhada e profunda a caracterização do Espiritismo, distante do conceito usual de religião, há um trabalho acadêmico em nosso Portal, intitulado “Fé inabalável e razão: o significado de religião para Allan Kardec”, que pode ser “baixado” gratuitamente, acessando-se a referência “O verdadeiro significado de religião para Kardec”, em “Fontes”, acima.

[5] Alusão ao discurso de Kardec, proferido em 1º de novembro de 1864, “O Espiritismo é uma religião?”, encartado no fascículo de dezembro de 1868, da “Revue Spirite” sob o título “Sessão Anual Comemorativa dos Mortos”. Acerca do tema, indicamos o texto “Uma religião espírita?”, cuja referência completa está, neste artigo, em “Fontes”.

[6] Kardec vai além do “Cristianismo” ou da mensagem de Jesus, em específico, e contempla todas as religiões ou crenças, num artigo escrito em fevereiro de 1862, também na “Revue Spirite” (“Resposta à mensagem dos espíritas lioneses por ocasião do Ano Novo”). Nele, ele afirma: “O Espiritismo é uma doutrina moral que fortalece os sentimentos religiosos em geral e se aplica a todas as religiões; ele é de todas, e não é de nenhuma em particular; por isso não diz a ninguém que a troque; deixa a cada um livre para adorar Deus à sua maneira e para observar as práticas que sua consciência lhe dita, pois Deus leva mais em conta a intenção do que o fato”. Em um ensaio de nossa lavra (“O Espiritismo fortalece a Religião sem ser Religião”), trabalhamos com esse conceito. Vide em “Fontes”, neste artigo.

Imagem de Hello Cdd20 por Pixabay

Written by 

Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.